Do Sopão do Tião: http://sopaodotiao.blogspot.com/

Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
Notícias de Cuba
Quem, num passado distante, leu "A Ilha", de Fernando Moraes, e no meio dos
anos 80 encarou "Fidel e a Religião", de Frei Betto, tem quase a obrigação
de ler, agora, o que parece ser o mais urgente, honesto e revelador livro
com um relato de como é a vida real atualmente em Cuba. Todo cuidado é pouco
quando se busca informações sobre o cotidiano dos moradores da ilha cuja
revolução encantou povos de um continente inteiro, pela bandeira de
igualdade que estendeu no seu primeiro momento. Pois "Viagem ao Crepúsculo",
o novo livro do escritor pernambucano Samarone Lima, o homem do blogue
"Estuário", traz o testemunho do mais isento dos observadores.

Isento à maneira do autor, claro. Não se trata daquela tão falsa
objetividade que já serviu para esconder tanta desonestidade intelectual.
Quem lê Samarone no blogue sabe que o autor não é nem de longe uma daquelas
hienas direitistas que infestam a própria internet onde se abrigam o
"Estuário" e este próprio "Sopão". Por isso mesmo, o choque que a realidade
cubana atual provoca no autor de "Viagem ao Crepúsculo" surge coberta por
uma camada de credibilidade rara quando se trata de relatos sobre a ilha de
Fidel. Samarone passou semanas em Cuba e, desde o momento em que pisou no
país, foi confrontado com um cotidiano capaz de provocar a mais incômoda
perplexidade. Política e pessoal. Viajou levando canetas bic para distribuir
com os cubanos afetados pelo embargo e ao chegar lá descobriu que esse mimo
é bem-vindo, sim, mas há falta de coisa muito mais básica, como leite, por
exemplo.

Samarone fotografa com seu antidiário de viagem o que restou do sonho
revolucionário, destruído pelo fim do bloco socialista que dava sustentação
econômica à ilha, pelo embargo econômico, pela estrutura de poder que
qualquer tipo de sistema político - por mais alternativo que seja - sempre
acaba gerando e por um certo tipo de corrupção de sobrevivência - bem
diferente das grandes negociatas brasileiras - que tudo isso acabou
provocando. Mas o escritor não dá aula, nem se preocupa em fixar o quadro
das pequenas mazelas diárias num panorama histórico geral do que houve de
1959 pra cá. Ele se limita a observar, conversar e, sobretudo, ouvir. E o
simples registro do que acontece diante de seus olhos ergue um painel
barulhento sobre a falência de um projeto, quanto mais silenciosos são os
seus sinais cotidianos, como a velhinha que reclama baixinho da fome nos
dias de frio, quando a comida liberada pelo regime não é suficiente; a
mulher que se desespera quando não tem mercadorias como frango e leite para
revender no seu mercado negro caseiro; e a garotada dos grupos culturais que
fuma maconha às escondidas para protestar contra a obrigação de estar
presentes em grandes atos do governo.

O silêncio é o mandamento número um. E aqui o livro de Samarone ganha um
peso a mais, por usar de um recurso à altura do relato de que procura dar
conta. Em "Viagem ao Crepúsculo", Samarone Lima exercita o que chama, a
certa altura, de "jornalismo sem perguntas": ele conhece pessoas, faz
amizade naturalmente com elas e nem precisa indagar sobre os fatos que o
deixam perplexo. Os próprios cubanos, cativados pelo jeito manso e pela
curiosidade aparentemente contida de Samarone, contam tudo sobre a vida real
na ilha hoje. A sabedoria do autor é se comportar como alguém que está
vivendo, ainda que por uma curta temporada, aquela mesma realidade - sem a
impaciência típica do jornalista que não resistiria a solapar com perguntas
erradas a visão de algo que não precisa de frases feitas para se mostrar
como de fato é. E é assim que Samarone desvenda, qual um detetive cabreiro,
a rede de "corrupção de sobrevivência" que faz sumir o frango dos
refeitórios de uma universidade - o mesmo frango que havia visto antes na
casa da cubana que o acolheu e que sobrevive da revenda ilegal de
mercadorias vindas não se sabe de onde.

Este pequeno fato da vida cubana - a rota do frango que some da universiade
e reaparece clandestinamente à venda repartido em pequenos saquinhos com se
fora uma espécie de droga - se insere no quadro geral da maluca e perversa
economia cubana. O relato humano, sensível e muitas vezes deprimido mesmo
que faz Samarone define as linhas dessa economia onde a moeda nacional, o
peso cubano, vale imensamente menos do que o que chama de "peso
conversible", a moeda meio-termo entre o dinheiro que recebem os cubanos
comuns e aquela manuseada pelos turistas cada vez mais presentes na ilha. Há
uma terceira moeda, e você sabe qual é, bagunçando ainda mais essa economia
onde tudo custa muito caro para o cubano - a não ser que ele tenha família
no exterior que lhe envie as tais verdinhas. A outra fonte de dólares é a
prostituição, um derradeiro subproduto da falência desse projeto, que
Samarone também dá conta de mostrar como se processa nos becos mal
iluminados do crepúsculo cubano.

Mas aqui o comentário já está cedendo ao impulso de reproduzir o que há no
livro - e não apenas antecipar o que se pode esperar dele e da forma como
aborda esse tema tão controverso. Os defensores da revolução também estão
lá, mas a honestidade do relato não deixa dúvidas quanto à potência das
críticas de um lado e de outro - aqueles que ainda acreditam no regime,
especialmente os mais velhos, e os muitos que não vêem a hora de haver uma
transição muito esperada. Por tudo isso, é dolorosa a leitura de "Viagem ao
Crepúsculo": pelo que contém de desmonte de uma utopia, por menos iludido
que seja o leitor idealista. Mas, se de fato temos pouca chance de ter
acesso a relatos isentos sobre o crepúsculo cubano, também é verdade que os
cubanos têm menos ainda oportunidade ver o restante do mundo como ele é. Por
lá, o controle dos órgãos de comunicação faz com que se acredite que a
Venezuela
é uma potência. Se quem diz isso é um cara como Samarone, a gente se rende,
lamenta e acredita.

Se é assim, como dizia John Lennon, "o sonho acabou". Só nos resta completar
com outra frase, esta de alguém que não tem nada a ver com esse assunto, o
diretor de televisão Daniel Filho, que já disse uma vez, ao definir o
conceito do seriado televisivo "Ciranda Ciradinha": "O sonho acabou, mas
papai não tem razão."

2009/9/10 Ørf <[email protected]>

> E a musica de Caetano brada:
>
> O fato dos americanos
> Desrespeitarem
> Os direitos humanos
> Em solo cubano
> É por demais forte
> Simbolicamente
> Para eu não me abalar
>
> Refrão (3x):
> A base de Guantánamo
> A base
> Da baía de Guantánamo
> A base de Guantánamo
> Guantánamo
>
>
> & eu complemento:
>
> O fato dos cubanos desrepeitarem sistematicamente os direitos humanos -
> básicos, mínimos, até bisonhos como o direito de frequentar um bar - nas
> terras cubanas soa o quê?
>
> Leiam Pedro Juan Gutierréz - cinco ou mais livros disponiveis em portugues
> - e terão uma pálida idéia do que é Cuba hoje, ontem - sempre sob Fidel - e
> amanhã(?).
>
> Alguem, metido a sabido, poderia dizer que é o embargo que provoca isso...
>
> respondo: só rindo e remetendo toneladas de 'papers' sobre o affaire para
> tais antas entenderem um pouco o que aconteceu com Cuba.
>
> Oswaldo
>
> 2009/9/10 augustolula <[email protected]>
>
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>> *Harry Potter, Dom Quixote e Obama na lista de "best sellers" de
>> Guantanamo
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>> *Escrito por Sérgio Dávila às 14h39*
>>
>> **
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>>
>> Um menino de aparência comum e poderes mágicos, um sonhador que persegue o
>> impossível e o homem que em última análise tem a chave da prisão em que se
>> encontram. Esses --não Maomé nem Alá-- são os personagens que embalam a
>> imaginação dos presos de Guantanamo. Pelo menos é o que diz 
>> levantamento<http://www.juancole.com/2009/09/guantanamo-reading-list-harry-potter.html>
>>  que
>> o repórter Besan Sheikh publicou no jornal de língua árabe Al-Hayat. A série
>> literária sobre Harry Potter, da britânica JK Rowling, Dom Quixote, de
>> Miguel de Cervantes, e "A Origem dos Meus Sonhos", a primeira parte da
>> autobiografia de Barack Obama, encabeçam a lista dos livros mais retirados
>> da prisão militar mantida pelos EUA na ilha cubana. O resto da lista é
>> dominado por literatura religiosa islâmica. São 13,5 mil livros disponíveis
>> para cerca de 230 presos - uma proporção melhor que em 90% das escolas pú
>> blicas brasileiras...
>>
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