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As Fotografias
Cláudia Magalhães
O mal-estar que sinto antecipa o erro que estou prestes a cometer. Clarice,
cega há um ano, devido ao acidente que sofreu com Paulo, seu atual marido,
precisa do meu relato. Tenho medo, mas não vejo outra saída. Encontrei-a,
alguns meses atrás, saindo de um restaurante japonês com a sua mãe, e
tornei-me, novamente, sua grande amiga. Falou da sua eterna paixão pela cozinha
italiana e japonesa. Para meu espanto, estava segura e feliz com seu novo amor.
Ele se tornou mais carinhoso e mais apaixonado. O amor que recebo é tão grande
e verdadeiro que, depois de cega, passei a enxergá-lo. Ele tem a forma
mais-que-perfeita e a palavra esperada como guia. Diante da vida, ele é tudo.
Quando calmo e sereno, me faz chorar de emoção, e quando chateado, faz uma cara
tão feia que me dá vontade de rir. Todos os dias, sem susto, ele queima minhas
inseguranças, me livra de futuras cicatrizes, me deixa leve a carne, em fogo,
pronta para cheirar as cores, pra enxergar o que não pode ser visto, pronta
para o amor, disse-me, certo dia, com lágrimas nos olhos. Observo, agora, sua
vulnerabilidade e uma espécie de coceira na alma, que não consigo descrever
bem, me impulsiona a falar:
- Eles chegaram. É uma bela mulher!
- Como ela é? Não me poupe dos detalhes, por favor! – implora com docilidade.
- Ela usa um vestido azul, justo, que revela um belo corpo e sandálias altas
deixando-a na mesma altura que ele, que está de calça jeans e com uma camisa
verde de mangas curtas...
- Eu dei essa camisa de presente a ele quando completamos dois anos de casados.
É a minha cor preferida... – parou com a voz embargada. Respirou fundo e pediu
- Continue.
- Ele a abraça com ternura e ela retribui o carinho cobrindo-o de beijos no
rosto, até alcançar-lhe a boca. Quanta paixão eles exalam. Ela, agora, cochicha
algo em seu ouvido arrancando-lhe um enorme sorriso. Isso me faz lembrar
Carlos, de quando estamos em nossa intimidade e sussurro palavras picantes ao
seu ouvido, ele fica louco de desejo...
- Pare! Não quero ouvir mais nada.
- Entendo.
Ela chora baixinho por alguns segundos. Abre a bolsa nervosamente, retira um
elástico e prende os cabelos negros, que tanto realçam sua pele clara, num rabo
de cavalo. Não resisto e começo a chorar, afinal, conheço bem essa dor. Quando
ligo o carro para irmos, ela segura em meu ombro e implora:
- Vamos ficar mais um pouco. Continue, preciso recorrer às suas palavras, ao
menos elas serão fiéis aos fatos e darão a medida exata da dor que devo sentir.
Continuo narrando sabendo que a natureza da minha ação não é bondosa. Desejo
fugir, mas a minha vontade de ficar pesa e esmaga o meu medo. Uma vontade
machucada, e por isso, inteligente, criativa. Agora, não é somente essa vontade
que pesa, mas todo o meu corpo. Algumas pessoas dariam o nome de “maldade” a
esse peso, mas na verdade é somente um meio de salvação. Olhando para o vazio,
continuo inventando uma paixão rica em detalhes. Criando uma situação que não
existe, me vingo, destruo o amor cego de Clarice.
Uma hora depois, paro o carro em frente à sua casa. Por um instante, tenho a
vontade de lhe contar uma história bonita, de voltar atrás.
- Chegamos, amiga – digo com ternura.
- Não queria me separar de você. Não queria ficar só – fala com voz trêmula.
- Gostaria de ficar e te fazer companhia, mas infelizmente preciso ir. Carlos
deve estar me esperando para o jantar. O que você pretende fazer?
- Ainda não sei. De qualquer forma, obrigada por tudo – fala entregando-se a um
choro profundo.
- É para isso que servem as amigas, querida – Nos abraçamos por um bom tempo.
Ela estava nitidamente abalada. Sabia que rumo sua mente tomaria de agora em
diante. Se antes era capaz de acreditar no sofrimento das flores, agora
pregaria a inexistência de Deus. Parti me sentindo suja, vil, pérfida. Mas a
certeza que tenho, minutos depois, de que o amor é realmente cego, esmaga a
minha violência, a minha injustiça.
Chego em casa antes das seis da tarde. Carlos ainda não chegou do trabalho. Vou
direto ao guarda-roupa e retiro, debaixo de uma pilha de casacos, duas
fotografias. Na primeira, Clarice e Carlos sentados na areia de uma praia que
costumamos freqüentar. Ele está lindo, com um sorrido doce, encantador. Na
outra, uma foto nossa, também sentados na mesma praia, onde ele sorri com
amargura. Amargura, talvez, imperceptível para alguns, mas não para mim.
Através dessas duas fotografias descobri o seu segredo. O seu olhar, a sua
postura, o seu sorriso na primeira, revelam o real motivo de continuarmos
freqüentando, sempre, a mesma praia, da sua paixão por comida italiana e
japonesa e da cor verde nas paredes do nosso quarto. Choro, agora, diante da
nossa fotografia. Pintei meus cabelos de negro e há muito não tomo sol. Talvez
eu fosse mais feliz se fosse sozinha, não precisaria dar beleza ao que deveria
desprezar. Escuto o barulho da porta se abrindo. Segundos depois, Carlos entra
no quarto, me beija apaixonadamente e diz que sou a mulher da sua vida. Fala
tão docemente que chego a ter total certeza do seu amor. Lembro de Clarice, e
nesse momento ela não é mais inatingível, não é maior ou melhor que eu. Eu a
atingi no peito e fui embora, deixando-a em sua casa e no meu passado, até
chegar o momento de, novamente, encarar as fotografias.
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