Por *Verlyn Klinkenborg*
em O Estado de S. Paulo <http://www.estado.com.br>
23 abril 2006
Freqüentemente, recebo no computador uma lista dos novos livros
acrescentados ao catálogo de obras online da Biblioteca da Universidade da
Pensilvânia. Para mim essa é a versão de longa distância do tipo de pesca
que fiz a maior parte da minha vida, vagando através das bibliotecas,
fazendo descobertas acidentais nas prateleiras ao longo do caminho.
Porém, há um paradoxo aqui. Essa é uma biblioteca de alta tecnologia repleta
de livros antigos. É verdade que, por causa das restrições impostas pelos
direitos autorais, é raro encontrar uma publicação cuja data seja anterior a
meados da década de 1920. Não conheço nenhum lugar no qual você possa sentir
tão claramente a diferença entre as águas protegidas pelo direito autoral e
o mar aberto do domínio público.
Na maioria das vezes, apenas dou uma passada de olhos nos títulos. Mas um
dia desses me deparei com The Free Press ('A Imprensa Livre'), de Hilaire
Belloc, publicado em 1918. Belloc, que morreu em 1953, está bem representado
online. O Projeto Gutenberg já publicou dez de seus livros, o que parece
muito até você considerar quantos livros ele publicou em sua vida - quase
150.
Belloc era versátil, firme em suas opiniões e não poupava esforços. Certa
vez, assim resumiu sua filosofia sobre o ato de escrever: "A arte toda
consiste em escrever e escrever e escrever e depois oferecer para venda,
exatamente como manteiga".
The Free Press é um longo ensaio que examina a história do que Belloc chama
de imprensa oficial na Inglaterra e o surgimento de imprensa livre rival, na
forma de pequenos jornais, freqüentemente de vida curta.
A imprensa oficial, afirma Belloc, é centralizada e Capitalista (ele sempre
escreveu Capitalista com inicial maiúscula) e seus proprietários são "o
verdadeiro poder governante no mecanismo político do Estado, superior ao das
autoridades estatais, nomeando e demitindo ministros, impondo políticas e,
em geral, usurpando a soberania - tudo isso de maneira secreta e sem
responsabilidade". O resultado "é que a massa dos ingleses parou de ter ou
até mesmo de esperar informações sobre a maneira como são governados".
É uma delicada tarefa histórica transplantar o argumento de Belloc da época
dele para a nossa. Talvez nada distancie tanto seu ensaio como a
pressuposição de que os principais jornais moldavam o poder político da
nação - que os políticos governavam com o consentimento tácito dos donos de
jornais.
Nenhum jornal ou rede de TV da nossa era pode ocupar o lugar do conjunto
dominante de jornais de lorde Northcliffe (1865- 1922, jornalista britânico
nascido na Irlanda, o mais espetacular jornalista e editor de jornais da
imprensa britânica. Fundou o Daily Mail em 1896 e o Daily Mirror em 1903),
incluindo o The Times de Londres, que incorporava a idéia de Belloc de
imprensa oficial. O equilíbrio de poder mudou e muitos dos ideais implícitos
da imprensa livre ou independente, como Belloc a descreve, foram absorvidos
por jornais modernos. Também não faltam jornais pequenos, opinativos e
independentes que ele defendeu.
Mas ainda vale a pena ler The Free Press, pois descreve, com algumas
importantes adaptações, a relação em evolução entre blogueiros políticos e a
mídia da corrente central do pensamento nacional. A imprensa livre descrita
por Belloc era uma horda de pequenos jornais altamente opinativos, às vezes
propagandísticos, que surgiram em reação à "imprensa oficial do
Capitalismo". Segundo Belloc, o que caracterizou a imprensa livre foi um
"particularismo discrepante".
Como ele diz, "a imprensa livre lhe dá a verdade, mas somente em seções
desarticuladas, porque é discrepante e é particularista (para
"particularismo", Belloc oferece "excentricidade" como sinônimo). Para
chegar à verdade lendo os órgãos da imprensa livre, você precisa "juntar
tudo e anular uma declaração exagerada comparando-a com outra".
Mas o que ele quer provar é que você pode chegar à verdade.
Há parágrafos inteiros no ensaio de Belloc nos quais se você substituir
imprensa livre por blogs ficará surpreso com as semelhanças. Ele observa que
os jornais da imprensa livre raramente se pagam e que muitas vezes tropeçam
na "informação imperfeita", simplesmente porque não é de interesse dos
políticos falar com eles.
Eles tendem a pregar para os convertidos. E são limitados pela visão do seu
fundador. "É difícil", escreve Belloc, "ver de que forma alguns dos jornais
que mencionei vão sobreviver muito tempo à perda de seu atual editor".
A intenção de Belloc não é trazer à luz as limitações dos blogueiros -
perdoe-me, da imprensa livre. É mostrar como, por mais imperfeitos que
sejam, eles podem contribuir enormemente para nossa capacidade de conhecer o
que está acontecendo. Qualquer pessoa que passa muito tempo lendo blogs
políticos detectará uma nota familiar - numa prosa muito melhor - entre as
certezas de Belloc. Em resumo, ele escreve como um blogueiro do seu tempo.
Fonte: http://www.estado.com.br/editorias/2006/04/23/ger100322.xml
--
Jonathan Pereira
oserbibliotecario.blogspot.com
_______________________________________________
Bib_virtual mailing list
[email protected]
https://listas.ibict.br/mailman/listinfo/bib_virtual