Folha de São Paulo, terça-feira, 11 de julho de 2006.

Bibliotecas dão nova fama a Bogotá

Com 2 milhões de livros, o principal centro do país tem mais visitantes do
que Masp, Pinacoteca e Mário de Andrade juntos



Com outros projetos na área e grandes bibliotecas em construção, capital da
Colômbia recebe título da Unesco por apoio à leitura



RAUL JUSTE LORES

DA REPORTAGEM LOCAL



Com 2,7 milhões de visitantes por ano, a Biblioteca Luis Ángel Arango, em
Bogotá, é uma das mais visitadas do mundo. Recebe, em média, 9.000 pessoas
diariamente. É mais do que a soma de visitantes de Masp (Museu de Arte
Moderna de São Paulo), Biblioteca Mário de Andrade e Pinacoteca juntos por
dia.

Mantida pelo Banco Central do país, ela tem 2 milhões de livros e capacidade
para 2.000 leitores sentados. Nos últimos anos, a BLAA fez escola: a
prefeitura local construiu outras megabibliotecas pela cidade e criou
diversos programas de leitura que visam formar leitores em massa.

Tal empenho recebeu reconhecimento da comunidade internacional. A Unesco
escolheu Bogotá como a primeira cidade latino-americana a ser Capital
Mundial do Livro, título que ostentará em 2007. A Fundação Bill e Melinda
Gates doou US$ 1 milhão para a rede municipal de bibliotecas e colabora com
equipamentos tecnológicos para os centros.

Em visita recente a São Paulo, convidada pela Secretaria Municipal de
Relações Internacionais, a diretora da BLAA, Ángela Pérez Mejía, esteve em
São Paulo para falar de como as bibliotecas transformaram Bogotá e começam a
mudar um país associado à guerrilha, narcotráfico e violência. Em palestra
na Biblioteca Mário de Andrade, que passa por processo de modernização,
Pérez Mejía falou que a capital colombiana deve muito aos novos espaços de
convivência com livros.

Uma rede de ciclovias, de 300 quilômetros de extensão, e o sistema de ônibus
articulados, em corredores, servem todas as grandes bibliotecas. "As
bibliotecas ditaram os rumos do transporte público", diz Pérez. Alguns dos
maiores arquitetos colombianos trabalharam na criação das três novas
megabibliotecas, como a Virgilio Barco, desenhada por Rogelio Salmona, e a
El Tunal, adaptando antiga usina de tratamento de lixo, por Daniel Bermúdez.

Atualmente está em construção a quarta megabiblioteca municipal, na
periferia de Bogotá, graças à doação de US$ 12 milhões feita pela família
Santodomingo, a mais rica do país. Será inaugurada em 2008.



Livros ao vento

Um dos projetos que envolveu toda a cidade, além do numeroso público que
freqüenta as bibliotecas, é o "Livros ao Vento". A prefeitura local lança 70
mil exemplares, por edição, em versões de bolso de clássicos de Cortázar,
García Márquez, Allan Poe, Tchecov, entre outros, e os distribui nos pontos
de ônibus, gratuitamente. Na contracapa, um pedido: que ao terminar a
leitura, o livro seja passado para outra pessoa ou deixado em outro lugar
público. "Deixe que este livro voe."

Outro projeto municipal utiliza postos de leitura, como estantes
desmontáveis, que são instalados nos parques da cidade, com 300 livros cada
um.
O interesse pelo livro também cresceu para além da capital colombiana. No
interior, em plena floresta amazônica, existem os "biblioburros", onde
agentes culturais levam coleções ao lombo de burrinhos para emprestar livros
nas localidades mais distantes. Também foram criadas pelo governo
bibliotecas indígenas.
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