Ainda os twitterismos
Ivan Lessa
Colunista da BBC Brasil
[image: Ivan Lessa em ilustração de Baptistão]
Andei e ando acompanhando certos twitters. Não dou o nome. Prefiro ficar nas
sombras como um – feito se diz em brasileiro – *stalker* desses filmes ou
séries de TV americanas. Gosto de alguma coisa. Não muita. Apenas alguma
coisa.
Aprecio sobretudo (ou capote de lã, no inverno) o esforço a que a disciplina
dos 140 caracteres obriga o twittador. Descubro que a humanidade – eu, ele,
você – não somos tão interessantes quanto pensamos. Num mundo redondo a vida
é chata. Isso é o que se descobre.
Os twittadores deveriam mentir mais. Têm mania, no entanto, de fazerem
frases. Querem porque querem ser citados. Acordar, escovar os dentes, tomar
café e ir para o trabalho não são, convenhamos, coisas das mais
interessantes. Mesmo que você se chame Barack Hussein Obama. Nós outros
queremos mais detalhes. Mais profundezas.
Por falar nisso, um jornal aqui publica uma faceciosa coluna semanal
fajutando supostos e-mails do popular presidente americano. É divertido.
Consta que Obama também dá suas twitteradas. Mas não consigo chegar aos seus
gorjeios. Os autênticos, claro. Do admirado líder havaiano de nascimento.
Ser havaiano é interessante. Ser presidente dos Estados Unidos não,
sentencio eu, em dose digna de um bom twitter
E eis senão quando, conforme se dizia, chego a um ponto dos twitters que
odeio. São quando aqueles 140 caracteres viram frase feita, tentativa de
humor, penetras na festa das palavras. Para tentar pensamentos divertidos e
inteligentes, a primeira coisa a fazer é obter permissão do Millôr
Fernandes. Com humildade e pedindo a bênção.
Os gorjeios que se creem humorísticos ou profundos me lembram todos os
velhos almanaques, onde os pensamentos se alternavam com as fases da lua,
curiosidades, e aquela seções assim feito “Você sabia que…”.
Enumero algumas tentativas de twitteradas pretensiosas que encontrei. Isso
antes de ensaiar algumas de minha própria larva, ou lavra, como diria um
gorjeador aspirando à graça.
Segurem:
. O sábio não precisa de conselhos e o tolo não os aceita.
. Inteligência Artificial não chega aos pés da Estupidez Natural.
. A vida é insípida quando não se tem amigos ou inimigos.
. Trabalho de equipe é nunca ser culpado sozinho por qualquer besteira que
der.
. Ser matreiro é não tentar ser matreiro.
. Um amigo é aquele sujeito que tem os mesmo inimigos que nós.
. Sempre perdoar um inimigo, mas jamais esquecer seu nome.
. A paciência não é uma virtude, apenas uma perda de tempo.
. Da pressão nascem os diamantes.
. Seja útil, mas não seja usado.
Aí está minha amostragem. Puro Almanaque do Biotônico Fontoura de 1939,
confere?
Alguém em algum lugar, no Brasil, de preferência, deve tentar dar um pouco
mais de molho às suas empreitadas filosófico-humorísticas. Quando em dúvida,
apelar para o nonsense, sempre achei, disse e pratiquei. Para procurar me
manter em forma, destituído de credenciais twitturais, boto em prática meu
conselho.
. Os floristas não têm Data Magna. Mesmo assim desafinam quando cantam o
Hino Nacional.
. Cumbuca de uma só vara, bom caniço não dá.
. Em bolsa vazia não entra mão de descuidista.
. No escuro, todos os pardos são gatos.
. Nem tudo que balança desafia a Lei da Gravidade.
. Pissurim não se pega com retresina como isca.
. Macaco velho procura macaca brotinho para fins matrimoniais.
. Tanto foi Luiza à fonte que um dia acabou sequestrada e seviciada por
quatro repugnantes indivíduos de baixa extração.
. Quando você vinha com a araruta, eu já ia de primeira classe para um
fim-de-semana em Paris.
. Sim, mas e o pós-sal?
Et cetera e tal, et cetera e tal.