MEMÓRIA NAS CINZAS
Fogo destrói história de pacientes do Juquery 
Incêndio do último sábado demorou 18 horas para ser apagado
136 mil prontuários e 15 mil livros foram perdidos 
FABIANE LEITE, da Folha de S. Paulo

Todos os 136 mil prontuários de pacientes, 15 mil livros e documentos, uma 
carta de Freud, o prédio centenário neo-romântico projetado pelo arquiteto 
Ramos de Azevedo e em processo de tombamento -- tudo atingido pelo fogo no 
sábado.
Após o incêndio no setor administrativo do Complexo Hospitalar do Juquery, na 
Grande São Paulo, só sobrou o busto de bronze de Franco da Rocha, fundador em 
1898 do hospital que já foi um dos maiores manicômios da América Latina. Chegou 
a abrigar, em seu auge, 18 mil pessoas.
A origem do fogo iniciado às 3h de sábado [dia 16 de dezembro de 2005] ainda é 
investigada pela Polícia Civil de São Paulo. Ninguém ficou ferido. Segundo a 
Secretaria de Estado da Saúde, a suspeita é que um raio tenha atingido o 
prédio, pois chovia muito na madrugada. O órgão nega que existissem problemas 
de manutenção no edifício. O fogo consumiu a estrutura de madeira e os arquivos 
em papel, mas, segundo a secretaria, há cópias dos prontuários dos 650 
pacientes que permanecem no local.
A carta de Freud parabenizando o ex-diretor Osório César era o documento mais 
valioso que foi perdido, em termos históricos. No texto, Freud elogiava o novo 
projeto, descrito por César como uma área de campo, em que a agricultura seria 
utilizada para o tratamento. Com a reforma psiquiátrica implementada a partir 
dos anos 70, o Juquery passou a ser símbolo de tudo o que não se quer no 
tratamento de transtornos mentais: áreas grandes, impessoais, afastamento da 
família.
Neste ano, a secretaria intensificou o processo de desmonte do manicômio, 
incentivado em todo o país por decisão do Ministério da Saúde de remunerar 
melhor hospitais psiquiátricos pequenos. Cerca de 400 pacientes deixaram a 
instituição.
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