Por *Gabriela Longman*
em Folha Online <http://www.folha.com.br/>
29 agosto 2006

Enquanto revistas antigas são geralmente malconservadas e pouco lidas nas
bibliotecas e acervos, um jornalista/ historiador/webdesigner passa as
noites em claro para disponibilizar on-line e gratuitamente edições de "O
Cruzeiro", "Careta" e "O Malho" --publicações que marcaram a história da
imprensa no século 20.

Criador do site Memória Viva <http://www.memoriaviva.com.br/> há oito anos,
Sandro Fortunato prepara uma nova empreitada: um gigantesco banco de dados
digital em que tudo o que já foi escrito, citado e desenhado no "Pasquim"
poderá ser localizado por internautas.

Com a autorização de Ziraldo, Ivan Cosenza (filho de Henfil), Luiz Carlos
Maciel e outros colaboradores do periódico, aos poucos Fortunato transforma
em arquivo digital a coleção completa do "Pasquim", semanário editado entre
1969 e 1991 e famoso pela contestação à ditadura militar.

A coleção foi doada em maio deste ano pelo mineiro Rogério Gomes. Se Sandro
mora em Brasília e a coleção estava em Juiz de Fora (MG), não teve problema:
pegou um ônibus e em menos de 24 horas trouxe para seu apartamento em
Brasília cerca de 300 quilos de jornal --mais de mil exemplares.

"Cheguei à rodoviária com 16 sacos de lixo lotados. O motorista me disse:
'Olha, você precisa transformar isso tudo em quatro volumes. Dois deles você
tem direito a levar, o menor eu vou te cobrar, e o quarto eu finjo que não
vi'. "Depois da "travessia", a coleção começa a chegar à internet na semana
que vem, no dia 4 de setembro, com os 50 primeiros números digitalizados.

Carioca de 34 anos, Fortunato já viveu no Rio, em Natal, em Brasília. Embora
dedique a maior parte de seu tempo ao Memória Viva, trabalha num portal
particular para tirar seu sustento. "O Memória Viva nunca teve patrocinador,
não cobra por acessos", diz o jornalista, cuja coleção tem cerca de
9.000jornais e revistas. "O site surgiu da constatação de que a web
brasileira,
assim como o próprio país, não costuma preservar sua memória."

No início, a página reunia biografias de personalidades da história e da
cultura do país. O trabalho com a imprensa só começou em 2002. "Quando
precisei de fotos de Juscelino Kubitschek, tive a oportunidade de ter em
mãos 40 edições da revista "O Cruzeiro". Em pouco tempo estaria no ar um
setor voltado exclusivamente para a revista. Em 2005, o site foi vencedor do
Prêmio Ibest de Arte e Cultura e hoje recebe cerca de 2.000 visitas diárias.


DIREITOS AUTORAIS

Para disponibilizar "O Pasquim", Fortunato procurou os colaboradores e pediu
a liberação do material; mas e quanto à revista "O Cruzeiro"?

"Até hoje existe briga na família do [Assis] Chateaubriand pela fortuna dos
"Diários Associados", da qual "O Cruzeiro" fazia parte. Mas a coisa é ainda
mais complicada: quando vou publicar uma matéria, o direito é de quem
escreveu ou do jornal que publicou? Em relação às fotos, tem o direito do
fotógrafo, do veículo e de quem aparece. Ou você faz como eu fiz --vai
colocando no ar-- ou então não faz nunca.

"Fortunato argumenta que seu trabalho é de interesse histórico e sem fins
lucrativos. "Se alguém se achar ofendido ou pedir para não publicar algo,
tiro do ar na hora", diz, fugindo da encrenca judicial --nunca foi
processado. "Em geral, acontece o contrário: muitos fotógrafos da época
entraram no site e ficaram fascinados: "Puxa, obrigado, alguém prestou
atenção e preservou no nosso trabalho".


"BIBLIOTECAS" SIMILARES

Se ainda são muito raras iniciativas como as do Memória Viva, pouco a pouco
a internet começa a receber outros sites que ajudam a mapear história do
Brasil por meio de sua imprensa e de suas publicações.

Um dos melhores exemplos é o site Rio Através dos
Jornais<http://www2.uol.com.br/rionosjornais>,
que percorre eventos da história do Rio de Janeiro, entre 1888 e 1969,
contados na íntegra, pela ótica de 62 diferentes jornais da época.

Recentemente o Cebrap <http://www.cebrap.org.br/> (Centro Brasileiro de
Análise e Planejamento) colocou na rede a coleção de sua célebre revista
"Novos Estudos", publicação que marcou a história intelectual do Brasil a
partir de 1981. Assim, no site do centro é possível acessar artigos dos
críticos Roberto Schwarz e Antonio Candido, do sociólogo Francisco de
Oliveira e dos economistas Celso Furtado e Paul Singer, entre outros. A
leitura da íntegra dos textos, porém, só é permitida aos assinantes, ao
custo de R$ 45 anuais.

O Banco de Dados da Folha gerencia a página
Almanaque<http://almanaque.folha.uol.com.br/>,
em que é possível acessar textos históricos do jornal e galerias de fotos
antigas, ordenadas por assunto.


--
Jonathan Pereira
http://oserbibliotecario.blogspot.com
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