A análise estratégica e o Jogo Real da Política – 3
29 de outubro de 2009, por Bruno Lima Rocha

No fechamento desta curta série de três artigos, apresento uma síntese do 
conceito estratégico desenvolvido pelo general prussiano Carl von Clausewitz. A 
edição que utilizo do livro Da Guera (na verdade uma compilação de seus 
escritos e disciplinas ministradas para os oficiais da Prússia na primeira 
metade do século XIX) é a da editora Martins Fontes (São Paulo), lançada em 
1996. O texto se desenvolve, como já é de costume, na definição de conceitos 
operacionais.
O Jogo Real da Política, para além dos marcos da democracia 
liberal-representativa 

O conceito de Jogo Real da Política é aqui por mim definido como “um conjunto 
de regras e instituições formais e informais, legais e ilegalizadas, com 
discursos explícitos e implícitos e margens de manobra que ultrapassam o 
constrangimento”. Este conceito tem sua semelhança com a definição de 
Clausewitz (p. 127) quando este afirma que “a guerra assemelha-se mais ainda à 
política [...] a política é a matriz na qual a guerra se desenvolve”. Por 
conseqüência este conceito de Jogo Real e a definição de guerra como tendo 
origem na política – e por tanto como a guerra sendo uma variável da política e 
desta da guerra – necessita uma teoria que não confunda o sentimento empregado 
de crença em objetivos finalistas e na estratégia que assegura a esta 
finalidade com o conhecimento científico do jogo em si. 

Temos por diante a dificuldade própria da definição da natureza daquilo que 
estamos chamando de política, especificamente de Jogo Real, dado que a 
“realidade” não é algo absoluto, mas sim o conjunto de existências 
constituídas, sendo ou não perceptíveis. Clausewitz (p. 108) nos aponta esta 
dificuldade e assinala uma saída: “Para reconhecer com clareza a dificuldade 
que representa a elaboração de uma teoria da guerra, para poder deduzir de tal 
dificuldade o caráter que a teoria deve ter, tem de se considerar mais de perto 
as dificuldades essenciais inerentes à natureza da atividade bélica”. 

A Teoria aplicável no Jogo Real – para além dos formulismos e procedimentos 
estéreis 

O Jogo Real da Política, pela ausência de pré-definição de regras absolutas, 
necessita de uma teoria que, da complexidade e das interações entre agentes 
opostos e aliados, extraia a organicidade dinâmica que só existe em um cenário 
real. Para tanto, a capacitação teórica do operador político se parece com a de 
um homem ou mulher em posição de comando em um cenário de guerra. Vou ao 
encontro e concordo com a crítica de Golbery ao pensamento simplista e de 
causalidade linear. Nenhum formulismo permite a decisão acurada e nenhum 
treinamento indireto possibilitará uma carga de habilidades acima da 
ambientação. Clausewitz (p. 114) nos dá um exemplo desta capacitação teórica, 
pondo-se em acordo com aqueles que vêem a importância do conhecimento como algo 
tangível e de aplicação estratégica e não o confundem com algo que, embora 
importante, não é científico. Ou seja, Clausewitz faz a crítica da formulação 
do conhecimento
 como representação. 

A teoria existe para que as pessoas não precisem estar permanentemente pondo as 
coisas em ordem e traçando caminhos, mas para que se encontrem as coisas 
ordenadas e esclarecidas. Ela é destinada a educar o espírito do futuro chefe 
de guerra, digamos, antes, a orientar a sua auto-educação e não a acompanhá-lo 
no campo de batalha, assim como um pedagogo prudente orienta e facilita o 
desenvolvimento espiritual do jovem sem que, no entanto, o traga amarrado a si 
durante toda a sua vida 

Aquilo que não é científico pertence ao universo dos sistemas de crenças, que 
no entender deste trabalho, é inerente à condição humana e interdependente com 
os saberes científicos. Os sistemas de crenças tomam como matéria prima o 
elemento ideológico, que no caso da natureza da guerra (análoga a política) é 
assim caracterizado por Clausewitz (p. 109), como o fruto da experiência 
acumulada em um meio hostil e adverso, com o risco real: “[...] o combate 
engendra um elemento de perigo em que todas as atividades da guerra têm de se 
manter e evoluir, como um pássaro no ar ou um peixe na água [...] a coragem não 
é um esforço de inteligência, é um sentimento assim como o temor.” 

A Política como resultante de conflitos sociais em escala permanente 

A guerra, como já se viu antes, pode se dar com variados graus de intensidade, 
incluindo aí sua variável na política interna de um país, ou seja, a guerra 
civil. Inclui-se nesta variável a configuração de luta de classes, de projeto 
político de Poder Popular, ou seja, de guerra civil com fins revolucionários. 
Associa-se por tanto, a guerra com a permanência dos conflitos e disputas na 
sociedade, ou seja, a política. Não há guerra sem fins políticos, e não há 
política sem conflito (distintas relações de força, ordenado ou não, em um 
marco legal ou ilegal, jurídico ou ditatorial, de conciliação ou luta de 
classes). As relações políticas por tanto, são essenciais para o desenrolar de 
toda e qualquer situação belicosa, não tendo razão de existir sem fundamento 
político. Segundo Clausewitz (1996, p.870), "a guerra é apenas uma parte das 
relações políticas, e por conseqüência, de modo algum independente." 

Observa-se assim que não há concepção possível de "lógica pura da guerra", 
"insensatez militar absoluta", "independência dos campos em todos os planos" e 
outras alegações que "endemonizam" os setores militares e isentam seus 
respectivos regimes ou capitais hegemônicos que os sustentam. O que sim pode 
ser dito, é que há uma especificidade nos assuntos de guerra, assim como todo e 
qualquer campo tem seus traços característicos e outros comuns entre todos os 
campos. E, como as relações políticas são o que há de permanente em toda e 
qualquer sociedade. Não se associa política necessariamente com disputas por 
interesses corporativos ou eleitorais. Clausewitz aporta uma definição que é 
análoga ao Jogo Real da Política. 

Nós afirmamos, pelo contrário: a guerra nada mais é senão a continuação das 
relações políticas, com o complemento de outros meios. Dizemos que se lhe 
juntam novos meios, para afirmar ao mesmo tempo em que a guerra em si não faz 
cessar essas relações políticas, que ela não as transforma em algo inteiramente 
diferente, mas que estas continuam a existir na sua essência, quaisquer que 
sejam os meios de que se servem, e que os principais filamentos que correm 
através dos acontecimentos de guerra e aos quais elas se ligam não são mais que 
contornos de uma política que prossegue através da guerra até a paz. 
(Clausewitz, 1996, p.870) 

Nota-se que Clausewitz é bem enfático quanto ao absurdo de imaginar que uma 
situação pode existir por si mesma. Não se trata de teoria conspiratória, mas 
sim de compreensão de processos que levam a ter como sintomas (e não como 
ápice, ao menos não obrigatoriamente) a guerra ou outra forma de conflito. 
Nunca é demais reforçar que: "não se pode, pois, separar nunca a guerra das 
relações políticas, e se tal acontecesse num ponto qualquer do nosso enunciado 
todos os filamentos dessas relações seriam de certo modo destruídos e teríamos 
uma coisa privada de sentido e intenção". Clausewitz, igual a anterior). 


O conflito como meio para atingir finalidade estratégica 

O estrategista prussiano chega a comparar a utilização da guerra pela política 
com um simples instrumento de seus desígnios. O esforço bélico, diz ele, é como 
as diferentes formas e pesos de uma espada, desde a pesadíssima espada 
medieval, a curvilínea cimitarra, a velocidade de um florete ou a praticidade 
de um gládio romano ou da espada trácia de Espartacus. O desenvolvimento e a 
utilização das estruturas beligerantes podem chegar, através da política, até a 
forma absoluta da guerra. Como vimos antes, a guerra (ou a capacidade de 
conflito sistemático) tanto pode tomar a forma de Forças Armadas, como a de um 
vigoroso aparelho policial, organismos de inteligência e outras formas mais ou 
menos militarizadas de controle. 

A forma absoluta a que se refere Clausewitz tem o perigo de um desenvolvimento 
estrutural (das forças beligerantes) além da necessidade política que o formou. 
Este é um fenômeno bastante recorrente na defesa interna e repressão política, 
quando estes órgãos se desenvolvem além de sua necessidade, ou do "efeito 
sanfona", quando uma vez superado o inimigo interno, não há o que fazer com 
tamanho contingente especializado. Embora não tenha independência total, o 
campo militar (e suas áreas afins) é dotado de lógica própria, e por vezes 
condiciona as sociedades que o geraram. O Poder Moderador (das Forças Armadas) 
é visto como um fator de estabilidade em países de terceiro mundo (América 
Latina incluída), sendo muitas vezes escolhido como aliado pela política 
externa das potências chamadas de imperialistas. Vale ressaltar que 
compreendemos imperialismo, genericamente, como um conjunto de práticas de 
imposição de vontades (em
 especial as áreas de interesse das transnacionais) e mecanismos globais de 
regulação (por estas potências orientadas, como o Fundo Monetário 
Internacional, FMI; Banco Mundial; Organização Mundial do Comércio, OMC; dentre 
outros). 

Esta mesma lógica própria também costuma ocorrer na "atrofia" de organizações 
de intenção revolucionária, quando suas estruturas beligerantes são 
desenvolvidas além da necessidade política que levou a sua própria criação. 
Concordando com Clausewitz mesmo no campo da extrema-esquerda, se a política 
não for o determinante nos desígnios da guerra, esta perde o sentido, 
invertendo a lógica das operações, e perdendo o objetivo do conflito em si. 

Como já foi dito antes, a guerra (ou toda forma de conflito sistemático por 
intermédio da violência física, tenha esta qualquer grau de intensidade) é uma 
continuidade e instrumento das relações políticas. Tanto a política como a 
guerra necessitam para funcionar, de um recorte do real, algo que ordene e dê 
sentido (colete, processe, analise e opere) a imensa carga de informações 
empíricas que se fazem perceber na realidade como tal. Considerando que uma 
realidade única e pré-concebida simplesmente não existe (naturalizando suas 
condições, como que dizendo: "isto é assim porque é", "o mercado está 
inseguro"), é necessário recortar o real e dividi-lo em níveis de análise.
Leia também: A análise estratégica e o Jogo Real da Política – 2 e A queda do 
helicóptero e os problemas insolúveis do Rio de Janeiro
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Estratégia & Análise: a política, a economia e a ideologia na ponta da adaga.
 
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