TRIBUNA DO NORTE - 10/jul/2009

URBANISMO - Moradores de Ponta Negra mostraram que é possível mudar a
realidade de onde se mora

No próximo dia 20 (julho de 2008), o Plano Diretor de Natal completará
exatamente um ano de vigência. E nesta data se encerrarão os 12 meses
estipulados pelo próprio PDN para a elaboração do Plano Setorial de
Ponta Negra, que até agora não está pronto. Esse instrumento é uma das
peças de organização da cidade mais importantes a serem trabalhadas
pelo próximo prefeito da capital e pode vir a abranger diversos bairros
da cidade. Porém, precisa antes ser colocado em prática no bairro para
o qual a idéia foi concebida.

“Temos muitas coisas urgentes a serem resolvidas e a demora na
elaboração desse plano é claro que nos preocupa”, afirma a professora
Maria das Neves Valentim, moradora de Ponta Negra. Ela foi uma das
participantes ativas da discussão do Plano Diretor de Natal e
conseguiu, junto com a comunidade, incluir no PDN dois artigos que
tratam especificamente do Plano Setorial do bairro, incluindo o que
estipulou o prazo de 12 meses.

Passado o primeiro ano de validade do Plano Diretor, nem esse prazo nem
outros dois foram cumpridos. “A lei previa dois meses para a revisão da
Zona de Especial Interesse Turístico (ZET-1 – próxima à orla) e seis
meses para regulamentar a Área de Especial Interesse Social (Aeis) da
Vila de Ponta Negra, mas isso também não ocorreu”, lamenta o arquiteto
da UFRN, Heitor Andrade, que presta assessoria técnica aos moradores de
Ponta Negra.

Ele ressalta que o plano setorial é de fundamental importância, uma vez
que pode servir não só para detalhar e especificar as regras de
ocupação a serem adotadas em Ponta Negra, através de um zoneamento,
como também discutir as obras de infra-estrutura a serem desenvolvidas
no bairro. “Hoje, a comunidade vive incomodada com vários problemas que
podem se agravar ainda mais, como é o caso da especulação imobiliária,
a verticalização, o maior adensamento, as questões viárias, de
saneamento, drenagem”, lista.

Até a aprovação do plano setorial, como determinado no PDN, ficam
valendo para os conjuntos Ponta Negra e Alagamar as regras aplicadas às
áreas de adensamento básico, as mais rígidas, com proibição de
remembramento dos lotes e de construções acima de quatro pavimentos.
Contudo, essas regras transitórias não tranqüilizam de todo os
representantes da comunidade. “Temos notícia de que há mais de 100
projetos já aprovados, ainda pelas regras do plano antigo, a serem
erguidos no bairro. Isso tem de ser avaliado, porque pode vir a dobrar
a população atual (estimada em 35 mil pessoas) em menos de cinco anos”,
teme Heitor Andrade.

Ele considera fundamental a adoção de regras rígidas, para que se
reverta o atual processo de “descaracterização” do bairro. “Ponta Negra
sempre foi uma área tipicamente residencial e familiar e a comunidade
quer que continue assim”, destaca.

População cobra elaboração de Plano Setorial

A Semurb incluiu o Plano Setorial de Ponta Negra no convênio assinado
com o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam), que prevê
a elaboração não só desse estudo, mas de vários outros previstos no
Plano Diretor de Natal, até junho de 2009. Porém, a população do bairro
critica a falta de informações a respeito. “Entramos em contato
diversas vezes com a Prefeitura e não recebemos nenhuma resposta sobre
como estava essa situação”, lamenta Maria das Neves.

Ela e outros habitantes do bairro se reúnem semanalmente para discutir
os problemas e soluções para Ponta Negra. O grupo aguarda com ansiedade
pelo momento de pôr no papel as propostas que vêm sendo debatidas na
comunidade. “Temos o apoio do Departamento de Arquitetura da UFRN e
ainda teremos a ajuda de uma geógrafa”, ressalta a moradora, lembrando
que não será por falta de análises técnicas que o plano deixará de
existir.

“Nevinha”, como é mais conhecida, enfatiza a preocupação dos moradores
com a verticalização do bairro e também com a “expulsão” dos antigos
habitantes, principalmente pela chegada de turistas, sobretudo
estrangeiros. “O que nos dá certa segurança é que o plano prevê a
participação da comunidade na sua elaboração e não vamos deixar de
participar porque há coisas urgentes a serem resolvidas, como a questão
da drenagem e do saneamento”, afirma.

Ela lembra que Ponta Negra é carente de infra-estrutura capaz de
suportar a chegada dos empreendimentos previstos. “Até as ruas são
estreitas e o trânsito já está virando um caos”, descreve. A isso se
somam os interesses dos moradores da área mais carente, a Vila de Ponta
Negra. Para Maria das Neves, é fundamental que a Aeis seja
regulamentada o quanto antes para que a população da vila possa se
beneficiar da melhoria em suas condições de vida. “Essa comunidade hoje
não tem nada, precisa de tudo. Necessita ser melhor assistida”.

Plano setorial é uma das metas da Semurb

O exemplo de Ponta Negra, se bem sucedido, poderá ser ampliado e
abranger toda Natal. Isso porque a criação dos planos setoriais está
prevista no Plano Diretor da cidade e é uma das metas da Secretaria
Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb).

O arquiteto Heitor Andrade (UFRN) considera positiva a possibilidade de
diversos bairros estabelecerem normas específicas, adaptadas às suas
peculiaridades.“A mobilização dos moradores de Ponta Negra, desde a
época da discussão do PDN, é uma mostra de que a população organizada
pode mudar a sua realidade”, elogia o profissional. Segundo ele, essa
mesma mobilização será fundamental durante as próximas revisões do PDN,
evitando que as conquistas recentes não venham a ser perdidas.

“É claro que sempre haverá pressão, principalmente de parte do setor
imobiliário, mas no caso de Ponta Negra estou certo que a população tem
todo interesse em evitar um adensamento maior”, ressalta.

Ele lembra que caberá ao novo prefeito contribuir para o crescimento
sustentável.

Zona Norte luta para ser ouvida sobre adensamento

Enquanto em Ponta Negra os moradores lutam para pôr em prática as
conquistas já obtidas no papel pela comunidade, do outro lado da
capital a preocupação ainda é com a necessidade da população ser ouvida.

A zona Norte de Natal vive a incerteza quanto ao coeficiente de
adensamento que irá vigorar na região, se mais restritivo como
determinou uma liminar da Justiça, ou mais liberal como aprovou a
Câmara Municipal, aguardando pela chance de se pronunciar.

“É preciso que o futuro prefeito seja sensível à opinião do povo e
debata conosco, através de regras mais participativas”, defende o
presidente da Associação dos Comerciantes e Profissionais Liberais da
Zona Norte, Janilson Campos. Ele considera viável a ampliação do
coeficiente de adensamento, desde que não prejudique a qualidade de
vida dos moradores, mas considera que o fundamental é mesmo a tomada de
decisões baseada no interesse e na opinião dos moradores locais.

Até hoje o empresário lamenta que os primeiros investimentos que
aportaram na região não incluam o comércio local, nem mesmo sejam
acessíveis às condições de renda dos habitantes da zona Norte. “Mesmo
assim, acho que uma maior liberalidade (no coeficiente de adensamento)
talvez traga mais investimentos”, avalia, sem esquecer que ao mesmo
tempo é preciso incrementar a infra-estrutura, principalmente com a
melhoria da malha viária.

“Infelizmente, apesar de a Prefeitura ter ouvido as comunidades nos
últimos anos, quando se começa a investir não se dá prioridade ao que a
população pediu. O mesmo vale para as demais esferas do governo. Falta
sensibilidade ao poder público como um todo para ouvir quem realmente
vive aqui e que sabe quais são os grandes problemas a serem
enfrentados”, critica Campos.

Comentário pertinente: O tempo passa, o tempo voa... e nem água do
Plano Setorial de Ponta Negra até agora - dois anos depois. NÓS, da
comunidade, nos debruçamos em torno do assunto, demos andamento,
apresentamos propostas e sugestões e nada! Será que os políticos estão
interessados em organizar a ocupação urbana na cidade, ou quanto mais
desorganizado estiver 'melhor'?!


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Postado por Yuno Silva no .: SOS Ponta Negra . Natal . RN . Brasil :.
em 9/24/2009 12:33:00 PM

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