--- Em qui, 6/5/10, Antonio Capistrano <[email protected]> escreveu:


De: Antonio Capistrano <[email protected]>
Assunto: O PSDB, o FMI e a turma dos 30% - Por Artur Araújo - Carta Maior
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Data: Quinta-feira, 6 de Maio de 2010, 9:21



O PSDB, o FMI e a turma dos 30% - Por Artur Araújo
O espectro de uma pergunta deveria estar rondando as redações e, se formulada, 
desnudaria o que realmente separa as duas principais candidaturas à 
presidência. Bastaria perguntar a José Serra: “o senhor propõe parar o Brasil?”
Explico-me, a partir de três exemplos muito recentes: um artigo de Luis Carlos 
Mendonça de Barros, as manchetes sobre a orientação do FMI para que o Brasil 
reduza sua taxa de crescimento e os 50 anos de Brasília.
Em artigo publicado na FSP de 16/04, Mendonça de Barros, o ex-ministro de FHC 
de volta a sua vida de financista, desnuda o que é o coração da "economia 
política" do PSDB. Tido e havido como desenvolvimentista, anti-Malan, da escola 
de Sérgio Guerra e José Serra, Mendonça tem uma tese: "a euforia pelo 
crescimento nos levará a bater no muro das restrições econômicas; esse filme 
tem final triste". E para quem esperava as clássicas formulações – sobre os 
gargalos de infraestrutura, a baixa taxa de expansão da capacidade instalada, a 
"gastança” em custeio que impede o investimento público – ele abre seu coração 
e surpreende:
“A maior parte da oferta na economia brasileira é constituída por bens e 
serviços que não podem ser importados. O mais importante deles é o mercado de 
trabalho e nele é que está a componente mais ameaçadora que vejo para a 
frente... Poderemos chegar ao fim deste ano com uma taxa de desemprego da ordem 
de 6%, mantido o crescimento atual da geração de postos de trabalho. Em março, 
o número de empregos formais aumentou em 266 mil, número muito forte para o mês.
“A pressão sobre os salários desse segmento dos trabalhadores já está ocorrendo 
e deve se acelerar... São evidências de instabilidade grave. Dou um exemplo: a 
produção de caminhões da Mercedes-Benz brasileira em março foi o dobro da 
matriz na Alemanha. Mesmo com a crise na Alemanha esse número é um aleijão para 
mim”.
Trocando em miúdos: crescer rápido é um "problema", porque pode gerar aumentos 
salariais para os trabalhadores e reduzir a taxa corrente de lucros. A ótica do 
imediatismo salta aos olhos; nem mesmo de relance, o articulista se refere a um 
ciclo virtuoso, em que o crescimento real da massa salarial implica ampliação 
da demanda efetiva, cria as condições para expansão da capacidade produtiva (e 
da formação de mão-de-obra) e para a expansão da própria acumulação de capital, 
pelo crescimento do volume produzido e realizado.
O seu negócio é o aqui e agora, é o lucro já e o futuro, provavelmente, nem a 
Deus pertence. O espantalho que agita é o da inflação de demanda, que se recusa 
a atacar pela via do choque de oferta, do mercado interno de massas e da 
expansão das exportações de maior valor agregado. Sua panacéia é o aumento dos 
juros.
Já na cobertura dos jornais paulistas sobre os 50 anos de Brasília, um velho 
espectro ressurgiu, explicitamente referido, por exemplo, em editorial de “O 
Estado de São Paulo”: Brasília, entre outras mil de suas supostas mazelas, 
estaria na origem da espiral inflacionária do início dos anos 1960. Sem, até 
hoje, compreender o que de fato Brasília realizou, como meta-síntese do 
programa de desenvolvimento nacional de Juscelino, as vozes do passado 
ressurgem, opondo-se às obras públicas, à ação do Estado na criação de 
infraestrutura, na indução econômica e na integração democrática de todos os 
brasileiros e de todo o território nacional.
A rádio CBN tem apresentado uma ótima série de reportagens sobre a história da 
criação de Brasília. Em um dos programas, o tema era o debate na imprensa 
daquela época. A matéria narrava a campanha cerrada que o engenheiro da UDN 
Gustavo Corção, guru de Carlos Lacerda, movia contra a construção da cidade. Um 
de seus temas preferidos era o Lago Paranoá que, do alto de sua sapiência, o 
Dr. Corção garantia que nunca ficaria cheio, dados o regime de chuvas e as 
características do solo do cerrado.
No dia em que o lago ficou completo, JK, pleno de mineirice e bom humor, 
telegrafou para a redação do jornal em que Corção escrevia. Usou uma só 
palavra: “Encheu”.
O que Juscelino enfrentava era uma herança maldita, um Brasil litorâneo que só 
via a si mesmo, que desprezava mais de dois terços de seu território. A Marcha 
para o Oeste significou, muito além de Brasília, a experiência pioneira de 
Ceres, cidade-modelo agrícola implantada em Goiás, em que se desenvolveram as 
técnicas de correção de solo que permitiriam a expansão agrícola e que hoje 
fazem do Brasil um ator mundial em alimentos e biomassa para geração de 
energia. Significou, também, a abertura da rodovia Belém-Brasília (aquela que a 
UDN chamava de estrada para onça), articulando os eixos Norte e Oeste do 
desenvolvimento nacional.
E significou, mais do que tudo, para todos os brasileiros, trabalhadores ou 
empresários, uma mudança de postura e ângulo; Brasília permitiu que olhássemos 
mais e melhor para os nossos próprios potenciais e capacidades.
O FMI, que não é daqui, ecoa a mesma lógica. Seu mais recente relatório, diz a 
FSP em manchete, “vê economia brasileira ‘no limite’”. Forçado pelos fatos a 
revisar – para cima – sua estimativa de crescimento da economia do Brasil, 
“aponta demanda ‘em estágio avançado’ e espera medidas para desacelerar 
crescimento de 5,5% neste ano para 4,1% em 2011”. Tanta coincidência, até de 
terminologia, é sintoma de um alinhamento automático, de um modo de pensar e 
conduzir o país.
O PSDB de hoje, por vezes até mais que os “demos”, olha a economia e o Brasil 
com esse viés. O que os orienta é o mundo internacional das finanças e a 
propensão a pensar em pedaços, em satisfazer-se com políticas que miram só um 
terço dos brasileiros – os mais ricos – e só uma parte de nosso território – o 
sul-sudeste. É a turma dos 30%.
Expansão de consumo, crescimento de salários, ampliação da produção, 
desenvolvimento da infraestrutura, inclusão e capacitação das pessoas, todos 
esses são temas ausentes de suas formulações – ou vistos como “aleijões”. 
Aumento continuado e real do salário mínimo, instituição de pisos salariais 
nacionais, redução de jornada de trabalho, pleno emprego, PAC, PROUNI, são 
pautas que os levam à beira do pânico. Tudo que seja para todos é risco, não 
oportunidade.
Ainda que se dê a José Serra o benefício da dúvida, do quanto ele ainda 
preserva de seu suposto desenvolvimentismo, não é despropositado indagar o 
quanto ele “resistiria” à pressão combinada do tucanato econômico, do udenismo 
paralisante e elitista e da banca mundial, falando pela boca do FMI. A 
experiência FHC não traz muitas esperanças quanto a isso. Um jornalista arguto 
qualificaria a pergunta que abre este texto e questionaria o que o candidato 
faria com a turma dos 30%, aqueles que, há décadas, sempre estiveram do seu 
lado e sempre quiseram que o Brasil pudesse menos.
(*) Artur Araújo é consultor especializado em gestão pública e empresarial
Publicado em Carta Maior e em Pátria Latina – 6/5/2010
Com um abraço de Antonio Capistrano



 
 


      

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