Por *Diego Assis*
em O Estado de S. Paulo <http://www.estado.com.br/>
3 junho 2006

Espécie de "segunda casa" do Creative Commons <http://creativecommons.org/>,
o Brasil sediou, no penúltimo final de semana, o segundo encontro
internacional dos líderes e simpatizantes do movimento, que militam por um
direito autoral mais flexível e adequado aos tempos da internet e do remix.
Idealizado há 5 anos pelo professor de Direito da Universidade Stanford
Lawrence Lessig, o Creative Commons oferece ao autor um conjunto de licenças
que permitem a ele "marcar" sua obra com certas liberdades combinadas - é
permitido copiar e distribuir, por exemplo, mas não fazer uso comercial; ou
ainda, é permitido copiar, distribuir e comercializar, mas esses mesmos
direitos devem ser preservados na obra resultante.
Como escreve Lessig em seu livro Cultura Livre, a bíblia do Creative
Commons: trata-se de um modelo de "alguns direitos reservados" - um
meio-termo entre o "todos os direitos reservados"do copyright tradicional e
o "nenhum direito reservado" do copyleft.
Entre uma palestra e outra - e bem antes de ser jogado na piscina do hotel
Marriot de Copacabana ao final do evento - o professor teve a seguinte
conversa com o Link:

*Uma das principais discussões do encontro girou em torno da complexidade
das licenças Creative Commons. Alguns sustentam que é necessário
simplificá-las para atrair mais adeptos. Qual é a sua opinião sobre isso?
*
Eu adoraria que houvesse apenas uma ou duas licenças. Mas a realidade é que
as pessoas têm desejos diferentes e, no lugar de dizer a elas como devem
proceder, penso que, primeiro, é preciso trazê-las para um diálogo sobre
liberdades usando as licenças Creative Commons. Depois, quando tivermos 1
bilhão ou 2 bilhões de obras licenciadas, poderemos conversar sobre como o
fato de você ter escolhido uma licença não-derivativa está tornando seu
trabalho inacessível para todas essas pessoas. Ou como o fato de ter
escolhido a licença de compartilhamento também pode significar que outras
pessoas não possam usar seu trabalho.

*O número de obras licenciadas em Creative Commons já chega a 140 milhões na
web. Qual é o impacto econômico que teremos com a flexibilização dos
direitos autorais?*

Acho que será enorme. E positivo. Pense sobre os modelos de copyright hoje.
Eles aumentam dramaticamente o custo para que se usem os trabalhos -
especialmente porque haverá advogados no meio. Se você reduz esse copyright
apenas para aqueles trabalhos onde há um mercado comercial e deixa todo o
resto em domínio público, então haverá diversos tipos de usos econômicos
para eles, que não seriam possíveis no sistema existente. Você pode
digitalizar filmes antigos, que não estão mais disponíveis, e torná-los
acessíveis novamente, usá-los para educação. E isso você não pode fazer
hoje. Os custos para liberar os direitos são muito altos. Os religiosos do
copyright persuadiram o mundo de que, se aumentamos os direitos, nós
aumentamos a propriedade. E isso é economicamente falso. O oposto é falso
também. O que sempre compreendi como copyright é um equilíbrio útil, de bom
senso. Em alguns momentos, aumentar os direitos na verdade prejudica a
economia.

*Organismos internacionais de comércio costumam ter uma posição muito dura
quando o assunto é propriedade intelectual. Você vê alguma possibilidade de
mudança ou flexibilização nesse campo?*

Com certeza, sim. Principalmente por causa de países como Argentina, Brasil
e Índia, que têm mostrado que é necesário fazer uma análise comercial antes
de regular sobre qualquer coisa. E isso não é radical, é a coisa mais
conservadora que você pode fazer! O impressionante sobre a Organização
Mundial do Comércio (OMC) e a Organização Mundial da Propriedade Intelectual
(WIPO, na sigla em inglês) é o quão distantes elas estão de princípios
básicos de uma legislação sensível, de avaliar se uma regulação pode fazer
mais bem do que mal à sociedade. O que está guiando a WIPO é o que move os
países mais poderosos, e o que guia os países mais poderosos são pequenos
interesses econômicos dos que querem continuar a lucrar com obras que têm
100 anos de idade. Eu não os culpo, é o trabalho deles fazer dinheiro, é
isso que as empresas fazem. Mas o que questiono é o fato de os governos
desses países serem tão irresponsáveis ao proteger o interesse deles contra
o interesse público. A Disney ganha, o interesse público perde.

*Como você avalia a aproximação recente de empresas como Microsoft, Google e
Yahoo! ao movimento Creative Commons?*

Eu quero que o Creative Commons se torne uma plataforma na qual todas essas
companhias confiem. A Microsoft reconheceu sabiamente que, ao construir uma
ferramenta que permite às pessoas marcarem suas obras com licenças Creative
Commons, está apenas acrescentando valor ao seu produto. Ela é uma das
primeiras que investiu recursos próprios para permitir que seus usuários
usem nossas licenças em aplicativos de desktop (leia mais ao lado). O mesmo
com Google e Yahoo!, que incluíram nos seus mecanismos de busca tecnologias
que permitem encontrar arquivos e páginas licenciados em Creative Commons.
De novo, isso apenas torna seus sistemas mais valiosos. E somos a favor
disso. O que não faremos é entrar em parcerias comerciais com ninguém.
Porque não somos uma entidade comercial e não vamos fazer acordos que
comprometam o que é importante para a gente. O Creative Commons não é um
movimento dedicado a destruir o copyright, mas um movimento dedicado a
reconstruir o direito autoral para que ele faça mais sentido na era digital.


*Quais são seus próximos planos pessoais? Já está escrevendo um próximo
livro?*

Sim. No ano que vem estarei em Berlim, sem lecionar, e terei tempo para
trabalhar no próximo livro. O foco principal é naquilo que chamo de
sociedades "read-write" e "read-only", conceitos tirados da tecnologia da
computação. Uma sociedade "read-only" é aquela na qual as pessoas são apenas
receptoras; "read-write" é aquela em que as pessoas recebem, criam e
compartilham. Penso sobre isso em três áreas separadas: no comércio, na
cultura e na política. O século 20 foi essencialmente o século do
"read-only". É a imagem do sedentário assistindo à televisão. É o tempo da
política do "broadcasting": em vez de mobilizar pessoas, como acontecia na
época da política de partidos, são feitos comerciais de 30 segundos. Agora,
a tecnologia está mudando isso. Com a emergência blogs, as pessoas estão se
engajando novamente para agir, em vez de consumir. É a sociedade
"read-write".


Fonte:
http://www.estado.com.br/suplementos/info/2006/07/03/info-1.93.8.20060703.3.1.xml


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Jonathan Pereira
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