Entre Nós 
Dança/Teatro

Direção: Diana Fontes
Texto: Cláudia Magalhães 
Local: Casa da Ribeira
Dias 17 e 18 de outubro
Hora: 20h
Preço: R$ 5 reais 
 
Clique aqui e veja o vídeo do espetáculo:
http://www.youtube.com/v/y1tFMP6s2Jo&hl=pt-br&fs=1&";></param><param 
 
Aproveito para enviar mais um conto de minha autoria. Para ler mais, é só 
acessar: www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com
Beijos e Boa leitura!



Deus e o Diabo 

 
Cláudia Magalhães


      Quero deixar bem claro que não estou aqui em busca de compaixão. A minha 
única intenção é a de compartilhar a minha história com o maior número possível 
de pessoas, já que, a qualquer momento a vida poderá me cuspir, e sempre que 
falo sobre o assunto em questão, sinto um grande alívio na alma.
Alguns de vocês podem ficar horrorizados, outros, talvez, admitam para si, que 
já cometeram algo do gênero em pensamento, e um ou outro, o tenha realizado com 
a mesma intensidade e o ache bastante natural.
      Eu me chamo Carlos. Sempre fui amável, bem-humorado e comunicativo. Uma 
excelente companhia na roda de amigos. Tive inúmeras namoradas e com todas o 
relacionamento foi bastante equilibrado. Até que conheci, aos 35 anos, Helena. 
Aos 34 anos, ela era bela, inteligente e tinha um humor como poucos. Fui tomado 
por um sentimento monstruoso, forte, que me deixava insuportavelmente feliz. 
Não demorou para nos casarmos. No início, tudo tranqüilo, mas com o passar dos 
meses fui ficando cada vez mais inseguro, com fortes crises de ciúmes. Passei a 
beber compulsivamente. Sentia um ciúme especial por Marcos, um amigo em comum, 
e que sempre estava presente na roda de amigos. Ele era um empresário bem 
sucedido, metido a galã, boa conversa. Todas as pessoas o admiravam, inclusive 
Helena. No bar, ele fazia questão de sentar ao lado dela. Como isso me 
irritava! E os olhares? Ah... Os olhares que eles trocavam cúmplices, cheios de 
desejo. O ódio que passei a sentir por ele, é difícil de descrever. Quando nos 
encontrávamos o meu corpo era tomado por um pavor que me causava espanto. 
Tentei, juro que tentei, reverter essa situação, me aproximando mais dele. Mas 
quanto mais agradável e amigo ele era, mais ameaçador ele se tornava para mim. 
Entrei no inferno. Pensava, em Carlos e Helena se amando, o dia inteiro. Até 
que, numa terça-feira, não suportando mais essa situação, saí mais cedo do 
trabalho. Fui direto para o bar. Para minha surpresa, lá estava ele, o meu 
rival, sozinho numa mesa lendo o jornal do dia. Maldito! O meu corpo todo 
tremeu, Não sabia se estava com boa ou má sorte. Demônio! Entrou em minha vida 
pra tentar destruir o meu amor e estava lá, tranqüilo, sereno. Ele sorriu na 
minha direção. Um sorriso largo, amigo. Canalha! Ele nunca pareceu tão 
demoníaco quanto nesse momento. Não havia mais ninguém conhecido no bar. Era a 
minha grande oportunidade. Desliguei o telefone e fui em sua direção. Nunca fui 
tão agradável, tão simpático como naquele dia. Conversamos sobre futebol, 
livros, filmes... Enquanto isso, um filme, em especial, ia passando na minha 
cabeça, onde ele e Helena eram os protagonistas... Filho do cão! Fingindo ser 
meu amigo com um único objetivo: seduzir Helena, a minha doce Helena! Entrei no 
jogo pra vencer. Ele só sai daqui embriagado, pensei. Dito e feito. Paguei a 
conta. Disfarçadamente, peguei uma das facas que serviu para cortar o tira 
gosto e coloquei dentro do meu casaco. Era pequena, porém pontuda e muito 
afiada. Serviria para o meu intento. Saímos do bar abraçados. Vou levar você em 
casa e de lá eu pego um táxi.Onde está o seu carro?, perguntei. Está na rua ao 
lado, respondeu, me entregando a chave. Era uma rua perfeita, deserta. Entramos 
no carro. Fechei a porta. Carlos, embriagado, logo adormeceu no banco do 
passageiro com a cabeça encostada no vidro, deixando o lado esquerdo do pescoço 
completamente exposto. Me senti Deus naquele momento, ou o Diabo, se 
preferirem. Qual é mesmo a diferença de um para o outro? Não importa. Eu 
transpirava muito. Pensei em Helena, meu grande amor... Ela era inocente, eu 
conhecia bem o seu caráter, era somente uma vítima daquele canalha! Estava 
decidido. Peguei a faca e mirei na jugular. Quando desferi o golpe ele se 
mexeu, acertando no seu ombro. Ele acordou assustado. Olhou pra mim com aqueles 
malditos olhos do inferno. O meu sangue fervia. Estava possesso e deixei os 
meus instintos me guiarem. Desferi vários golpes, na barriga, no rosto, na 
perna... Eu sentia prazer enquanto ele gemia de dor. Sinto-me constrangido ao 
dizer isso, mas não é esse alternar de estado de espírito dos homens, onde uns 
tem que chorar para que outros possam sorrir, que sustenta a vida? Sim, eu 
sentia um enorme prazer ao ver o seu espírito se contorcendo, lutando contra a 
morte. Até que, finalmente, puxei a cabeça dele para trás e desferi o golpe 
fatal. Pronto. Estava tudo acabado. Estou preso há dois anos. Fui condenado 
pelo assassinato de um homem que todos consideravam bom, um santo... Ele foi o 
culpado! Ele estava infernizando a minha vida! Eu não tinha saída. Se algum de 
nós é Deus ou o Diabo, pouco importa, os dois gostam muito de sangue...
      Desde aquele dia, nunca mais vi Helena... A minha doce Helena... Matei um 
homem pensando em começar uma vida nova ao lado do meu grande amor. Mas, desde 
aquela noite, o Sol se recusa a nascer.

                                          
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