Como comentarista político, o Chico Buarque é um ótimo compositor...

Flávio Nunes
Bibliotecário CRB10/1298
Biblioteca Unisinos - Obras Raras
3590-8855 Ramal: 4550



>>> [EMAIL PROTECTED] 10/5/2006 15:09 >>>
>> Para alimentar o debate sobre liberdade lembro a todos a 
>> historicidade desse conceito

>> e reenvio excertos da entrevista do poeta Chico

>> ele sempre fez das palavras,  mesmo em entrevista no cenário de 
>> campanha eleitoral,
um poderoso antídoto para a anestesia e a miopia que acomete vastos 
setores da população
que insistem  em não refletir sobre a dura questão social  no Brasil.

Cordiais saudações,
Myriam


>> Chico diz que vota em Lula de novo
>> Decepcionado com o PT, Chico critica oposição que trata Lula como um 
>> "vagabundo que deve voltar à senzala'
>>
>>
>> João Wainer
>>   <http://mail.yahoo.com/config/login?/../images/i0605200601.jpg> 
>> Chico Buarque, em sua cobertura no Leblon, durante entrevista que 
>> concedeu à Folha
>>
>>
>> FERNANDO DE BARROS E SILVA
>> EDITOR DE BRASIL
>>
>> "É duro jogar na defesa." Foi esse o comentário bem-humorado que 
>> Chico Buarque fez assim que terminou a primeira parte de uma 
>> entrevista feita em dois tempos, no domingo à noite e na 
>> segunda-feira à tarde, no seu apartamento no Leblon. O compositor se 
>> referia à defesa que acabara de fazer do governo Lula.
>> Mas Chico Buarque não sabe, não gosta e não joga na defesa. Como no 
>> futebol, que, perto de completar 62 anos, em junho próximo, continua 
>> praticando três vezes por semana, Chico partiu logo para o ataque. 
>> Disse que o escândalo do mensalão o deixou, sim, decepcionado com o 
>> governo e é desastroso para o PT. Mas disse com ênfase ainda maior 
>> que as críticas da oposição e de parte da mídia a Lula exorbitaram 
>> tanto no tom quanto no conteúdo e são, por isso, inaceitáveis.
>> Mais ainda, Chico vê o recrudescimento do preconceito de classe 
>> contra o presidente: "Como se fosse uma concessão, deixaram o Lula 
>> assumir. "Agora sai já daí, vagabundo!". É como se estivessem 
>> despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a 
>> Casa Grande", diz Chico.
>>
>>   _____
>> "Carioca", que chega hoje às lojas, está distante oito anos do CD 
>> anterior, "As Cidades", de 1998. No meio do caminho, o também 
>> escritor lançou o romance "Budapeste" (2003). Depois da Copa, ele 
>> deve retornar aos palcos apresentando o novo trabalho pelo país.
>>
>>
>> Folha - No fim de 2004, em entrevista à Folha, você via uma onda de 
>> ódio aos pobres e de ódio a Lula no país. Entre aquele diagnóstico e 
>> a situação de hoje houve a crise do mensalão. Você está decepcionado? 
>> O que mudou no governo Lula?
>> Chico Buarque - É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou 
>> quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido o escândalo 
>> é desastroso. Espero que disso tudo possa surgir um partido mais 
>> correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de 
>> que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que 
>> você ou é tucano ou é burro [risos].
>> Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas 
>> principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do 
>> governo mais corrupto da história do Brasil, é preciso dizer "espera 
>> aí". Quando aquele senador tucano canastrão vai para a tribuna do 
>> Senado dizer que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula 
>> de vagabundo, de ignorante, aí estão errando muito a mão. Governo 
>> mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso 
>> investigar. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas.
>>
>> Folha - Como assim?
>> Chico - Pergunte a qualquer pequeno empresário como faz para levar 
>> adiante seu negócio. Ele é tentado o tempo todo a molhar a mão do 
>> fiscal para não se estrepar. O mesmo vale para o guarda de trânsito. 
>> E assim sucessivamente. A gente sabe que a corrupção no Brasil está 
>> em toda a parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente eles, 
>> fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover. Eles fazem 
>> o papel da oposição, está certo. O PT também fez o "Fora FHC", uma 
>> besteira.
>> Mas o preconceito de classe contra o Lula continua existindo -e em 
>> graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi 
>> igual. Acaba inclusive sendo contraproducente. O sujeito mais humilde 
>> ouve e pensa: "Que história é essa de burro!? De ignorante!? De 
>> imbecil!?". Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem 
>> com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! -até assassino eu já 
>> ouvi.
>> Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram 
>> plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. 
>> Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. 
>> "Agora sai já daí, vagabundo!" É como se estivessem despachando um 
>> empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. 
>> "Agora volta pra senzala!" Eu não gostaria que fosse assim.
>>
>> Folha - Você acredita que o Lula seja de fato visto como uma ameaça 
>> pelos mais ricos?
>> Chico - A economia, na verdade, não vai mudar se o presidente for um 
>> tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita 
>> diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas 
>> o país deu um passo importante elegendo o Lula. Considero 
>> deseducativo o discurso em voga: "Tão cedo esse caras não voltam, 
>> eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas". Acho 
>> tudo isso muito grave.
>>
>> Folha - Você vai votar no Lula? Chico - Hoje eu voto no Lula. Vou 
>> votar no Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia estar 
>> atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o 
>> Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está 
>> devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: "Quero ser cobrado, 
>> vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa-sacos". 
>> Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes de ele tomar posse, num 
>> encontro aqui no Rio.
>>
>> Folha - Vários artistas andaram criticando o PT, o governo e Lula. O 
>> meio artístico, ao que parece, não vai mais embarcar no "Lula lá".
>> Chico - Pelo que eu ando lendo, a grande maioria dos artistas está 
>> contra o Lula. Tenho a missão de contrabalançar um pouco isso 
>> [risos]. Há também entre os artistas um pouco daquela competição: 
>> quem vai falar mais mal do presidente? Mas concordo em parte com o 
>> Caetano. Em parte.
>> Quando ele fala que as pessoas do atual governo se cercam da aura de 
>> esquerda para justificar seus atos e reivindicar para si uma posição 
>> superior à dos demais, tudo isso também vale para o governo anterior. 
>> Os tucanos costumam carregar essa aura de esquerda com muito zelo. 
>> Volta e meia os vemos dizendo que foram contra a ditadura, que são 
>> intelectuais de esquerda. Fernando Henrique foi eleito como candidato 
>> de centro-esquerda. Na época a vice entregue ao PFL parecia algo 
>> estranho. Depois se provou que não era.
>> As pessoas se servem do passado de esquerda como se fosse um título, 
>> um adorno. Na prática política essa identidade não funciona mais. Mas 
>> não funciona não só porque as pessoas viraram casaca. A história 
>> levou para isso. Levou o PSDB a se tornar o que é e obrigou o PT a 
>> abdicar de qualquer veleidade socialista ou revolucionária.
>>
>> Folha - O que você acha do PSOL e dessa turma que deixou o PT fazendo 
>> críticas pela esquerda?
>> Chico - Percebo nesses grupos um rancor que é próprio dos ex: 
>> ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que 
>> está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e 
>> que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles 
>> crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o 
>> adversário do Lula.
>>
>> Folha - Como você vê a atuação da mídia no escândalo do mensalão? Tem 
>> gente que ainda diz que a mídia criou ou inventou essa crise.
>> Chico - Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia 
>> ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do 
>> Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando 
>> Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas 
>> chapa-branca dispostos a defendê-lo. O Lula não tem. Pelo contrário, 
>> é concurso de porrada para ver quem bate mais.
>>
>> Folha - O rumo que tomou o Brasil e o mundo o faz se sentir 
>> derrotado? A sua geração perdeu?
>> Chico - É evidente que parte da minha geração que chegou ao poder não 
>> lutou a vida inteira para isso. Eu vou dizer: até mesmo pessoas que 
>> hoje são execradas publicamente, como o Zé Dirceu...
>> Não tenho maior simpatia pelo Zé Dirceu, não assinei manifesto em 
>> defesa dele, acho que ele errou, que ele tem culpa, sim, por tudo o 
>> que aconteceu, mas eu respeito uma pessoa que num determinado momento 
>> entregou a sua vida, jogou tudo o que tinha em nome de uma causa, do 
>> país.
>> Como o Zé Dirceu eu poderia citar outros nomes que chegaram ao poder, 
>> mas chegaram despidos daquele sonho em nome do qual eles lutaram a 
>> vida toda. Quem sabe para chegar ao poder tiveram justamente que se 
>> render ao pragmatismo. A pessoa que chega ao poder é um pouco um 
>> fantasma daquela que deu a vida por algo que não se realizou.
>>
>> Folha - O público mais jovem tem interesse pelo que você e sua 
>> geração fazem hoje? O que mudou na recepção do seu trabalho?
>> Chico - Mudou muita coisa. Para as pessoas mais velhas, as músicas 
>> costumam ter história, lastro, estão ligadas à vida de cada um ou 
>> relacionadas a momentos do país. É comum ouvir "isso me lembra as 
>> Diretas-Já, isso me lembra Geisel, isso me lembra o Festival da 
>> Record". Para a garotada não há nada disso. Para eles sou músico de 
>> um passado só. Outro dia um jovem me disse: "Adoro aquela sua 
>> música". "Qual?", perguntei: "Com Açúcar, com Afeto" [risos]. A 
>> música tem 40 anos!.
>>
>> Folha - É uma jovem senhora, mas ainda chama a atenção.
>> Chico - Isso na verdade é cíclico. Nos anos 80, em determinado 
>> momento que uma parte expressiva da mídia flertou com muito 
>> entusiasmo com uma certa idéia de internacionalização da cultura e de 
>> desbunde com o mercado, parecia que a música da gente já era. 
>> Nacional, só rock e olhe lá. Eu fui considerado completamente 
>> ultrapassado. Depois voltou. Daqui a pouco pode ser que não interesse 
>> mais. A gente continua fazendo -existe uma teimosia aí. E também, a 
>> essa altura, uma natural despreocupação com o sucesso imediato. Mesmo 
>> porque o sucesso imediato não acontece.
>>
>> Folha - Você considera que o novo CD exige uma digestão mais lenta?
>> Chico - Você e outros comentaram que, a exemplo do anterior, o disco 
>> não é fácil de se gostar na primeira audição. Talvez não seja mesmo. 
>> Eu aposto um pouquinho no fato de que a pessoa vá ouvir várias vezes.
>> É difícil no meu caso ter uma música que seja um grande sucesso, que 
>> toque no rádio -eu não conto com isso. Não estou preocupado em fazer, 
>> como diziam os italianos, uma música "orecciabile", "orelhável". No 
>> final dos anos 60, quando morei em Roma, eles queriam que eu fizesse 
>> outra música como "A Banda", "orecciabile". E eu acabei não fazendo 
>> outras músicas "orelháveis", frustrando muitas expectativas. Hoje não 
>> existe nenhuma expectativa, nem minha nem de ninguém, de que eu 
>> precise ou vá compor uma música "orecciabile".
>> É natural que haja um tempo maior e um apuro maior, não apenas no 
>> processo de composição mas também no trabalho de estúdio, durante os 
>> arranjos, as gravações. É sem dúvida um trabalho mais sério, mais 
>> cuidado do que era há anos atrás. Não quero dizer que isso resulte 
>> numa música "impopular" de propósito, uma música sofisticada demais 
>> -não acho isso-, mas é uma música que não tem compromisso com o 
>> sucesso. Isso talvez a torne mais longeva.
>>
>> Folha - Você transmite a sensação de que gostaria de ver seu trabalho 
>> melhor compreendido.
>> Chico - Sei que é difícil falar do disco. Até para mim é difícil. Em 
>> jornal, crítico de música geralmente é crítico de letra. É 
>> compreensível que seja assim -a letra vai impressa, o crítico destaca 
>> este ou aquele trecho. Funciona assim. Eu cada vez mais dou 
>> importância à música e tenho vontade de dizer: "Olha, só fiz essa 
>> letra porque essa música pedia. Isso não é poesia, é canção". Enfim, 
>> fico um pouquinho chateado com essas coisas, mas sei que é difícil. 
>> Como é que vai imprimir uma partitura no jornal e explicar aos 
>> leitores?
>>
>> Folha - Você volta a fazer shows?
>> Chico - Tenho vontade de fazer, sim. Depois da gravação, do convívio 
>> com os músicos no estúdio essa vontade aparece. É o passo seguinte, 
>> de certa forma natural. Vamos ver depois da Copa.
>>
>> Folha - Você acaba de gravar 12 programas dirigidos por Roberto de 
>> Oliveira, que mesclam entrevistas inéditas e imagens de arquivo 
>> cobrindo praticamente toda a sua carreira. Chama a atenção a maneira 
>> desinibida com que você acabou passando a limpo a sua trajetória. O 
>> que o levou a fazer esse balanço?
>> Chico - O Roberto foi me engabelando [risos]. A idéia inicial eram 
>> dois ou três programas. Achei que a proposta de recuperar imagens de 
>> arquivo que de outra forma ficariam perdidas justificava o trabalho. 
>> Mas só fazia sentido se isso viesse acompanhado de algo mais.
>>
>> Folha - Esses documentários dos anos 70 e 80 que os programas 
>> recuperam chamam atenção pelo despojamento, pelo ambiente caseiro, de 
>> ensaios descontraídos. Vivia-se em outro planeta, não?
>> Chico - Fiquei muito tempo fora da Globo durante a ditadura, primeiro 
>> porque eles me vetaram, depois, quando me chamaram, porque eu não 
>> queria. Esses programas eram um contraponto à programação e à 
>> estética da Globo. Mostravam os artistas gravando, bebendo, era uma 
>> coisa meio mal-acabada, meio alternativa. Alguns discos, não apenas 
>> os meus, também tinham esse clima.
>> Era uma bagunça. Ouvindo hoje a gente tem a sensação de que o cantor 
>> bebeu, o maestro fumou e o produtor cheirou, não necessariamente 
>> nessa ordem [risos].
>> Era muita loucura, o estúdio cheio de gente, garrafas pelo chão, uma 
>> festa. Hoje você entra num estúdio e é aquela coisa ascética. Parece 
>> um hospital. Não se come, não se bebe, não se fuma, não se faz nada 
>> ali dentro.
>> Naquela época havia um certo valor nessa transgressão, nesse 
>> desregramento. Você ia gravar daquele jeito, todos no estúdio estavam 
>> daquele jeito e provavelmente quem ia ouvir os discos também estava 
>> daquele jeito. Não deixava de ser uma maneira de enfrentar e suportar 
>> a repressão. Hoje não faria nenhum sentido gravar naquelas condições.
>>
>> Folha - Era uma época mais simpática?
>> Chico - Não acho nada simpática. Não dá para abstrair a ditadura. Uma 
>> coisa é Maio de 68 na França. Outra, completamente distinta, o nosso 
>> dezembro de 68.
>


Myriam Bahia Lopes
[EMAIL PROTECTED] 
www.nehcit.cjb.net 
Em 10/mai/2006, às 00:24, Jonathan Pereira escreveu:

em O Estado de S. Paulo <http://www.estado.com.br/>
6 maio 2006

"A liberdade de imprensa é a razão pela qual eu cheguei à Presidência, 
é a
razão pela qual as instituições brasileiras dão demonstrações mais 
sólidas
de crescimento e sustentabilidade democrática."

Esta curta observação, feita pelo presidente Lula na ocasião em que 
assinou
a Declaração de Chapultepec <http://www.igutenberg.org/chapul.html>-
documento internacional que estabelece princípios fundamentais da 
liberdade
de imprensa -, já pode ser considerada, por si, um dos mais lúcidos
pronunciamentos do presidente da República, em seus 40 meses de gestão. 
Com
efeito, corresponde inteiramente à verdade o fato de o inflamado
sindicalista de São Bernardo dever à plena liberdade de expressão a 
carreira
política que o levou ao topo do Poder. Diga-se o mesmo em relação a
influência, dessa liberdade, no "crescimento e sustentabilidade" das
instituições democráticas brasileiras. Há que se dizer também, no 
entanto,
que o comportamento do presidente e seu governo, no que diz respeito ao
relacionamento com a imprensa, esteve bem longe de significar o grau de
respeito e consideração contido nas palavras de quarta-feira.

Reconheça-se que neste campo tem havido uma evolução. Durante quase 
toda sua
gestão - com exceção dos últimos tempos, já pré-eleitorais - o 
presidente
Lula se recusou ao saudável hábito das rotineiras entrevistas coletivas,
preferindo sempre as comunicações oficiais. Só muito raramente se 
permitia
convidar alguns jornalistas para um "café-da-manhã", mas nessas ocasiões
fazia prevalecer mais um espírito de ameno congraçamento do que a 
intenção
de passar informações realmente relevantes, do interesse da sociedade. 
Mas
outros fatos marcaram um relacionamento tumultuado. Um deles foi a 
tentativa
de expulsão do País do jornalista Larry Rohter, do New York Times, por 
este
ter publicado matéria dando conta de hábitos etílicos do presidente.

Foi marcante, por outro lado, o envio ao Congresso Nacional da proposta 
de
criação do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) - que tinha por objetivo
expresso "orientar, disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão. 
Por
sobre ser um projeto gritantemente inconstitucional - já que a 
Constituição,
por autodefesa histórica, em seu texto contém uma das maiores repulsas a
qualquer espécie de censura -, a idéia do CFJ foi prontamente rechaçada
pelos mais amplos setores da opinião pública e acabou - queremos crer -
definitivamente sepultada. Embora não se referissem especificamente à
imprensa - mas à liberdade de expressão, em gênero -, o famigerado 
projeto
da Ancinav, tentando impor "orientações" à produção cultural, assim 
como o
que pretendia colocar alguma "mordaça" no Ministério Público, foram 
outras
tentativas, felizmente frustradas, de o governo Lula estabelecer 
cerceamento
à livre manifestação de pensamento.

Se reconhecemos que houve uma boa evolução no relacionamento do governo 
Lula
com a imprensa, nos últimos tempos - e esforcemo-nos para, de boa-fé,
desvinculá-la de eventuais propósitos reeleitorais -, é porque se torna
perceptível a tentativa de o presidente aproximar-se mais dos 
jornalistas e
responder a perguntas, quando indagado. Mas também só quem tenha 
amadurecido
sua percepção, quanto à capacidade de entendimento da sociedade, 
haveria de
expressar com clareza aquilo que o presidente Lula disse, nestes termos:
"Temos que acreditar que esse povo, por si só, consegue fazer uma
diferenciação daquilo que é correto, daquilo que não é correto, daquilo 
que
ele acha que é verdade e daquilo que ele acha que é exagero. Engana-se
aquele político que acha que faz as coisas e pensa que o eleitor não 
faz o
julgamento correto. E se engana, também, aquele que escreve alguma 
coisa sem
imaginar ou sem acreditar que o povo tem capacidade de discernimento 
para
saber o que é exagero, o que é verdade, o que é mentira."

Neste ponto a reflexão do presidente parece extremamente precisa. 
Restaria
apenas torná-la exemplar, no sentido de que o pensamento e a ação - ou 
as
palavras e o comportamento - se tornem cada vez mais associados, a 
ponto de
expressarem a mesma coisa.


Fonte: http://www.estado.com.br/editorias/2006/05/07/edi112358.xml 



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Jonathan Pereira
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