Quarta-feira, Abril 19, 2006 Além de toda a nudez da corte... Por Hélio Kuramoto ([EMAIL PROTECTED])
Em matéria publicada no portal da Capes, no dia 18 de abril de 2006, sob o título “Teses e Dissertações brasileiras poderão ser consultadas pela Internet”, essa importante organização, responsável pelos programas de pós-graduação no país, parece ter descoberto a pólvora (tardiamente!), anunciando aos quatro ventos que as teses e dissertações brasileiras poderão ser consultadas pela Internet. Ora, isto não é novidade, para muita gente, no Brasil e no exterior.
As teses e dissertações (td) brasileiras já podem ser consultadas, hoje, se quiserem agora mesmo no site http://bdtd.ibict.br/, ou via o Portal do Ibict. Aliás, essas td podem ser consultadas não apenas no Portal do Ibict, mas também no site das próprias universidades (25 IES, 18.443 teses/dissertações) que implantaram as suas Bibliotecas Digitais de Teses e Dissertações (BDTD Local), assim como nos sites da Networked Digital Library of Thesis and Dissertations (NDLTD, http://www.ndltd.org/).
A proposta do Portal Domínio Público é proporcionalmente ambiciosa politicamente e frágil tecnicamente. Do ponto de vista político, a matéria veiculada pelo Portal da Capes indicava: “...por meio desse portal os brasileiros poderão ter acesso às teses e dissertações de grandes universidades brasileiras e do mundo”. É possível garantir que os programas de pós-graduação de universidades estrangeiras encaminharão as teses e dissertações lá defendidas para o Portal Domínio Público? via e-mail?
Ao mesmo tempo verifica-se que a solução apontada pelo MEC/Capes é bastante frágil tecnicamente. Em uma rápida visita ao referido Portal, observa-se que o conjunto de metadados utilizado para a descrição dos documentos lá armazenados é bastante restrito e não oferece as funcionalidades necessárias para uma boa e eficiente biblioteca digital.
Uma biblioteca digital para ser considerada como tal, deve observar alguns requisitos básicos como: uso de padrões e protocolos que permitam a interoperabilidade com outros sistemas; normas de entrada de dados; um conjunto mínimo de metadados que seja compatível com padrões internacionais como o Dublin Core Metadata Set, ou no caso das td, com o Electronic Thesis and Dissertations Metadata Set (ETD-MS) ou com o MTD-BR, padrão brasileiro de metadados para descrição de teses e dissertações.
Seria desnecessário salientar, mas face à fragilidade da solução proposta, é importante mencionar que o padrão MTD-BR foi exaustivamente discutido, no âmbito do Comitê Técnico-Consultivo da BDTD, e no qual tiveram assento dois importantes representantes do MEC, a Sesu e a Capes. Por que não utilizar um padrão que foi desenvolvido com a colaboração de técnicos do próprio MEC?
Portanto, um Portal, ou sistema de informação que desconsidera os padrões citados torna-se uma iniciativa isolada que não interage com nenhum outro sistema. Essa forma de proceder limita o alcance dessa iniciativa.
Novamente, seria desnecessário dizer, mas em qualquer iniciativa desse porte, um especialista no assunto buscaria utilizar todos os padrões possíveis com o objetivo de tornar o seu sistema interativo com os demais sistemas.
Apenas para ilustrar, podemos citar um pequeno exemplo que evitaria, com toda a certeza, reconstruir, a partir do zero, a biblioteca que se quer construir no âmbito do MEC/Capes - a adoção dos padrões estabelecidos pelos arquivos abertos. A adoção de tais padrões, assim como do MTD-BR, possibilitaria ao MEC/Capes coletar todos os metadados existentes na BDTD do Ibict, uma vez que esta instituição já o fez com 25 instituições de ensino superior (IES). O Portal Domínio Público teria, sem muitos esforços, um v0 de 18.443 ou mais teses e dissertações, as quais já estão depositadas nessas 25 IES. Em outras palavras, essa medida simplesmente evitaria a reinvenção da roda das teses e dissertações e, certamente, reduziria custos, otimizaria os resultados e permitiria uma melhor utilização dos recursos públicos.
A decisão tomada pelo MEC/Capes indica uma forma simplificada de encaminhamento das td por parte dos programas de pós-graduação, a qual suscita os seguintes comentários :
-Os e-mails não foram concebidos para servir de meio de entrega ou intercâmbio de documentos como uma tese ou dissertação. Esse tipo de documento possui um tamanho relativamente grande. Exsitem mecanismos apropriados para intercâmbio de dados;
-Segurança e confiabilidade são requisitos em qualquer processo de intercâmbio de dados;
-Apesar da simplicidade da solução de encaminhamento das teses e dissertações, esta não elimina a necessidade de digitação / catalogação desses documentos por técnicos de informação; -Esse processo envolverá o dispêndio de recursos devido ao modelo proposto, que é centralizado. Trata-se, portanto, de um paradoxo face ao cenário tecnológico atual. Em lugar de racionalização e otimização do processo, a proposta vem em direção oposta; - Um outro aspecto a ser lembrado, diz respeito ao re-trabalho ou a duplicação de esforços. É sabido que as bibliotecas das grandes universidades como USP, Unicamp, Unesp, UFRJ, UFRGS, UFMG, entre outras, mantém os seus acervos automatizados. Portanto, a mesma tese ou dissertação será catalogada duas vezes. - Essa iniciativa do MEC/Capes trará prejuízos às iniciativas em curso, uma vez que as IES e suas bibliotecas terão que decidir entre continuar participando do consórcio BDTD ou atender à portaria do MEC/Capes, o qual tem efetivamente o mandato. A falta de mecanismos que proporcionem uma interoperabilidade entre o Portal Domínio Público e a BDTD prejudicará o conjunto da sociedade. Esse prejuízo se dará pela fragilidade da solução adotada pelo MEC/Capes. Aliás, é bom ressaltar que as IES já estão preocupadas com esse tipo de decisão unilateral. Inúmeras IES já entraram em contato para buscar uma solução.
Verificam-se, assim, os prejuízos que uma decisão mal tomada pode causar à administração pública e ao país. Novamente, a inexistência de interação humana e de interoperabilidade poderá levar ao fracasso os esforços de anos de trabalho, além, é claro, de jogar por terra todo o investimento realizado pelas instituições. Parece existir um muro intransponível dividindo os ministérios na Esplanada, uma vez que os dirigentes de um ministério não conseguem enxergar as iniciativas realizadas por seus colegas vizinhos.
É triste concluir que mesmo com os meios de comunicação existentes e toda a revolução que as tecnologias da informação e da comunicação provocaram, ainda nos deparemos com tomadas de decisões tão catastróficas quanto essa adotada pelo MEC/Capes. Trata-se de uma falha gerencial que conduz a má utilização de recursos públicos e prejuízos à sociedade. Esperamos que o MEC/Capes reveja essa decisão e interaja com as demais instituições para encontrar uma alternativa que esteja à altura do investimento e das expectativas da sociedade brasileira.
FONTE: Blog do Kuramoto: (http://blogdokura.blogspot.com/)
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