Os três alvos permanentes na luta pela democracia na informação, comunicação e 
cultura da América Latina.
20 de novembro de 2009, da Vila Setembrina, por Bruno Lima Rocha 

Com este artigo intento oferecer uma visão de extensão continental, de 
abrangência latino-americana, daquilo que está sendo chamado de guerra de 4ª 
geração, ou a luta pela mídia. Entendo que se apontar aqui o marco mais 
genérico, será possível fazer a conexão com o que passa no Brasil, quando 
estamos há menos de um mês da 1ª Conferência Nacional de Comunicação Social de 
nossa história (14 a 17 de dezembro, Brasília). Para que tenhamos idéia deste 
ineditismo, o mesmo país que tem larga tradição conferencista, jamais realizou 
algo semelhante nesta área. Entendo que isto se dá por distintas razões, e cabe 
aqui encontrarmos àquelas que se confirmam conjuntamente com os países hermanos.
Na atualidade latino-americana e na etapa do capitalismo de tipo 
informacional-cognitivo, a luta contra os agentes econômico-políticos 
representados pelos meios massivos e líderes de oligopólios de comunicação 
social se faz a cada dia mais urgente. Esta luta ultrapassa os embates contra 
as famílias controladoras dos conglomerados (Grupos Econômicos) como Televisa, 
Grupo Clarín, Organizações Globo, Grupo Caracol, Globovisión, dentre outros 
afiliados ao Grupo de Diários América e defendidas pela Sociedade 
Interamericana de Imprensa (SIP). O embate de fundo é o não reconhecimento por 
parte de amplos setores populares de que o modelo de comunicação como negócio 
seja legítimo para intermediar (fazer mídia) junto ao povo e as maiorias. O 
mito do 4º poder (de origem liberal-democrático-burguês) definitivamente já não 
é consenso entre os latino-americanos. 

A partir do início da década de ’90 do século XX, a privatização de tipo 
selvagem liberou a demanda reprimida por serviços de telefonia, e que, com o 
advento primeiro da mobilidade (telefonia celular) e posteriormente com a 
internet discada, proporcionou aos cidadãos latino-americanos o uso das 
Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) em suas vidas cotidianas, por 
mais humildes que estas fossem. Concomitantemente, a cabo difusão levou a um 
número considerável de lares o acesso a canais estrangeiros e uma avalanche de 
bens simbólicos e produtos midiáticos aportou em residências, locais de 
trabalho e de lazer. 

Já na metade desta primeira década do século XXI, com a popularização da banda 
larga e o fenômeno da convergência – quando todos os conteúdos passam a poder 
ser comprimidos e convertidos em códigos binários (0 ou 1), pulveriza e 
dissemina o acesso da internet, até alimenta e proporciona a contestação via 
mídia digital mas, de fato, faz com que ambientes virtuais produzidos por 
transnacionais de nova tecnologia atravessem e façam a intermediação entre as 
pessoas. Assim, as sociedades latino-americanas estabelecem relações de empatia 
e carinho, de proximidade cotidiana, com grandes portais de telecomunicações e 
internet, justo os que fornecem ferramentas e ambientes de interatividade para 
usos e costumes, atividades do cotidiano e também a oportunidade de novas 
relações pessoais. Isto não implica em criar, a partir dos ambientes virtuais, 
da portabilidade e das novas interações via TICs, a criar necessariamente algo 
novo e
 transformador. A possibilidade está e abundam bons exemplos, mas a enorme 
maioria dos latino-americanos faz uso da internet (por exemplo) para interações 
de tipo corriqueiro e individual. 

O mesmo se dá na relação com as transnacionais de telefonia móvel, que na maior 
parte das vezes, também abocanhou a telefonia fixa antes estatizada na maioria 
de nossos países. Estas transnacionais de telecomunicações não são muitas, 
operando em quase todo o Continente as empresas como Telefônica de Espanha; sua 
sócia menor a Portugal Telecom (PT); a Itália Telecom (que tenta se retirar dos 
negócios por aqui); France Telecom; o Grupo mexicano Slim (cuja marca líder é a 
Claro) além de alguns capitais nacionais que puderam sobreviver à entrada 
destes operadores. Neste item se destaca, no caso brasileiro, a Oi (ex-Telemar) 
que expande seu negócio a partir da compra da Brasil Telecom (basicamente 
composta por Telecom Itália e o capital do City Group) e, como todo grande 
negócio (em termos de volume e recurso essa escala de grandeza) brasileiro, os 
recursos para a fusão-aquisição saíram dos cofres do Tesouro Nacional e foram
 repassados através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social 
(BNDES). Enfim, este quadro apenas ressalta a relevância de se dar o embate 
contra três alvos simultâneos. 

Um é primário, e facilmente identificado entre os afiliados na SIP. Ou seja, 
deslegitimar a pretensão da mídia corporativa, de motivação econômica e 
política conservadora, portadora de ideologia capitalista por sua própria 
natureza. O segundo alvo são as transnacionais de telecomunicações, que, 
através da convergência se tornam essenciais na vida cotidiana dos povos do 
Continente. A construção de infovias públicas, megavias de motivação científica 
e ambientes livres (tipo software livres, ambientes wikis, provedores 
ilimitados) é tarefa estratégica tanto para o movimento popular como até mesmo 
para arrancar estas conquistas, na base da pressão, dos governos que se 
reivindicam do campo Nacional e Popular. Por fim, o terceiro alvo se dá 
justamente nos Estados, que quando fazem mídia a realizam como mídia de governo 
ou mídia de poderes da república liberal-burguesa. Enfrentar as pretensões do 
Estado de aplacar a iniciativa
 popular e substituir o conceito de público pelo conceito de estatal é 
importante e deve ser dedicada atenção a este fator pelos ativistas de mídia 
popular, alternativa, comunitária ou livre. 

No conjunto destas três frentes de luta contra alvos simultâneos e na maioria 
das vezes, complementares e aliados (governos de turno + transnacionais de 
telecomunicação + oligarquias da comunicação social), está o desafio permanente 
de criar o antídoto para a verticalidade instrumental no ato de comunicar. Isto 
implica na consciência do esforço de criar e reforçar uma esfera pública 
midiática no campo popular, como parte fundamental de um espaço público de 
debates entre a multiplicidade de sujeitos sociais como uma frente de classes 
oprimidas. Esta esfera pública das mídias dos povos do Continente deve servir 
de suporte informacional, ideológico e cultural das formas de poder popular que 
vêm sendo realizadas no Continente. Um dos papéis desta nova mídia é ir se 
generalizando regionalmente em nossos países, dotando-se de democracia de base 
e direta (e não estruturada na forma de empresa ou exército), sendo por si só 
exemplo,
 reflexo e intenção política de se radicalizar a democracia política como 
fundamento do igualitarismo social. 

Diante da enormidade desta tarefa, entendo que toda e qualquer publicação 
alternativa (impressa ou eletrônica), todo e qualquer programa audiovisual 
(seja de rádio ou TV, por radiofreqüência ou via digital), recobram de 
importância. No horizonte está a perspectiva de transformar as sociedades 
estruturalmente injustas da América Latina, reinventando a democracia através 
da mídia entre iguais. Esta luta apenas começa. 
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