Entre Nós 
Dança/Teatro

Direção: Diana Fontes
Texto: Cláudia Magalhães 
Dias 17 e 18 de outubro: Casa da Ribeira/Natal - 20h
Preço: 5 reais 
 
Clique aqui e veja o vídeo do espetáculo:
http://www.youtube.com/v/y1tFMP6s2Jo&hl=pt-br&fs=1&";></param><param  
 
Aproveito para enviar mais um conto de minha autoria. Para ler mais, é só 
acessar: www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com
Beijos e Boa leitura!





A Carta 

 
Cláudia Magalhães



      O relógio da parede marca as primeiras horas do anoitecer de uma 
sexta-feira. O silêncio escuta com paciência as batidas descompassadas do 
coração de Dona Alma, que sentada à pequena mesinha redonda do terraço 
fracamente iluminado, observa atentamente a rua comprida que segue ladeira 
abaixo. São fortes, as lembranças do passado. Sente uma saudade tão assustadora 
e, ao mesmo tempo, tão infinitamente sedutora, que é impossível rejeitá-la. Há 
um ano, um amor que era tudo na sua vida, foi embora, deixando o seu coração 
cheio de agonia. Desde então, dorme e faz as refeições na pequena varanda. Ele 
pode voltar a qualquer momento, pensa. Abre o bloco grande de papel e começa a 
escrever.
      Meu querido, porque sumir por tanto tempo? Se te magoei por algum motivo, 
peço-te novamente perdão e milhões de vezes te pedirei se assim necessário for. 
Volta, amor... A saudade já roubou os meus sonhos e insiste em me deixar com 
uma aparência doentia... Tenho na garganta uma pedra deixando os meus olhos 
cobertos de areia, o que justifica tantas lágrimas... tanta chuva... Ela desceu 
até o meu sexo e matou a minha flor. O peso é insuportável, por isso são poucos 
os meus movimentos. O meu coração continua acordado. A dor ajudou a mostrar o 
seu valor . Ele continua forte, embora apresente sinais de loucura... Volta, 
que o meu Deus está triste porque dia e noite eu jogo a minha ira sobre ele... 
É grande a espera, mas vale a pena, pois espero a coisa mais linda do mundo... 
Volta, meu arco-íris...Volta, que tenho algo a te dizer, algo que, talvez, já 
tenha dito antes, mas que, agora, é de vital importância pra mim, pois só 
assim, darei um fim a minha dor.
      Escuta o barulho do arrastar das sandálias de Pretinha, sua empregada. 
Dobra a carta com cuidado, a coloca dentro de um envelope, e em seguida, cola 
uma fitinha cor-de-rosa. No verso, escreve com letra miúda o nome do marido. 
Pretinha chega com as sobras do almoço.

- Está na hora do seu jantar.
- Pegue essa carta Pretinha, coloque-a no correio. De hoje, não passa.
- Pelo amor de Deus, Dona Alma! Aceite a realidade, o seu Manoel morreu! 
Morreu, entende? – esbravejou Pretinha – Há um ano, que a senhora, todos os 
dias, escreve essas malditas cartas e todos os dias eu as jogo no lixo!

      Neste instante, Dona Alma vê o seu marido subindo a velha rua estreita 
com sua camisa branca de linho, sua calça de micro-fibra, a preferida em tempos 
de calor, e o seu eterno chapéu Panamá. Corre até o portão, e com as mãos na 
cabeça, grita:

- Manoel! Manoel!

      Ele voltou, e seria loucura duvidar. Cai de joelhos agradecendo ao céu, 
agradecendo a vida dedicada ao amor fiel e nobre, as tristezas e alegrias 
compartilhadas, agradecendo a rua, bendita rua, que com a ajuda de pisadas 
retas ou tortas guarda em suas frestas a sua linda história de amor... Dona 
Alma vê Manoel se aproximar sorrindo. Ele atravessa o portão, lhe estende com 
serenidade a mão, e diz:

- Vamos, querida! Você precisa descansar...

Deixa-se abraçar feliz. Observa Pretinha a olhando apreensiva, curiosa.

- Pretinha, obrigada por tudo – sussurrou, aproximando-se da amiga.
- Está tudo bem com a senhora? Eu não queria...
- Pode ir em paz, minha querida. Eu vou deitar no meu quarto, na minha cama... 
Preciso dormir... - Segue o marido em direção ao interior da casa.

      Pretinha sorri. Finalmente Dona Alma havia compreendido a situação. Pega 
a sua bolsa, fecha a porta com a sua chave e, pela primeira vez, nesse último 
ano, vai para casa aliviada. Quem sabe, encarando a realidade, ela recomeça a 
sua vida, uma vida nova!, pensa com carinho.
      Dona Alma deita feliz ao lado de Manoel, o seu amor. Deita procurando a 
vida desejada. Deita para nunca mais acordar.
                                          
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