*19/12/2009*
*''A ecologia é o ópio do povo''. Entrevista com Slavoj Zizek*

Transgressor e politicamente incorreto – assim é o filósofo esloveno Slavoj
Žižek<http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=25132>,
uma das vozes mais vivas e controvertidas do pensamento atual. E

Slavoj Žižek nasceu em Lubliana, na antiga Iugoslávia (hoje capital da
Eslovênia), em 1949. Em 1990, candidatou-se à presidência da República de
seu país. Esta entrevista foi realizada pelo professor *Ricardo Sanín*, do
Departamento de Filosofia e História do Direito da Universidade Javeriana,
da Colômbia, sendo cedida a MAGIS por intermédio do professor dos PPGs em
Filosofia e Direito da Unisinos, *Alfredo Culleton*. *Sanin* e
*Culleton*(também responsável pela tradução e introdução da
entrevista) trabalham em
cooperação em projeto de desenvolvimento de uma Teoria Crítica dos Direitos
Humanos, junto com o professor Costas Douzinas, da Universidade de Londres.

A entrevista foi publicada por *Magis, Revista da Unisinos*, no. 05, dez
2009-jan 2010.

*Eis a entrevista.*

*O senhor tem insistido que tanto o multiculturalismo quanto os movimentos
ecológicos não abordam os problemas políticos verdadeiramente agudos e
relevantes para o mundo. Por quê?  *

O multiculturalismo passa por cima dos problemas políticos verdadeiramente
relevantes e agudos quando os reduz a meros problemas culturais. Quando
lidamos com um problema real, tanto sua designação ideológica como sua
percepção como tal introduz uma mistificação invisível. Digamos que a
tolerância designa um problema real. É claro, sempre me perguntam: “Como
você pode concordar com a intolerância com os estrangeiros, estar de acordo
com o antifeminismo ou ao lado da homofobia?”. Aí reside a armadilha.
Evidentemente, não estou de acordo. Ao que me oponho é à nossa percepção
automática do racismo como mero problema de tolerância. Por que tantos
problemas atualmente são percebidos como problemas de intolerância, em vez
de serem entendidos como problemas de iniquidade, exploração e injustiça?
Por que o remédio tem de ser a tolerância em vez de a emancipação, a luta
política, ou ainda a luta política armada? A resposta imediata está na
operação básica do multiculturalismo liberal: “a culturização da política”.
As diferenças políticas, diferenças condicionadas pela iniquidade política
ou a exploração econômica, se naturalizam como simples diferenças
“culturais”. A causa desta culturização é o retrocesso, o fracasso das
soluções políticas diretas, tais como o estado social. A tolerância é seu
ersatz ou sucedâneo pós-político. A ideologia é, neste preciso sentido, uma
noção que, enquanto designa um problema real, dilui uma fronteira de
separação crucial.

*E quanto à ecologia?*

É precisamente no terreno da ecologia que podemos delinear a demarcação
entre a política da emancipação e a política do medo na sua forma mais pura.
De longe, a versão predominante da ecologia é a da ecologia do medo – medo
da catástrofe, humana ou natural, que pode perturbar profundamente ou mesmo
destruir a civilização humana. Essa ecologia do medo tem todas as
oportunidades de se converter na forma ideológica predominante do
capitalismo global, um novo ópio das massas que sucede o da religião. Assume
a função fundamental da religião, aquela de impor uma autoridade
inquestionável que estabelece todo limite. Apesar de os ecologistas exigirem
permanentemente que mudemos radicalmente nossa forma de vida, é precisamente
isso que subjaz a essa exigência no seu oposto, isto é, uma profunda
desconfiança em relação à mudança, em relação ao desenvolvimento, em relação
ao progresso: cada transformação radical pode conter a consequência
inestimada de detonar uma catástrofe. É exatamente essa desconfiança que
converte a ecologia em um candidato ideal para tomar o lugar de uma
ideologia hegemônica, pois faz eco da desconfiança em relação aos grandes
atos coletivos.

*Afinal, de qual natureza estamos falando?*

A “natureza” como condição de domínio, de reprodução balanceada, de
implantação orgânica dentro da qual intervém a humanidade com a sua
desmedida, destruindo brutalmente sua moção circular, não é outra coisa que
a fantasia do ser humano; a natureza já é de fato uma “segunda natureza”,
seu equilíbrio é sempre secundário, trata-se de uma tentativa de negociar um
“hábito” que restauraria alguma ordem depois das intervenções catastróficas.
A lição que devemos colher é a de que, se não podemos estar seguros de qual
será o resultado final das intervenções humanas na biosfera, uma coisa é
certa: se a humanidade detivesse abruptamente sua imensa atividade
industrial e deixasse que a natureza tomasse seu curso equilibrado, o
resultado seria uma ruptura total, uma catástrofe inimaginável.  A
“natureza” na Terra está tão adaptada às intervenções humanas, a
“contaminação” humana está a tal ponto incluída no frágil e instável
equilíbrio da reprodução “natural”, que a interrupção intempestiva da ação
humana causaria um desequilíbrio catastrófico. É isso precisamente que
demonstra que a humanidade não tem como retroceder: não só não há um “grande
Outro” (uma ordem simbólica autocontida que seja a última garantia do
significado), assim como também não existe uma natureza que contenha uma
ordem equilibrada ou de autoprodução e cujo equilíbrio tenha sido perturbado
e descarrilado pela intervenção humana desbalanceada. Não só o grande Outro
tem sido “gradeado”, a natureza também.

*Existe o mito fundamental segundo o qual o liberalismo é o lar da
democracia. É a democracia uma produção do liberalismo?*

Não, todas as características que hoje identificamos com a democracia
liberal e com a liberdade (sindicatos, sufrágio universal, educação
universal e gratuita, liberdade de imprensa etc.) foram obtidas pelas
classes mais baixas em uma longa e difícil luta no transcurso do século XIX.
Tais lutas estavam longe de ser uma consequencia “natural” das relações
capitalistas. Lembra a lista de demandas que conclui o *Manifesto Comunista*:
a maioria delas – à exceção da abolição da propriedade privada dos meios de
produção, precisamente como resultado das lutas populares – hoje é
amplamente aceita nas democracias “burguesas”. Outro aspecto que se ignora
constantemente: hoje, a igualdade entre brancos e negros se celebra como
parte do “sonho americano”, se percebe como um axioma ético-político. Sem
dúvida, nos anos 1920 e 1930 do século passado, os comunistas dos Estados
Unidos foram a única força política que argumentou a favor da igualdade
absoluta entre as etnias. Aqueles que defendem a existência de um vínculo
natural entre o liberalismo e a democracia estão equivocados.

*Pode a política ser sublime em uma era pós-ideológica?*

A tendência geral é para o ridículo. A figura do primeiro-ministro italiano,
*Silvio Berlusconi*, é aqui fundamental, visto que hoje a Itália é
efetivamente um tipo de laboratório experimental do nosso futuro. Se o
cenário político é dividido entre um tecnocratismo permissivo-liberal e um
fundamentalismo populista, Berlusconi tem o grande mérito de ser ambos ao
mesmo tempo. É sem dúvida esta combinação que faz dele imbatível, pelo menos
em um futuro próximo: a histórica “esquerda” italiana agora resignadamente o
aceita como destino. Essa aceitação silenciosa de Berlusconi como destino é
talvez o aspecto mais triste de seu reinado. Seus atos são cada vez mais
inescrupulosos: ele não só ignora ou politicamente neutraliza juridicamente
as investigações sobre suas atividades criminosas para impulsionar seus
interesses comerciais privados, como também busca minar sistematicamente a
base da dignidade do chefe de Estado. A dignidade clássica da política é
baseada na sua elevação acima do jogo de interesses específicos na sociedade
civil: a política é "alienada" da sociedade civil, apresenta-se como a
esfera ideal do cidadão, em contraste com o conflito de interesses que
caracteriza a burguesia como egotista. Berlusconi efetivamente acaba com
essa alienação: hoje na Itália, a base burguesa impiedosa e abertamente
explora o poder estatal como um meio para a defesa dos seus interesses
econômicos. E lava a roupa suja de seus conflitos maritais privados à
maneira de um reality show vulgar, diante de milhões de espectadores
sentados nos seus sofás. A aposta de Berlusconi nas suas indecentes
vulgaridades está, naturalmente, em que as pessoas vão se identificar com
ele, na medida em que ele aprova a mítica imagem ampliada da mídia italiana:
“Eu sou um de vocês, um pouco corrupto, com problemas com a lei, tenho
problemas com a minha mulher, porque outras mulheres me atraem...” Mesmo sua
grandiosa promulgação como um grande e nobre político, il cavalliere, é mais
como uma ópera ridícula do pobre homem com sonho de grandeza. E, no entanto,
essa aparência de "um homem normal como todos nós” não deve nos iludir: por
baixo da máscara desajeitada há um poder estatal que funciona com eficiência
impiedosa.


     Confira os principais fatos noticiados no dia.
<http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18>
    Revista
do Instituto Humanitas Unisinos aborda nesta semana:  *Processos de
comunicação e cultura solidária*     Leia na
íntegra<http://www.ihuonline.unisinos.br//index.php?id_edicao=347>
*Ciclo de Estudos Filosofias da diferença Pré-evento do XI Simpósio
Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida
humana<http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_eventos&Itemid=19&task=detalhe&id=182>
*

 Data: 27/4/2010 a 17/6/2010
Local: Anfiteatro Pe. Werner - Unisinos
     A equipe do IHU conta o que acontece no dia-a-dia do Instituto.
Acompanhe o que acontece nos bastidores.
 Clique e confira <http://www.unisinos.br/blog/ihu/>
<http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_emails&Itemid=36>
<http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_contato&Itemid=42>
<http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_extras&Itemid=30>

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