ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
Honduras: a América Latina na encruzilhada
06 de julho de 2009, Bruno Lima Rocha, do Rio Grande outrora altaneiro 

Retomando o debate depois do vôo de retorno frustrado de Zelaya 

Escrevo este curto artigo mais reflexionando conceitos e passagens históricas 
de golpes, anti-golpes e linhas de ação em momentos limites de nossa América. 
Ainda nesta semana, retorno à análise retroativa aos primeiros dias após o 
Golpe de Estado em Honduras e suas conseqüências imediatas. Isto porque, 
qualquer predição conclusiva agora seria puro palpite. Outros analistas, de 
envergadura bem superior a minha já o fizeram no início da semana posterior ao 
Golpe e deram com burros n’água. Como se diz na roça, “jogo é jogado e lambari 
é pescado”; e, como se sabe nas entranhas do Continente, a guerra é guerra e se 
ganha ou perde nos campos de batalha. Vamos às modestas palavras que seguem. 
No momento que escrevo estas linhas, o vôo que levava o presidente deposto 
Manuel Zelaya já passou pelo aeroporto de Tegucigalpa e, graças ao bloqueio da 
pista de parte dos militares ali presentes, o avião venezuelano onde voava teve 
que ir-se. Passou por Manágua (Nicarágua) para reabastecimento indo em seguida 
para San Salvador (El Salvador). A intensidade repressiva das tropas ostensivas 
também era esperada. Alguns veteranos dos ’70 comentaram-me que Toncontín (nome 
do Aeroporto Internacional da capital hondurenha) ia ser como a Ezeiza dos 
centro-americanos. 

Sim, se alguém supõe que me refiro à aterrissagem do general Perón, acertou. Em 
20 de junho de 1973 a juventude argentina se depara com a pátria peronista 
acompanhada de mercenários franceses acima do palco onde se ia celebrar “no dia 
do reencontro nacional”. O que passou foi um massacre, um princípio de divórcio 
público de algo já visível para um observador de fora do contexto complexo da 
“interna” que era guerra a morte entre as formações especiais e as 62 
organizações. A direita peronista ia alimentar a Triple A, o Comando da 
Organização, a Guarda de Ferro e outras excrescências de tipo fascista. O povo 
que ali estava mudou seu papel no espetáculo da política. De multidão 
mobilizada esperando seu líder popular foi feito de alvo dos fuzis, pistolas e 
metralhadoras. 

Mas, os então jovens – la muchachada había cambiado - já não eram os mesmos. As 
respostas não demoraram a chegar, encontrando seu destino em gente como José 
Ignacio Rucci, herdeiro de Augusto Timoteo Vandor entre outros tantos mafiosos 
mais, mandando-os para o inferno. Essa era a diferença: ter capacidade de se 
organizar e estar à altura do desafio que se apresentava naquele momento 
histórico. Isso é o que, desde longe, alguém modestamente percebe como o que 
está passando em Honduras. Há vontades e capacidade de mobilização, mas se o 
momento do Golpe chegou, isto se deu porque as forças do povo e o governo de 
turno, neo aliado da ALBA, não souberam antever a situação. Poderia ser 
possível que, ainda que com toda a análise de antecipação, se pudesse fazer 
algo. Pode ser que não. Mas, ao não ter um dispositivo anti-golpe, o governo do 
oligarca convertido Manuel Zelaya se entregou ao ocaso. 

Passamos por algo assim e o sofremos no Brasil por 21 anos de ditadura. Houve 
chance real de reação entre o 31 de março e o 1º de abril de 1964 (no Brasil) e 
o então presidente João Goulart (Jango) reagiu pouco ou nada. Havia um mito 
circulante, o da antimili, grupo de militares leais a Luís Carlos Prestes 
dentro das Forças Armadas (FFAA), mas este não atingiu para frear uma 
conspiração visível que se iniciasse abertamente em 1961. No Chile, não 
faltaram avisos ao médico Salvador Allende. A Guarda Técnica era insuficiente e 
assim foi em seu momento decisivo. E, sem nenhum equívoco podemos dizer o mesmo 
de abril de 2002. Se não fosse pelo valente povo de Caracas, hoje teríamos um 
governo esquálido e vende-pátria na terra de Ezequiel Zamora. Se assim se 
sucedesse, portanto seria irrefreável o processo de integração forçada pela 
ALCA, na época em fase de pré-acordo realizado por Bush Jr. e Lula. Não digo 
com isso que o processo de
 mudança social na Venezuela passa pelo Palácio Miraflores (casa de governo) e 
nem menos ainda pela convivência mediada com a democracia liberal ao mesmo 
tempo em que avança a participação popular. Estes passos têm limites, e a lição 
veio de Honduras. 

O Plano Puebla-Panamá revive com o golpe 

O Império tem perdido seu rumo interno, mas é certo que os braços políticos do 
Complexo Industrial-Militar, agora se somando com as empresas de guerra 
privada, não o perderam. Sim, refiro-me ao Departamento de Estado, ao Pentágono 
e especificamente ao Comando Sul. É preciso recordar o papel fundamental que 
vem cumprindo o território de Honduras e o para-militarismo interno como cabeça 
de ponte para a Contra centro-americana dos ’80. O que hoje representa a 
Colômbia para Sul-américa o foi o país que sofre o golpe para a América 
Central. Há que recordar que em 2002, pouco antes do golpe e o contra golpe em 
Venezuela, já se tinha como “situação consumada” a integração capitalista da 
América Central como plataforma de exportação e planta de montagem 
(maquilladora) gigante para os EUA então recém saindo do choque do 11 de 
setembro e da crise da bolha das empresas ponto.com. Naquele momento ainda 
estava por vir a política externa
 mais agressiva da ALBA e a mega fraude do capitalismo financeiro através da 
borbulha imobiliária yankee. 

Se em 2002 havia pouca alternativa para um país com a economia brasileira, 
poucos anos depois uma nação empobrecida como Honduras, que tem a marca de 
exportar 70% de seu comércio exterior para os EEUU (todo composto por produtos 
primários não industrializados) e importar do Império a 55% do que entra, tinha 
pouca ou nenhuma saída. Temos de compreender que na política, quem decide pode 
mudar suas lealdades em função de um projeto de poder razoável e próprio. Esta 
seria uma explicação plausível para a aproximação de Zelaya com Chávez. A 
situação interna, controlada por dois partidos oligárquicos ocupando gravitação 
central em um sistema político montado por um acordo da elite do país, 
somando-se a ação da Contra (e a aliança destes com os narcotraficantes), teria 
de ser de estrangulamento do presidente eleito. Se existe novidade, é a forma 
de dar o golpe, compondo uma saída com máscara institucional e não mais a 
violência
 aberta como se deram os golpes nos ’60 e ’70. Neste caso, o Partido Nacional 
de Honduras, como porta-voz e forma organizativa tradicional, cumpre um papel 
fundamental. A partir de relações interdependentes da política, a economia, a 
hierarquia militar, o lugar no mundo que conforma uma ideologia colonizada da 
elite local, somadas a um controle de meios e as relações carnais da alta 
hierarquia castrense com a Escola das Américas, a tomada de decisão das 
instituições por parte de altos comandos do Congresso, do Corte Suprema, o Alto 
Comando das FFAA, e as cúpulas partidárias, não foi tão difícil. 

ALBA e mecanismo plebiscitário: iniciam-se os preparativos do golpe 

Quando a partir de janeiro de 2008 um homem do sistema termina de romper 
parcialmente com sua classe de origem e assina a entrada de Honduras, Zelaya 
declara a guerra frontal ao Império e às viúvas de Reagan e Bush pai em seu 
país. Repito essa sentença para que compreendamos, pois Manuel Zelaya é um 
homem de dentro, não foi um líder político recrutado em bairros populares nem 
nada por estilo. Ele por sinal vem do mesmo partido que o golpista Roberto 
Micheletti, o Partido Liberal. Com sua aproximação a uma saída econômica mais 
interessante em seu país, para diminuir o abismo social, conseguindo com a 
Venezuela um preço razoável pelo custo da energia através do petróleo, 
iniciou-se uma corrida contra o relógio para derrocar a Zelaya. 

Com o dito acima, ficaria um tema mais para abordar, que é o limite da 
democracia de ritos e procedimentos ao ver-se adiante da outra democracia. No 
domingo 28 ia iniciar-se um processo de institucionalização da nova 
legitimidade. Ou seja, com a consulta popular, através de um referendo não 
vinculante, os hondurenhos iam deixar explícita sua vontade de não aceitar uma 
constituição escrita (em 1982) como pacto político após a ditadura que termina 
em 1981. Ao promover o golpe em um dia de consulta pública, manda-se uma 
mensagem a todos os latino-americanos. De que os poderes de fato e o Império 
estão mais que atentos às movidas políticas que possam pôr em xeque a 
institucionalidade da democracia de tipo liberal-burguesa. Também é verdadeiro 
afirmar que estão mais que alertas à capacidade dos povos latino-americanos de 
destruir esta legitimidade tanto por parte de um líder carismático (sendo este 
convertido ou autêntico) como por
 parte de um avanço na organização do tecido social, chegando a estágios de 
poder popular constituídos, como foi o caso da APPO no estado de Oaxaca, 
México. 

Neste momento, pelas razões que expus acima, Honduras e seu povo conformam o 
epicentro da possibilidade de democracia social na América Latina. Defender o 
contra golpe popular, portanto, não é ter um alinhamento simbólico imediato e 
total com Zelaya e sua trupe. Ao contrário, é traçar redes de apoio pela luta 
social, através de entidades de base conectadas através da mídia eletrônica de 
baixo custo, e compreender que a democracia participativa se constrói nos 
momentos limites. A semana anterior e os dias que seguem marcam uma batalha a 
ser peleada entre os latino-americanos em movimento contra o Império e seus 
oligarcas. 

Hoje, a Batalha de Potosí (1825) é em Tegucigalpa.
 
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