Fonte:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=382AZL001
LIVROS & POLÍTICA
O abre-e-fecha da megabiblioteca mexicana
Por Wladir Dupont, da Cidade do México em 23/5/2006
Para melar a festa não faltou algum gozador
relembrando os velhos tempos da política mexicana,
regida com mão de ferro pelo partido forte, o PRI,
quando os presidentes, ao inaugurar uma obra pública
no interior do país, faziam de conta, com a abjeta
cumplicidade das autoridades locais, que tudo
funcionava muito bem: assim, uma torneira comunitária
só jorrava água durante a festiva passagem da comitiva
oficial, depois era fechada para continuar o serviço,
que podia nunca terminar ou estender-se por tempo
indefinido tudo dependendo dos interesses e
conveniências dos puxa-sacos e aspones de plantão.
Resguardadas as diferenças pois agora o poder,
democratizado, é do partido opositor, o PAN foi um
pouco assim, semana passada, com a inauguração de uma
das obras públicas mais criticadas, abominadas e
rejeitadas do governo do presidente Vicente Fox, a
chamada Megabiblioteca José Vasconcelos (44.186 metros
quadrados, cinco andares, acervo inicial de 500 mil
livros), entregue à população a toque de caixa para
faturar prestígio e votos na reta final das eleições
presidenciais de 2 de julho: o candidato do PAN e do
presidente Fox, Felipe Calderón, obviamente se
beneficia do barulho propagandístico das realizações,
aceleradas, de fim de mandato.
Entregue em termos, pois o público em geral só terá
acesso a biblioteca a partir de 1º de junho. Por
enquanto, o recinto estará aberto apenas para receber
grupos de estudantes, professores e pesquisadores em
visitas guiadas.
Ausência de leitores
Foi enorme a frustração, tanto de jovens usuários
ansiosos como dos meios culturais da Cidade do México,
algo desconfiados de tanta pressa e badalação. E a
imprensa não perdoou: "Megabiblioteca, en la disputa
por votos", "Megabiblioteca, espejo del centralismo
cultural", assim titulou o El Universal as duas
matérias sobre o assunto na página de abertura do
caderno cultural. A combativa revista semanal Proceso,
em campanha permanente contra o governo de Fox,
limitou-se a publicar um comentário assinado, nenhum
esforço maior de reportagem.
Repercutiu, isso sim, a observação feita por um dos
mais importantes intelectuais mexicanos, o sarcástico
cronista e ensaísta Carlos Monsiváis, para quem a
megabiblioteca "corre o risco de se converter num
elefante branco ou num simples testemunho da passagem
do foxismo por este país, caso não se consolide uma
política eficaz de fomento da leitura... É incrível
que, em 2006, 90% das oportunidades no campo cultural
se concentrem na Cidade do México".
(Ele tem criticado particularmente o que considera o
fracasso do programa oficial de estímulo à leitura
"Rumo a um país de leitores", instituído pelo governo
de Fox. Não aceita tampouco a afirmação de que os
mexicanos não lêem: "Lêem, sim, só precisam de mais
incentivo, formas inteligentes de fazer com que
dediquem mais tempo e energia a boa leitura".)
Monsiváis não falou de números, mas nem precisava: a
Unesco corrobora dados do próprio governo e da
indústria editorial: os mexicanos lêem 1,5 livros por
ano, quando muito; hoje no país existem só umas 400
livrarias, gradualmente ameaçadas de extinção; e a
rede nacional de 7 mil bibliotecas públicas as da
Cidade do México sobretudo, mal iluminadas, com
acervos envelhecidos, roídas pelas traças necessita
reformas urgentes de infra-estutura, até mesmo nos
banheiros.
Por que então investir tantos recursos oficiais em uma
obra de dimensões faraônicas, bela e imponente
arquitetura à parte, se muitos setores do arcabouço
cultural e educacional do país requerem medidas
urgentes de apoio e agora estarão em situação ainda
pior, pois boa parte de seus já parcos recursos serão
desviados para bancar o novo projeto? É o que
perguntam, indignados, os críticos mais ferrenhos da
megabiblioteca.
Mais ainda: por que tanto empenho numa monumental obra
de natureza cultural quando, ao longo de seis anos de
governo, Fox e seus ministros, pouco dados aos livros
e à reflexão intelectual, não se preocuparam em
melhorar as condições de trabalho dos setores
culturais do país?
Catedral da cultura
Os números do projeto também são monumentais. Segundo
dados do Conaculta Conselho Nacional para a Cultura
e as Artes (equivalente a um ministério da Cultura), o
custo total da obra, com projeto do renomado arquiteto
Alberto Kalach, ao longo de quatro anos de
planejamento, construção e instalação de equipamentos,
foi de 100 milhões de dólares. O orçamento anual de
operação da megabiblioteca deverá exigir por volta de
6 milhões de dólares, destinados a serviços,
manutenção e pagamento de pessoal.
Quando aberta de forma integral, a megabiblioteca,
orgulhosamente batizada pelo presidente Fox de
"Catedral da Cultura", poderá receber de 12 a 15 mil
visitantes diários, quatro a cinco milhões por ano.
Todo esse público disporá, além de um acervo inicial
de 500 mil livros (a capacidade é de 1,5 milhão de
volumos), de 750 computadores com acesso à internet.
A instituição deverá funcionar como um "cérebro"
ligado à rede nacional de bibliotecas, mas o processo
de digitalização, necessário para essa ampliação,
ainda não foi iniciado. Os usuários, atendidos por 125
bibliotecários, terão também uma cafeteria, sala de
conferências, auditório para 500 pessoas, fonoteca e
estacionamento para 400 carros.
O projeto arquitetônico ganhador propôs uma
"integração do paisagismo, na forma de um jardim
botânico com 26 mil metros quadrados, como parte de
uma biblioteca concebida como depositária e
transmissora do conhecimento universal". Dispensada a
linguagem pedante, o resultado da criatividade do
arquiteto Kalach e equipe é de fato deslumbrante.
Passo a passo
Embora todas as pompas e frases entusiásticas da
inauguração da megabiblioteca tenham saído de poses e
bocas oficiais, ausentes grandes nomes da cultura e da
arte mexicana, as próprias autoridades, um pouco
acabrunhadas, não se furtaram a dar explicações sobre
os incômodos atrasos e percalços da obra, incluindo
goteiras.
Reconhece o diretor da biblioteca, Jorge von Ziegler,
que ainda existem coisas para afinar e ajustar e que
por isso mesmo o funcionamento se dará por etapas.
Segundo ele, a digitalização do acervo tem demorado
porque se trata, na maioria dos casos, de obras atuais
protegidas por direitos autorais. "Esta é a obra
cultural mais importante do governo do presidente Fox,
que nos determinou iniciar operações normais nos
próximos seis meses."
E em meio a uma saraivada de críticas, brincadeiras e
boa dose de fofocas político-eleitorais, a opinião
positiva de outro escritor respeitado, o novelista
Fernando del Paso, ainda que isolada e solitária, deve
ter dado um certo alivio ao governo:
"Muita gente dizia que é melhor várias centenas de
bibliotecas no lugar desta, mas eu acho que é melhor
ter as duas coisas. Não pesa nada a cidade de
Washington ter a Biblioteca do Congresso, nem a
Londres a Biblioteca do Museu Britânico, nem a Paris a
Biblioteca Nacional. Uma grande comunidade em número
necessita também uma grande biblioteca".
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