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Monstros 



Cláudia Magalhães



      Depois de quarenta anos sonhando acordada com um mundo que não fosse 
manipulado pelas emoções, onde não existissem sentimentos de horror, nem de 
piedade, esse monstro de riso abafado, grosseiro, preso na garganta por um 
bolor de futilidade, aprendi a enfrentar minhas emoções. Hoje, sou eu quem me 
persigo. Às vezes, tiro-as do comando, me enxergo, descubro a inteligência e 
colho flores; Em outras, deixo-me guiar até meu centro escuro, sem limite de 
espaço e de tempo, perco a chave, fujo de mim mesma, sangro. Ingerindo razão e 
emoção no mesmo prato, decido qual dos dois será o excremento. Não sei em qual 
desses opostos me ofereço amor, pensou observando o filho cair em sono profundo 
no seu colo, causado pelo efeito dos sedativos.
      Sim, essa massa branca, disforme, que há quarenta anos rasteja pela casa 
soltando grunhidos, é o meu filho! Como eu o amo!, constatou com tristeza, 
acariciando o fruto de um amor que teve aos trinta e cinco anos e que 
desapareceu logo após o parto, deixando como única prova de sua existência os 
míseros depósitos feitos, todos os meses, em sua conta. Não sabia o real motivo 
daquele gesto, talvez ele estivesse envenenado de piedade, ou quem sabe, guiado 
pelo medo de se perder da estrada que acredita um dia levá-lo ao Paraíso. Desde 
então, ela passou a dedicar-se religiosamente a seu filho e a protegê-lo de um 
mundo de olhos amedrontados, de nojo, de conversas rasteiras e tolas, de 
orações sem fé perdidas ao vento. Bom dia, Senhora! Como vai o seu filho?, 
lembrou da pergunta da vizinha que encontrara, pela manhã, no mercado da 
esquina. Como Deus quer!, respondeu secamente. Todos os dias, eu oro por ele e 
por meu filho, que, agora, passou a andar com gente da pior espécie!... Cada um 
com a sua dor!, concluiu com um olhar de mártir. Mal sabe essa mãe o quanto eu 
gostaria de chamar meu filho de ladrão, de mentiroso, de homicida. De vê-lo 
chegar tarde da noite com cheiro de vida, sangue, lágrimas, suor, saliva, com 
sede de rua. De quantas vezes desejei amar novamente, mas não poderia suportar 
ver no ser amado, desejado, a expressão miserável de escarro, o vômito 
reprimido, uma compaixão monstruosa que só serviria para aumentar a vaidade de 
Deus, pensou com amargura. Lembrou, então, de todas as noites, durante quatro 
décadas, em que colocou aquela cabeça disforme em seu colo e lhe falou da 
existência de monstros, de todas as espécies e de todas as cores, que, até 
hoje, evitam a sua calçada com medo da casa, que para eles é mal-assombrada, 
pois nela mora um anjo. Essa noite, doente e cansada, ela começa a falar sem 
conter as lágrimas:
      - Um lindo anjo, com pernas de fogo, que desceu a terra escorregando pelo 
arco-íris, sentado sobre uma nuvem e vestido de Sol. E quando observava o meu 
semblante triste e cansado, deitava a cabeça em meu colo e, sem mover os 
lábios, aliviava meu pranto, dizendo-me que por trás desse mundo de sombras, a 
esperança é preservada. Não é sem razão que o amo! Hoje, meu anjo, nós vamos 
para o mundo dos sonhos, onde habitam seres encantados, iguais a você! Eles 
possuem um coração puro, não conhecem orações e nem pedidos. Não se importam 
com as aparências, vivem do simples e podem rir até mesmo de seus pequenos 
hábitos. Brincam de se reunir em volta de uma grande fogueira, onde contam 
histórias que nos enriquecem a sabedoria. Trocam presentes que se chamam: Amor 
pelo próximo! Amor abnegado! Amor! Lá, ninguém precisa falar! Tamanha é a 
cumplicidade que proferir uma palavra seria um desperdício. Nesse mundo, teu 
espírito será livre, minha criança. Lá, não existe velhice, ninguém dá adeus, 
ninguém vai embora, e eternamente te chamarei de: meu filho!
      Levanta com passos firmes, decididos, joga gasolina em seu corpo e em seu 
anjo adormecido. Espalha o líquido pelo chão do quarto e pela casa inteira. 
Volta até o quarto do filho, coloca novamente sua cabeça em seu colo, e pega, 
sobre o criado-mudo, o pedaço de papel com a oração de todas as noites, desta 
vez, com um cuidado demoníaco, pois chegara o dia da cobrança e não poderia 
esquecer nenhuma palavra. Risca o fósforo, joga-o sobre o tapete do quarto e 
começa a sua oração:
      - Ave-Maria cheia de graça... Que graça é essa que se faz presente agora? 
O Senhor é convosco... Ele não enxerga o meu sofrimento? Ele não vê que a minha 
alma não encontra consolo porque não nos achamos na mesma condição! Bendita 
sois vós entre as mulheres... Mulheres? As mulheres da terra existem para o 
sofrimento e são entregues a dor sem piedade. Ao conceber o seu filho concebe 
também um amor que nenhum freio segura e a vida, no momento que lhe convém, o 
transforma em nosso maior inimigo, fazendo-nos pagar tão caro a maternidade! 
Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus!... Porque o meu já caiu na desgraça. 
Vejo aquele que gerei, que deveria ser testemunha da minha velhice e 
enterrar-me com suas próprias mãos, entrar e sair desse mundo como um verme! 
Será esse nosso castigo: Dormir sonhando com o céu e acordar no inferno? Santa 
Maria, mãe de Deus!... Eu quero a sua presença agora! Receba em teu reino o 
filho dessa tua miserável serva para que nada lhe falte. É o seu dever, pois és 
mãe e és Santa! Rogai por nós pecadores... Porque toda mãe ama seus filhos de 
alma para alma, com suas faltas, seus erros e seus sonhos inúteis! Que em teu 
seio, ele encontre morada; nas tuas palavras, a luz; no teu amor, o perdão de 
ter nascido torto! Peço-te agora a morte! A velhice já me destrói as carnes, a 
qualquer momento a vida poderia me cuspir e o meu anjo viveria nesse mundo como 
um cadáver. Estou pronta, e já aguardo o momento de reencontrar o amor 
perdido...
      Nesse momento, o fogo estende-se na direção deles. Um fogo real, nobre, 
consome o corpo da velha mãe e do seu herói, que tantas vezes sonhou em chamar 
de ladrão, de mentiroso, de homicida. Agora, a terra gira devagar, cuspindo o 
amor nobre, que tanto procuramos e que, cansado, punido, foge da vida, buscando 
refúgio em nossos sonhos.



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