Fonte: Folha de SP (Caderno Mais), 08/01 

Especialista na história do livro, Roger Chartier comenta a polêmica criação de 
uma biblioteca eletrônica pelo Google e o privilégio a obras em inglês 

O universal particular 
SYLVIA COLOMBO
EDITORA DO FOLHATEEN 

A biblioteca universal imaginada pelo argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) 
em "A Biblioteca de Babel" ("Ficções", 1944) havia começado a encontrar 
contornos concretos quando o site Google anunciou, em 2004, seu projeto de 
digitalizar e disponibilizar online 15 milhões de volumes de quatro grandes 
bibliotecas americanas até o ano de 2015.
A idéia era publicar na íntegra o conteúdo de obras publicadas há mais de 75 
anos -e por isso isentas da necessidade de pagamento dos direitos de autor. No 
caso de livros mais recentes, a intenção era restringir o acesso a fragmentos 
ou a poucas páginas.


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Com a digitalização, corremos o risco de ver destruídos os livros originais 
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O que poderia significar um grande passo para a democratização do conhecimento, 
entretanto, acabou emperrando por conta de reclamações de editores e autores, 
que conseguiram fazer com que o site suspendesse, pelo menos temporariamente, a 
idéia.
Apesar de oficialmente parado, o projeto anda movimentando discussões 
acaloradas sobre o futuro dos direitos autorais, o controle de publicações na 
internet, a pirataria e a proteção dos acervos das bibliotecas nacionais.
Leia abaixo entrevista que o historiador francês Roger Chartier, especialista 
em história do livro e autor de "Leituras e Leitores na França do Antigo 
Regime" (ed. da Unesp), concedeu à Folha sobre o assunto.
  

Folha - Acha que o projeto Google Print pode tornar real a idéia de biblioteca 
universal de Borges?
Roger Chartier - Sim. No passado, tínhamos o problema de não possuir uma 
tecnologia para concretizá-la. Entretanto, agora que a temos, novos obstáculos 
surgiram e precisam ser discutidos.


Folha - De onde vem esse sonho e como o descreveria?
Chartier - O sonho da biblioteca que poderia abarcar todos os livros escritos 
ou impressos pelo homem é muito antigo. Trata-se de uma idéia que atravessa 
toda a civilização ocidental, desde a biblioteca de Alexandria. Creio que 
corresponde a uma ansiedade dos homens com relação à perda, o medo do 
esquecimento coletivo.
Esse temor levou os homens a tentarem reunir, desde muito tempo atrás, os 
manuscritos, os escritos antigos e todos os projetos que acreditavam serem 
universais.
Mas, evidentemente, nunca uma biblioteca real que armazenasse pergaminhos ou 
papéis poderia corresponder à definição ideal de uma biblioteca universal.
Hoje, a internet traz, em uma nova forma, a possibilidade de guardar os 
conteúdos desses livros, ainda que não possa armazenar também o objeto-livro.


Folha - O que acha do projeto do Google?
Chartier - A proposta inicial do Google voltava-se apenas para a digitalização 
de bibliotecas de língua inglesa, mas abriu espaço para um questionamento 
crítico, principalmente por parte das bibliotecas européias.
A Biblioteca Nacional da França, por exemplo, considerou dois problemas que 
também acredito que devam ser tomados em conta. Em primeiro lugar o de que 
essas coleções contêm, majoritariamente, obras de língua inglesa, quando é 
preciso zelar pelo equilíbrio. Em segundo, o fato de que o Google é uma empresa 
comercial e privada e que, portanto, poderia escolher a maneira como 
hierarquizar as informações sobre as coleções. As perguntas que surgiram e que 
considero pertinentes são: seriam respeitadas as idéias de catálogo 
bibliotecário? Ou passaria a existir uma nova ordem hierárquica regida apenas 
pela lógica do que é mais consultado?


Folha - Mas o sr., particularmente, é a favor ou contra?
Chartier - Tendo a ter uma dupla reação. É claro que não posso deixar de 
observar que acervos digitalizados de bibliotecas constituem um instrumento 
extraordinário para os pesquisadores, pois fornece acesso a livros antigos ou 
fora de catálogo que de outra forma seriam difíceis de consultar. Desse ponto 
de vista é um extraordinário avanço na democratização do conhecimento e do 
acesso ao patrimônio escrito. Assim, minha primeira reação é a de ajudar esse 
projeto.
Seria muito interessante, por exemplo, se a América Latina começasse, a partir 
de seus governos nacionais, a pensar em construir projetos de digitalização de 
textos importantes para reconstruir o passado do continente.
Mas minha segunda reação é a de apontar para os perigos que vejo como 
historiador do livro.


Folha - E quais são?
Chartier - Temo, entre outras coisas, que os livros eletrônicos possam 
transformar bibliotecas inteiras em algo obsoleto. É preciso questionar a idéia 
de que um livro é sempre o mesmo livro qualquer que seja a sua forma. Isso não 
é verdade.
Todo o trabalho que fazemos como historiadores do livro é mostrar que o sentido 
de um texto depende também da forma material como ele se apresentou aos seus 
leitores originais e ao seu autor. Por meio dela podemos compreender como e por 
que foi editado, a maneira como foi manuseado, lido e interpretado por aqueles 
de seu tempo. Não há equivalência entre os suportes materiais. Com a 
digitalização, corremos o risco de ver destruídos os livros originais porque o 
texto seria preservado de uma outra forma.


Folha - Os livros antigos correm o risco, assim, de virarem objeto de museu ou 
serem destruídos?
Chartier - Não podemos deixar que isso aconteça. Os livros são instrumentos 
essenciais para historiadores de determinados períodos. Existem perguntas que 
não podem ser feitas apenas a um texto, têm de ser feitas em conjunto com seu 
suporte.
Isso interessa a todos os que querem encontrar o texto da forma original, além 
das diversas formas que foram adquirindo em edições ao longo do tempo.
Quando houve a microfilmagem de coleções do século 19 e de jornais, em grandes 
bibliotecas norte-americanas e até na Biblioteca Britânica, foram destruídas 
grandes coleções. Uma perda enorme.


Folha - Se um historiador aqui do Brasil está estudando um determinado período 
da Idade Média na França e não tem como viajar para consultar manuscritos 
originais, a internet pode viabilizar que ele conclua sua pesquisa. Acha que 
isso enfraquece o trabalho histórico?
Chartier - Isso depende do tipo de pesquisa que se faz. Cada um deve avaliar o 
quão importante é consultar um original ou outro. Mas, evidentemente, se a 
pesquisa quer ir mais a fundo no que um determinado documento diz, na maneira 
como ele foi lido e interpretado no passado, evidentemente tenho de recomendar 
que, num certo momento, esse pesquisador necessite, sim, realizar a viagem.
Por outro lado, para muitos usos de consulta, para averiguar uma informação ou 
checar um fato, a digitalização dos textos será um instrumento fantástico, pois 
economizará tempo e empenho do pesquisador.
Meu discurso não é de crítica, mas acredito que é preciso sublinhar os perigos 
que essa possibilidade apresenta. Entre eles, o de que bibliotecas possam ser 
marginalizadas por poderes públicos.
Por outro lado, deve-se apoiar esse projeto de biblioteca universal eletrônica 
-e universal porque é eletrônica.


Folha - Como e quem deve discutir e decidir sobre essa questão?
Chartier - Essa é uma discussão que está apenas começando. Não vejo, a 
princípio, porque é uma empresa comercial, como o Google, quem deva promovê-la. 
O assunto é sério e deve levantar uma discussão pública. Acho que um primeiro 
suporte deve ser construído a partir das bibliotecas nacionais, mas também os 
Estados, por meio das comunidades internacionais, devem entrar em acordo. O 
ideal é que tanto intelectuais como autores, editores, bibliotecários e 
amostras de grupos de leitores participem.


Folha - Qual a prioridade nesse momento?
Chartier - Creio que -depois das observações feitas pelas bibliotecas, as de 
que se garanta variedade lingüística ao conteúdo e de que as formas de acesso 
sejam parecidas com as de uma biblioteca convencional- há uma segunda 
discussão, que diz respeito a livros ainda protegidos pelo copyright.
Quando o Google apresentou o projeto a editores, em geral estes foram 
favoráveis, pois pensavam que as leis continuariam respeitadas. Seriam 
colocados na internet apenas fragmentos dos textos. Isso funcionaria para a 
publicidade desses títulos. Ao ler um fragmento, o leitor poderia se interessar 
em comprar a obra em si.
Entretanto logo depois surgiu o temor diante da possibilidade de que não fosse 
possível controlar o processo de digitalização. A reticiência dos grandes 
editores e dos sindicatos de editores acabou virando rechaço a partir do 
momento em que perceberam que poderiam estar abrindo uma porta para deixar cada 
vez mais expostos textos ainda protegidos pelas leis de copyright.


Folha - Acha que essa mesma discussão vale para a digitalização dos jornais 
diários?
Chartier - Sim, é possível fazer uma comparação. O jornal impresso obedece a 
uma lógica topográfica: vai-se de uma página a outra, de um artigo a outro, e 
cada leitor tem seus caminhos dentro da página, além de poder ver a unidade de 
tudo o que constitui um número de jornal.
O mesmo número de jornal em versão eletrônica tem outra lógica de leitura. É 
uma lógica que não é mais topográfica, mas sim classificatória, enciclopédica. 
O leitor busca uma assinatura, um tópico, temas, palavras-chave. É possível ler 
um artigo do jornal sem saber absolutamente nada dos outros artigos publicados 
no mesmo dia e sem estabelecer um sentido entre o que se leu e a organização de 
todos os conteúdos do jornal, artigos, colunas, espaços noticiosos, anúncios 
etc.
O exemplo dos jornais nos ajuda a concluir que, por mais que se construam 
bibliotecas eletrônicas, mais ainda as bibliotecas clássicas têm uma função 
importante, além de serem arquivos. A biblioteca é um lugar, uma instituição, 
que cuida de um patrimônio e em que se pode ler, trabalhar e exercer todas as 
formas da pesquisa.



Flávio Nunes
Bibliotecário CRB10/1298
Biblioteca Unisinos - Obras Raras
3590-8855 Ramal: 4550


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