TEREMOS OU NÃO O "LEGADO" PROMETIDO ?
Hoje, 26 de julho de 2009, faltando apenas 36 dias para a FIFA receber a
licença ambiental
relativa ao mega Empreendimento Imobiliário denominado simplesmente de
"Arena das Dunas" o qual, sob promessa de tornar Natal uma das sub-sedes da
copa mundial de futebol, e,em conseqüência deixar-lhe como legado, a
condição de uma cidade perfeita, feliz e livre de suas crônicas calamidades,
corre a cidade o risco de perder o milagre, por terem sido gastos muitos
meses com oba-oba, muita propaganda enganosa, muita festividade e não foram
feitos os mínimos deveres elementares, como por exemplo, as audiências
publicas de participação da população nas decisões, não cuidaram da escolha
adequada do local, da elaboração dos projetos técnicos de praxe, e em
conseqüência os cronogramas físicos-financeiros, a definição das parcerias,
os valores e critérios da negociação, as garantias reais, enfim, toda a
clareza e probidade obrigatórios no trato da coisa pública.
O que se viu foi uma trama feita em segredo, contratações suspeitamente
ilegais de prestadores de serviços de consultorias e estudos preliminares
arquitetônicos, como sempre alienígenas, sem qualquer reação das
instituições representativas de economistas, arquitetos e engenheiros
locais, alijados do mercado de trabalho, em flagrante demonstração de
xenofilia e subserviência por parte de nossos gestores, já tendo sido gastos
pelo erário perduláriamente, até este momento, ao que se sabe, importância
acima de 3,6 milhões, entre pagamento de serviços, viagens e propaganda, e
que, ainda poderão atingir à cifra acima de R$ 30 milhões só de contratos
sem licitações, (provável custo dos honorários para serviços de
arquitetura,urbanismo, paisagismo, projetos estruturais, instalações
hidro-sanitárias, instalações elétricas, subestações, comunicação
visual,iluminação,lógica,segurança, sonorização, etc.,somente para a arena,
de conformidade com as tabelas básicas dos respectivos especialistas, se
efetivamente estiverem sendo feitos, pois até o momento continua tudo em
segredo).
As importâncias acima estimadas ampliariam e manteriam nossos hospitais em
excelente funcionamento, comprariam veículos e equipamentos para a policia
cuidar de nossa segurança, supririam tantas outras mazelas que nos afligem,
e. enfim , se, num gesto de renuncia à megalomania de fazer
irresponsavelmente e desnecessariamente, uma arena que custará muito mais do
que um bilhão de reais, deixariam nossos gestores, independentemente de FIFA
e CBF, verdadeiro legado de prosperidade e qualidade de vida para a
população escarnecida de Natal.
Após o impacto causado pela reprovação unânime do local "escolhido" para o
comentado empreendimento pela opinião de competentes e renomados
especialistas nas áreas de trânsito e saneamento básico, por ocasião do
Fórum de Discussão Técnica-Copa 2014, promovido pelo CREA-RN, no dia 03 do
corrente, a obstinada fúria demolidora dos governantes mudou de estratégia,
isto é, passou a se referir discretamente apenas a licenças para um simples
estádio de de futebol (até porque ali já existe o Machadão), visível
artifício no sentido de subdimensionar o impacto degradador do meio ambiente
como do impacto de trânsito. È claro que as licenças resultantes desse ardil
não conseguirão ludibriar nem à área técnica nem às defensorias públicas,
até por que é notória a procrastinação dos processos de licenciamento na
SEMURB, até para um pequeno prédio sem nenhuma expressão, quiçá para uma
cidade de mais de 130.000 habitantes em um quarteirão de 46 hectares em cima
de uma lagoa, ter que "improvisar" licenças, urbanísticas,arquitetônicas e
ambientais em pouco mais de 30 dias.
Ademais, tem-se que levar em conta que já esgotaram-se os prazos para
cumprimento dos ritos legais previstos nas normas ambientais e nas normas
jurídicas de alienação de bens públicos, tais como audiências públicas de
debates, prazos de publicação e manifestação da sociedade, consentimento dos
poderes legislativos, etc.
Assim sendo, no nosso entendimento, qualquer licenciamento para um
empreendimento desse porte, na dimensão anunciada na propaganda oficial,
terá no mínimo que ser diagnosticado e apresentar soluções mitigadoras
atendendo os seguintes critérios, a serem fundamentados em avaliações de
profissionais legalmente habilitados e de comprovada idoneidade:
I – Qual o valor da gleba ?; II - Qual o valor dos prédios existentes ?; III
– Qual o valor dos projetos, consultorias e despesas legais, e quem paga ?
IV – Qual o método de demolição das edificações existentes,seu volume, qual
o custo e quem paga ?; V – Qual o custo de transporte do entulho pesado
(bota-fora) resultante das demolições, aonde despejá-lo, e quem paga ?; VI –
Qual a área construída coberta do estádio ( "arena" - população flutuante
fixada = 45.000 pessoas), qual seu custo, e quem paga ?; VII – Qual a área
construída coberta do shopping center ? Qual sua freqüência de público
p/jornada ? Qual a quantidade de vagas de estacionamento rotativo p/jornada,
qual seu custo e quem paga ?; VII – Qual a área de construção coberta do
centro de convenções, da arena multiuso, dos prédios comerciais e dos
edifícios residenciais,definindo sua condição condominial, quantificando
estacionamentos privados, se for o caso, ainda, definindo áreas de hotéis,
quantidade de leitos, estacionamentos, população final de todo o conjunto,
quais os custos e quem paga ?; VIII – Quais as áreas de construção coberta
dos centros administrativos previstos para o Estado e para o Município,qual
a quantidade total de ocupantes por expediente funcional entre funcionários
e publico visitante,(contribuintes) condições de estacionamento, e, qual
será o valor locatívo do uso do seu próprio solo que pagarão os erários
estaduais e municipais, durante 30 anos ?; IX – Qual será o novo projeto de
sistematização viária e respectivo sistema de transito e mobilidade exigidos
pelo evento, quais as intervenções, seus custos, prazos e fontes de recursos
? X – Aonde a maquina administrativa será alojada durante o período de
execução do projeto, por quanto tempo, e quanto custará ao erário sua
manutenção, e qual a garantia de sua eficiência ?; XI – Qual o projeto
emergencial que suportará o enorme impacto ambiental e de vizinhança,
resultante das demolições e transporte dos entulhos e do canteiro de obras,
e durante qual período, ( tais como poeira,ruídos, movimento de maquinas
pesadas, usinagem, terraplanagem, congestionamento de transito) afetando as
duas maiores artérias da estrutura urbana da cidade, quanto custará, e, a
quem caberá pagar ?; XII – Por ultimo,
tem que ser apurada a população final que ocupará o espaço, a densidade
demográfica resultante, e o efluente final de esgoto primário, qual seu
sistema de tratamento e despejo, qual o sistema de drenagem, bem como é
imperioso a quantificação e solução do impacto de transito causado pelo
grande aumento de veículos que irão circular na área, já hoje seriamente
congestionada.
Face ao exposto, diante do segredo que vem revestindo o assunto, com apoio
em algumas pesquisas expeditas, nos foi possível formular algumas simulações
conclusivas, até prova em contrario, senão vejamos:
1 - Somando-se as populações do estádio de 45.000 pessoas p/evento, mais a
freqüência diária de 70.000 pessoas p/jornada de 12 horas, ( referência
Midway Mall), mais centro de convenções, arena de multiuso, hotéis, prédios
comerciais, residenciais e centros administrativos, pode-se prever uma
ocupação mínima de 130.000 pessoas na área em questão, num determinado
momento de pico, significando uma exagerada densidade demográfica de 2.826
ocupantes ou habitantes por hectare bruto, a qual ultrapassa em 62% ao
permitido pelo Plano Diretor da cidade (1.750 hab/há bruto, correspondente
ao índice de aproveitamento de 3,5)
2 – Por outro lado, considerando-se ainda o estacionamento rotativo de
14.000 veículos p/jornada (referência Midway Mall), e informações da
propaganda oficial de 7.200 veículos previstos no projeto ainda virtual,
pode-se adotar um total de 14.000 veículos, uma vez que as unidades vendidas
em condomínios fechados, exigem estacionamentos privativos por motivos
óbvios, representando um índice de impermeabilização da lagoa de 308.000 m2:
considerando-se ainda uma estimativa de 20% da área da gleba para sistema
viário interno de acesso e travessia teríamos um total de área de obstrução
ao sistema de drenagem e realimentação do lençol de cerca de 400.000 m2,
representando um percentual de permeabilidade de apenas 13%, portanto, menor
do que o índice exigido pelo Plano Diretor da cidade;
3 – Se for feita a avaliação do custo-benefício da transação pretendida por
meio de uma PPP ainda nebulosa e indefinida, com base apenas nas eufóricas
declarações dos representantes governamentais, o patrimônio público que
estão* querendo demolir, que ao nosso ver vale no mínimo* R$ 1 bilhão,
poderá deixar como legado um prejuízo material inconcebível conforme se pode
perceber: o Município concorda filantropicamente em demolir o Machadão, sob
promessa de que o PP (Parceiro Privado, quantos e quais são ?) construirá
outro estádio no seu lugar, assim, trocará SEIS por MEIA DUZIA,
destrói o Ginásio Humberto Nesi , perde um ginásio, não ganha nada, dizem
que vai ganhar um Centro Administrativo, mas vai pagar 30 anos de aluguel
por ele, ou melhor, vai pagá-lo em 360 prestações que ninguém sabe de
quanto, dando de presente 17 hectares de terreno altamente valorizado para o
parceiro se locupletar e agredir a cidade, enfim, saldo negativo, igual a
presente de grego.
Quanto ao Estado, na mesma linha filantrópica, desmancha o Centro
Administrativo, o Kartrodomo, o Altar do Papa João Paulo II, uma creche e um
grupo escolar, presenteia o Parceiro Privado com um terreno de 29 hectares
no coração da cidade, para completar a agressão, sob promessa de receber
como compensação um novo Centro Administrativo, para pagá-lo também em 360
prestações, de valor igualmente desconhecido, resultando em outro saldo
negativo,igual a outro Cavalo de Tróia;
Quanto às perdas irrecuperáveis de caráter estimativo, de valor histórico,
cultural, arquitetônico e religioso; são bens irrenunciáveis, imensuráveis,
cuja avaliação depende de sensibilidade e padrões éticos. Inerentes a cada
povo e cada cultura. Não tem valor material, mas seus causadores cometem o
crime hediondo de lesa-pátria.



Moacyr Gomes da Costa
Arquiteto – N° 7473/D – CREA/RJ
Reg. Nacional Nº 200288655-5

Natal/RN, 26 de julho de 2009

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