Entre Nós 
Dança/Teatro

Direção: Diana Fontes
Texto: Cláudia Magalhães 
Dias 17 e 18 de outubro: Casa da Ribeira/Natal - 20h
 
Aproveito para enviar um dos contos do espetáculo "Ele". Para ler mais contos 
de minha autoria, é só acessar: www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com
Beijos e boa leitura.
 
 
Ele


 
Cláudia Magalhães







      Ele foi, aos poucos, abrindo o seu enorme baú de vergonhas. Vinícius era 
o seu nome. Conheço-o desde a mais tenra idade. Crescemos juntos. No início, eu 
o achava destemido, inteligente, ousado, mas, com o passar dos anos, ele foi se 
revelando um ser repugnante, capaz das piores baixezas para conseguir o que 
queria. Aos 22 anos, nos formamos em jornalismo e começamos a trabalhar na 
redação do jornal de um amigo em comum. Apesar dos vexames que ele me causava, 
não conseguia me afastar dele. Sentia, por Vinícius, medo e fascínio, uma 
espécie de obsessão. Com o início do trabalho no jornal, vi a adolescência ir 
embora. Deslocado, no meio daqueles homens mais velhos, eu me refugiava, cada 
vez mais, em sua companhia. Saíamos todas as noites, depois do trabalho, para 
beber. Ele foi se afogando, rapidamente, na bebida. Confesso, que sempre senti 
uma forte atração pelo lado escuro da vida. Mas, depois da falsa alegria, só me 
restava uma forte depressão. Apesar disso, não saberia o que fazer da minha 
vida sem Vinícius. Tinha medo da solidão, de ser consumido pela ternura e amor 
que existiam em mim.
      Até que conheci Márcia, meu grande amor. Imediatamente, me afastei do meu 
amigo e comecei uma vida nova. Ela me devolveu o sono tranqüilo e o dia. Apagou 
as nuvens cinzas do meu céu e pintou um arco-íris. Ela me trouxe a poesia. 
Depois de dois meses de namoro, nos casamos. Todas as noites, ela apagava as 
luzes da nossa pequena varanda e dizia: É na escuridão que melhor enxergamos as 
estrelas. Mas, existem homens que têm medo do escuro e, principalmente, de céu. 
Eu era um deles.
      Eu e Vinícius, aos poucos, reatamos a nossa amizade. A partir daí, 
começou o meu inferno. Todas as noites, eu via a minha vida se arrastando de 
bar em bar e escorrendo pelos copos. Passei a chegar, cada vez mais, tarde em 
casa, causando tristeza e desgosto à minha amada. A minha vida profissional 
começou a ruir. Sempre colocando o meu nome em jogo, ele começou a desrespeitar 
o nosso chefe, a furar as entrevistas marcadas e a chegar bêbado no trabalho. 
Fomos demitidos. O desgraçado exercia um forte poder sobre mim. Influenciado 
por ele, virei mais uma vítima da piedade e compaixão das pessoas. A que ponto, 
meus amigos, um homem pode chegar! Metíamos-nos em brigas, importunávamos as 
pessoas, lambíamos o chão, impregnando a nossa língua com toda a sujeira do 
mundo. Até que aconteceu o pior.
Um dia, cheguei em casa e encontrei Márcia sentada na cama, acuada, com o corpo 
cheio de hematomas. Os seus olhos estavam assustadoramente inchados e o seu 
lábio inferior tinha um corte profundo. Quando ela me viu o seu rosto perdeu a 
cor. Disse-me, gritando aos prantos, que ele, o maldito Vinícius, bêbado, 
entrou no apartamento, feito um louco, dizendo palavras obscenas e movido pelas 
piores danações do mundo, a violentou. Cão dos infernos! Excremento do mundo! 
Ah, meus amigos, senti, naquele momento, a dor de mil facadas no peito! Perdi 
os sentidos. Quando acordei, ela já havia partido. Ela se foi e toda a beleza 
deixou de existir. Ela levou a pureza e a alegria. Levou a poesia de 
Shakespeare, o lirismo de Camões e o encanto das músicas. Ela foi embora 
arrastando o tempo, o perfume e todas as cores. Apagou as linhas das minhas 
mãos, deixando somente uma enorme tristeza. Ela se foi e, nas primeiras horas 
de abandono, multipliquei por mil os meus recalques.
      Eu queria me vingar! Acabar, definitivamente, com aquele lixo! Reuni 
todas as minhas forças e fui ao encontro do maldito. Encontrei-o sujo, bêbado, 
fedido. Levei o canalha para o famoso bar da linha do trem, do outro lado da 
cidade, conhecido por ser freqüentado por marginais da pior espécie. Estava 
lotado. Pedimos uma garrafa de cachaça e começamos a beber. Incentivado por 
mim, não demorou, para o desgraçado arrumar confusão. Falando alto, começou a 
provocar o sujeito da mesa ao lado.

- O que você está olhando? Quer levar porrada, seu merda?
Imediatamente, o sujeito pegou uma faca e ficou encarando Vinícius.
- Venha, seu corno filho da puta! Covarde! - insistiu.
O sujeito enfiou a faca na barriga dele, que parecia possuído pelo demônio.
-Ah! Ah! Ah! É só isso o que você sabe fazer, seu frouxo?
Foi tão grotesca a reação que o sujeito se intimidou por alguns segundos.
- Ora, pelo amor de Deus! Faça o que tem que fazer, depressa!

      Feito um animal selvagem, o sujeito desferiu-lhe várias facadas, Até 
restar-lhe somente um fiapo de vida.
Apesar da dor, eu mantinha um sorriso de satisfação, de vitória. Com o corpo 
banhado em sangue, eu agüentava firme. Logo, logo, viria a recompensa. Ali, 
imóvel, eu aspirava o cheiro da morte. Feito um urubu aguardando carniça, eu vi 
a vida fugindo de mim em vermelho. A luz foi sumindo aos poucos. É na escuridão 
que melhor enxergamos as estrelas, pensei. Meu nome, Vinícius. Derrotei o meu 
maior inimigo: eu!

                                          
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