JH - 03/11/2009
 

Eleição também tem os seus vícios, Senhor Redator. Não o gesto democrático para 
uma escolha livre, a manifestação de eleger ou derrotar, mas o seu uso. O 
utilitarismo que se possa fazer do seu \'ismo\' quando serve para acomodar. 
Eleição vicia quando apascenta, substitui o confronto das idéias pelo silêncio 
distancia um povo ou uma instituição do calor da vida, presas às rotinas 
pessoais, sem gosto pela aventura e a descoberta das contradições. 

É o que aconteceu com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Não se há 
de negar o valor da eleição. Mas, nos últimos dezesseis anos, o que se viu foi 
a instalação de um mando que, embora manso e discreto, tem transformando o 
maior centro de estudos, ensino e pesquisas num interminável rodízio de 
sentinelas de um mesmo poder. E o que restou foi uma Universidade calada, sem 
causas e sem rebeldes, viciada em boas maneiras.

Parece incrível que a nossa maior instituição, aquela que reúne cientistas 
políticos, filósofos, críticos e pensadores, dedique a mais de dois milhões de 
pessoas - a população do Estado - a cada 365 dias dos anos de quase duas 
décadas, um pobre legado de silêncio. É como se as ciências humanas fossem 
feitas de idéias neutras e estéreis, e a riqueza do pensamento crítico se 
conformasse diante das ricas contradições de uma sociedade política.

Fechada em si mesma e cercada por um canteiro de obras que acabou por fazê-la 
refém de um obreirismo a acalentar nosso complexo de pobreza, a Universidade já 
não é a reserva ativa de inteligência que foi no passado. Ficou perigosamente 
parecida com uma repartição nos seus jogos de cargos, comissões e vantagens. 
Alguns deles concedidos como forma de dissimulação de um jogo de prestígio que 
em nada difere do estilo politiqueiro. 

Tem faltado um grande maestro capaz de reger a força da Universidade não para a 
barganha de cargos e benefícios, mas para fazê-la outra vez capaz de ser uma 
instituição de referência. A exercer a legitimidade de dizer não, quando faltar 
à sociedade a quem recorrer em busca do saber e do saber fazer. Ir bem além da 
estatística de cursos, pesquisas, graduações e pós-graduações que, embora 
necessárias, não promovem sua riqueza plena.

Talvez a Universidade esteja maior, mais bem equipada e materialmente mais rica 
neste seu meio século de vida. Mas, perdeu a capacidade de indignar-se, 
prisioneira de uma produção acadêmica cifrada, incapaz de promover o debate de 
idéias. Como se administrá-la fosse reger os seus silêncios. E como se do outro 
lado da sua cerca a sociedade que a mantém nada merecesse, além do ensino geral 
das profissões. É pouco. É muito pouco.

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