Mestre Chagas,

Lembrei dessa crônica - e remeti para o interessado - quando surgiu um
assombro maior do mundo sobre o fato de shopping centers venderem ginga com
tapioca, como se a 'autêntica' comida de botequim fosse coisa a ser restrita
a bares feito esse aí que o filho do Mário Prata tão bem descreve. Ora, se
fossemos 'guetizar' tudo que achamos autentico e verdadeiro, seria uma
heresia comermos dobradinha, feijoada, rabada, sarapatel e outras coisas
ditas populares em nossas casas, 'nénão'?

Tem um velho ditado que diz: Eppur si muove...
Outro diz: o mundo gira e a lusitana roda(ou seria o contrário?)rss.

abs

Oswaldo



2009/9/1 Chagas Lourenço <[email protected]>

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>  Meio a Meio
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> Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio
> ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda,
> nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter
> alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem).
> No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o
> Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando
> resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda,
> adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto
> nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais
> uma pra gente”, eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e
> me sinto parte do Brasil.
>
>
> Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil,
> por isso vamos a bares ruins, que tem mais a cara do Brasil que os bares
> bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de
> sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem
> que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela
> primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho,
> porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma
> europazinha bem que ajuda.A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado.
> Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um
> bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver
> porção de carne de sol, a gente bate uma ali mesmo.
>
>
> Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar
> ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta não nos
> contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e
> decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o
> bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que
> aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários
> meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas.
> Até que uma hora sai na imprensa descolada de caderno cultural como ponto
> freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente
> já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que
> não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem
> mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso
> aqui antes, quando só vinha a minha
>  turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou
> menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó.
>
>
> Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que
> freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de
> ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos
> dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em
> coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente
> detesta os pobres que chegam depois, de carro mil novo e celular na mão.
> Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a
> gente abomina a imprensa descolada de caderno cultural, abomina mesmo, acima
> de tudo.
>
>
> Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os
> que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é
> a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para
> tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no
> cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio
> intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a
> pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual
> é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica
> imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando música
> baiana muderrrrna. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente
> gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão
> brasileira, tão raiz.
>
>
> Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, não! Ainda
> mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que
> a gente gosta, os pobres estão todos de celular e a imprensa descolada de
> caderno cultural sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de
> gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos. Pra
> desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões
> ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que
> é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio
> intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais
> autêntico que o sul maravilha e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais
> assim Câmara Cascudo, saca?).
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> - Ô Betão vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas (muito mais caras que
> uísque), quais que têm?
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> é desse cara aqui
> Antonio Prata
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