ESTRATÉGIA & ANÁLISE
O destino da América agora se joga em Honduras
28 de setembro de 2009, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha 

Nas seguintes linhas, aponto algumas reflexões iniciadas no calor das horas 
seguintes ao retorno de Zelaya ao solo hondurenho. Segui observando e tomando 
notas nos dias seguintes, quando a embaixada do Brasil tornou-se o epicentro do 
terremoto político centro-americano. Abordo o tema a partir de um ângulo 
distinto da visão majoritária. Busco, através do presidente deposto, localizar 
os protagonistas organizados nas entidades de base e organizados na Frente 
Nacional de Resistência. 
Três golpes em sete anos: o Império perdeu dois e periga perder mais um 

Nos últimos sete anos, três intentos de golpe de Estado foram praticados por 
oligarquias latino-americanas coordenadas, de forma oficial ou oficiosa, pelos 
Estados Unidos (EUA), através do Departamento de Estado, o Comando Sul e 
agências como CIA e DEA. O primeiro foi na Venezuela, em abril de 2002, 
cercando o cholo Hugo Chávez no Palácio Miraflores e resultando em uma 
pueblada, com Caracas em pé de guerra e as forças armadas divididas. Chávez 
voltou ao poder, derrotou os escuálidos e aprofundou o estilo de governo. Sem 
dúvida alguma, após a vitória contra os golpistas e a derrota sobre a direita 
após o locaute petroleiro, o povo dos bairros e morros passou a ofensiva, 
forçando o governo a aprofundar o processo de divisão de ingressos e rendas. 

Outro intento ocorreu na Bolívia, em setembro de 2008, através de oligarquias 
da chamada Meia Lua. Nesta ocasião, o véu caíra e um dos líderes públicos da 
oligarquia cruceña veio a público. Trata-se do notório traficante de drogas e 
latifundiário de soja, Branko Gora Marinkovitch Jovicevic; nascido na Bolívia, 
filho de croatas pró-nazis e formado na Universidade do Texas. O então 
presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, fomentara uma rebelião de direita, 
movida a chicha e cerveja de litro, pregando a secessão do país “produtivo” 
contra os “lerdos” do altiplano. A aventura terminara no Massacre de Pando e no 
cerco estratégico de colunas populares a algumas capitais separatistas. O 
governo do aymará Evo Morales foi obrigado a se mexer, uma vez que duas colunas 
de camponeses e mineiros cercaram a capital da secessão camba, Santa Cruz de la 
Sierra. A terra de Túpac Katari e Inti Peredo quase viu a derradeira guerra de
 libertação anti-colonial. Não foi daquela vez e a legalidade republicana vêm 
sobrevivendo desde então. 

Na terceira tentativa, os poderes hondurenhos, através das forças armadas 
treinadas sob influência da Escola das Américas, derrubaram o presidente 
eleito. Não é um golpe como os do período da Guerra Fria e sequer se aparece 
com o autogolpe do nipo-peruano Alberto Fujimori, em abril de 1992. José Manuel 
Zelaya Rosales foi derrubado por um golpe cívico-militar em 28 de junho deste 
ano. Justo no domingo de manhã, dia em que se convocava uma consulta a respeito 
da necessidade ou não de uma Assembléia Nacional Constituinte, o presidente 
eleito pelo Partido Liberal de Honduras (PLH), foi cercado em sua residência e 
levado preso para a Costa Rica. A partir deste dia até o retorno na última 
segunda- feira (22/09) ao país, Zelaya praticou uma intensa atividade 
diplomática, recheada de alianças pontuais e duplo discurso. A motivação fática 
dos oligarcas bananeros de sempre nas Honduras é a legalidade constitucional. 

Parece que se inspiram na possibilidade de repetirem o ano de 1955 na 
Argentina. Uma vez derrubado Juan Domingo Perón através do golpe mais à direita 
(gorilas, liberais, socialistas e comunistas pró-Moscou) iniciado em 16 de 
setembro, o peronismo/justicialismo ficou proibido de participar – ao menos em 
sua integralidade – das eleições subseqüentes. Se Zelaya não voltasse, essa 
seria a linha adotada pelo presidente golpista Roberto Micheletti, pelo general 
torturador Romeo Vásquez (o ex-chefe do Estado Maior Conjunto das Forças 
Armadas hondurenhas, destituído dias antes do golpe) e o governo exterior em 
paralelo comandado pelos ultra-conservadores yankees encastelados no 
Departamento de Estado e no Comando Sul do Império. 


Em Honduras, há uma bomba de tempo acionada 

Há momentos na trajetória de um país que a tomada de decisão é fundamental. No 
caso de Honduras, apesar e além de todas as alianças e manobras diplomáticas 
realizadas pelo presidente deposto José Manuel Zelaya Rosales, havia um fator 
estratégico. Esse fator tem um nome e se chama correr riscos. Se a liderança do 
presidente constitucional queria manter-se legítima, o latifundiário convertido 
em líder popular teria que lutar, pôr na reta e arriscar a vida. O país sofreu 
um golpe, através de um exército fiel e leal a Escola das Américas que o 
treinou, e subordinado aos poderes instituídos sob controle da oligarquia 
local. Esse é o tipo de tropa que não brinca e não se arrepende. Todo golpe de 
Estado é sinônimo de violência e perigo. Para recuperar partes de este poder, 
havia que jogar com todas as possibilidades, inclusive de vida. E, Zelaya, 
quando cruzou a fronteira e refugiou-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa, 
chamou
 para si esta carga. 

Muitos analistas duvidavam da capacidade do político de carreira do Partido 
Liberal de Honduras (PLH) em aceitar o desafio que lhe fora imposto. Os dois 
primeiros blefes de que retornaria ao país sem sequer passar da fronteira com a 
Nicarágua reforçaram este ponto de vista. Confesso que estava cético também, e 
errei. Detalhe, isso não converte José Manuel em José Martí ou José Gervasio e 
nem nada parecido. Ele é a última esperança de um processo de divisão de um 
pouco de renda e riqueza e de um desenvolvimento capitalista parcialmente 
autônomo. À esquerda dele, no miolo e no seio da Frente Nacional de 
Resistência, tem gente muito séria, peleando duro e mirando longe, indo além 
dos horizontes da democracia liberal-burguesa, apontando objetivos finalistas 
de democracia de tipo direta e insubordinação do país ao negócio de plataforma 
de exportação primária para o Império. Foi essa a parcela de hondurenhos que 
obriga Zelaya a
 mover-se. E, para surpresa de muitos, incluindo este que escreve, ele o fez. 

Em situações limite, a qualidade da liderança política também implica em sua 
pré-disposição pessoal para jogar duro e transitar nas parcelas cinzentas das 
estruturas e alianças internacionais e continentais. Não tenhamos ilusões, 
ninguém faz política no exílio sem infra-estrutura, recursos e segurança 
individual. Dada a procedência dos militares hondurenhos, a possibilidade de 
ser assassinado era e é uma constante. Se o magnicídio é falado aberta e 
publicamente nos meios de comunicação oligárquicos da Venezuela, o que dirá nas 
sombras de janelas de fundos de quartos de hotel e casas de apoiadores nas 
zonas de fronteira. O ex-presidente tem estafe de confiança, e com certeza bons 
contatos entre oficiais militares de seu país. Ainda assim, para cruzar a 
fronteira de um pequeno país extremamente vigiado, houve defecção e acerto 
entre setores castrenses. 

Durante os oitenta e seis dias que peregrinou pela América Central e indo aos 
foros diplomáticos adequados, Zelaya contou com logística e um aparato de 
inteligência operando para ele. Caso contrário, nem vivo estaria. Mesmo um 
ex-presidente deposto passa dificuldades e todo aparelho político – ainda mais 
no exílio – custa caro. Sem infra e recursos, nada mais se faz do que 
testemunhar a decadência de um projeto político. Não foi esta a alternativa de 
Zelaya, dada a velocidade com que se movia. Os países do Continente estão 
jogando com a possibilidade de frear a tentativa de contra-ofensiva do Império. 
E o epicentro agora está em Honduras. Essa constatação reforça a tese do apoio 
direto ou indireto de governos e administrações latino-americanas. Certamente 
para isso, contou com aliados diversos e muitas vezes disputando liderança na 
mesma região. Tal é o caso entre Brasil (finalmente!) e a Venezuela, que já 
vinha dando
 sustentação ao seu governo a partir das negociações lícitas do preço do barril 
de petróleo e em operações de tipo corações e mentes, como a Operación Milagro, 
onde idosos eram operados gratuitamente (como deve ser) de cataratas e outras 
enfermidades curáveis nos olhos. 

Mas, nesse breve exílio, o presidente deposto teve de ter habilidade nas regras 
da política tradicional. Oscilando entre grupos, Zelaya joga um pouco como 
franco-atirador na política, embora pareça mais fanfarrão do que é. Primeiro 
sinalizou estar favorável ao Acordo de San José, coordenado pelo presidente da 
Costa Rica, Oscar Arias. Neste texto, constava a anistia para os golpistas e o 
abandono da convocatória de uma Assembléia Constituinte. Se esta vergonha 
vingasse, estava aberta a porteira para uma série de golpes institucionais ou 
então possibilidades jurídicas como “destituintes” dos governos eleitos. Por 
sorte, logo após o anúncio por Mr. Arias, vociferou estar contra o texto e o 
“consenso” – cujo preço era tentar “pacificar” a resistência - para o retorno. 

O que há de inusitado é a reação do presidente destituído. Na maioria das 
vezes, líderes de tradição oligárquica, mesmo com apoio popular, não arriscam a 
desintegração da ordem social para recuperar uma parcela do poder político. Tal 
foi o caso do ex-presidente brasileiro deposto João Goulart, por exemplo. 
Diante da possibilidade de divisão das forças armadas e guerra civil na defesa 
de seu governo e do processo democrático-liberal, Jango roncou baixo e não 
acionou a cadeia de comando entre militares ainda leais a ele. Não tivemos 
“guerra civil” no Brasil, mas pagou-se o preço de mais de quarenta mil 
torturados, presos políticos, desaparecidos e vinte e um anos de ditadura. O 
preço foi alto demais para manter a ordem social em detrimento da ordem 
política. Fiquemos atentos, porque esse tipo de manobra ainda pode ocorrer com 
Zelaya. Se bem que, sejamos justos, a cada dia que passa as margens para tomar 
esse tipo de decisão se
 reduzem. 

Quem luta em Honduras e como se informar desta epopéia cívico-popular 

Não me surpreende as multidões nas ruas de Tegucigalpa e de outras cidades 
hondurenhas. Desde o dia 28 de junho leio diariamente a mídia alternativa 
hondurenha, Apesar da desinformação pela qual passamos, é possível furar o 
bloqueio midiático. Por um lado, acompanhava a Frente Nacional de Resistência 
através de meios hondurenhos alternativos, como o excelente projeto Habla 
Honduras, ou nas transmissões de rádio web da Rádio Feminista ou da Rádio 
Liberada. As fotos, vídeos e transmissões radiofônicas não deixam dúvidas. 
Estamos diante de uma peleia popular e com dimensão gigantesca para as 
proporções do país. 

A pauta central das entidades e organizações que compõem a Frente Nacional de 
Resistência Contra o Golpe é a nova constituição e a pulverização do poder. 
Este se concentra tanto na oligarquia hondurenha como nas suas sócias 
majoritárias, transnacionais de mineração ou bananeiras como a estadunidense 
Chiquita, ex- United Fruit (leia aqui as denúncias em castelano). Chávez, Lula 
e até Obama sabem que Manuel Zelaya sabe que está sentado sobre uma bomba 
relógio. Por um milagre de São Óscar Romero, dessa vez o Brasil e sua 
diplomacia se comportaram a altura de quem quer ser líder na região. Este país, 
que se arvora de neutro nos conflitos, foi o mesmo que ajudou a exportar a 
Doutrina das Fronteiras Ideológicas, enviando torturadores aos quatro cantos do 
Continente, além de haver participado ativamente na Operação Condor. Espera-se 
que a medida de receber o presidente deposto na embaixada de Tegucigalpa comece 
a mudar as práticas do
 Itamarati. 

Concluindo a análise 

Honduras está próximo de um conflito em larga escala, podendo resultar numa 
rebelião popular sem precedentes. Espera-se que o povo Hondurenho em geral, e a 
Frente Nacional de Resistência em particular, estejam preparados para uma luta 
de longo prazo. No curto prazo, derrotar os golpistas tem um significado 
estratégico para toda América Latina.  
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