Eugenio C. G. Hansen | O poder só é limpo
Bibliotecário | quando se traduz em serviço.
| Francisco de Juanes
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Administrador do grupo reflexaopolitica
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Perante um obstáculo,
a linha mais curta entre dois pontos
pode ser a curva.
Bertolt Brecht, 1898-1956
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http://www.correiocidadania.com.br/ed500/perisse.htm acesso em 25 maio 2006.
Correio da Cidadnia. Ed. 500, 20 a 27 maio 2006.
Leituras de guerra
Gabriel Perissé
Os jornais dizem que um dos maiores líderes do crime organizado no
Brasil é leitor assíduo e aprecia dois clássicos da literatura
universal: A arte da guerra, de Sun Tzu, e A divina comédia, de Dante.
Dantescas referências. Por um lado, toda uma sabedoria de combate a ser
assimilada. Horas de reflexão sobre recomendações seculares: "Ao inimigo
cercado deve-se deixar uma rota de fuga"; "a rapidez é a essência da
guerra"; "dirigir muitos é o mesmo que dirigir poucos, trata-se de uma
questão de organização"...
Arrisco-me a afirmar que Marcos Herbas Camacho, o Marcola, o
leitor-prisioneiro, nos deu uma lição terrível com seu contra-exemplo. A
leitura lhe dá a liberdade de agir para além das grades. A leitura a
serviço da transgressão e da morte.
Uma das máximas da filosofia ocidental - conhece-te a ti mesmo - recebe
em Sun Tzu aplicação beligerante: "Conhece o inimigo e conhece-te a ti
mesmo. Assim, em uma centena de batalhas nunca estarás em perigo". Nós
somos, suponho, os inimigos dele, e ele nos conhece melhor do que nós...
O livro como arma intelectual, como esforço estratégico. "Bandidos
loucos", no pensamento de Sun Tzu, são aqueles que fazem a guerra sem
conhecimento, sem idéias, sem linguagem, sem objetivos.
É leitor de Dante. Do inferno na terra conhece, ao vivo, as imagens
produzidas pelo poeta. Traz no corpo as marcas de quem nele sobreviveu.
A lógica da punição, os demônios insaciáveis, a tortura, os gritos, a
dor, os criminosos de todas as classes. O crime não compensa, ontem e
hoje... é preciso abandonar toda a esperança, mas sempre há um caminho
para o céu...
Marcola refere-se ao presídio como a "faculdade". Lá dentro encontrou o
ócio necessário para dedicar-se ao exercício da mente. Nada no mundo se
faz sem planejamento. Gerenciar seus "alunos", "irmãos" e "soldados"
requer controle das emoções. Requer disciplina interior. Vocabulário
preciso. Concepções claras.
Marcola também teria em sua biblioteca um exemplar de Estação Carandiru,
do Dr. Drauzio Varella. Este livro foi revelação para quem jamais
visitou um presídio, mas, para um homem que já passou boa parte da vida
lá dentro, aquelas páginas devem ser recordatório, reencontro,
constatação da realidade.
A leitura permite a Marcola habitar uma dimensão inacessível. Se é
verdade que tal avidez de leitura existe, está comprovado, para o bem ou
para o mal, o seu poder.
Gabriel Perissé é doutor em educação pela USP. Web Site:
http://www.perisse.com.br
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