Fonte: http://leialivro.sp.gov.br/texto.php?uid=13571

Livro custa caro (também para as editoras)
22/01/2007

A historinha é simples e sugere reflexões. Foi
assim... 

Em maio de 2004 a Editora Papagaio recebeu um “zémeio”
da bibliotecária da Faculdade São Luiz. Pra quem não
sabe, a São Luiz é uma das “faculdadonas" do país. Tem
mais de 58 anos, está instalada em prédio próprio,
grande, majestoso, em plena Av. Paulista, e dá aula
para boa parte da elite paulistana nas áreas de
administração, ciências contábeis e ciências
econômicas. Cobra bem e é tida como faculdade de rico.

Muito bem, mesmo assim a bibliotecária mandou seu
singelo “zémeio” pedindo.... livros. Isso mesmo, que a
modesta Editora Papagaio doasse livros para ajudar a
biblioteca da poderosa faculdade e assim atendesse o
desejo dos alunos que cobravam títulos fora das áreas
técnicas, especialmente literatura.

O primeiro impulso foi simplesmente desprezar a
mensagem. Mas respondi afirmando que a editora não faz
doações. E se o fizesse seria apenas para faculdades
públicas brasileiras, carentes de verbas e sofrendo
eterna crise financeira. Afirmei ainda que caberia ao
corpo dirigente da São Luiz destinar verbas
suficientes para ampliar o acervo de sua biblioteca.

A bibliotecária ainda retrucou, discordando, e
contando que sabia que doar livros era uma prática das
editoras, portanto... não custava pedir.

Mantive a negativa e encerrei a conversa. Mas a partir
desse episódio lembrei de outra história, atribuída à
famosa atriz Cacilda Becker que tinha por princípio
não distribuir convites para seus espetáculos e
justificava:

– Não posso dar de graça a única coisa que sei fazer.

E outra ainda, de Carlos Lacerda, ele mesmo, O Corvo
da política brasileira e fundador da editora Nova
Fronteira. Certa vez, depois de deixar o mercado
financeiro, Lacerda encontrou seus antigos
companheiros de finanças, e ouviu de um deles a queixa
de que não tinha recebido nenhum livro de presente da
nova editora. Ao que Lacerda respondeu:

– Engraçado, eu também não ganhei nenhuma letra de
câmbio de vocês...

Assim é. Todo mundo pode pedir doações para as
editoras, afinal, o pedido “é para divulgar a
literatura, a cultura”, e por aí vai. E dá-lhe pedidos
de jornalistas, escritores, igrejas, ONGs,
bibliotecas, penitenciárias, associação de amigos de
bairro, cursinhos e por aí afora. Uma festa!

Por que será que essas mesmas entidades não pedem um
carro zerinho pra Volks quando ela lança um novo
modelo? Por que não um apartamento pra Coelho da
Fonseca em um novo empreendimento? Ou um “quarto
completo” pras Casas Bahia?

Será que se eu fechar a Papagaio e abrir um bar muita
gente vai pedir um trago de graça? Ou vai aparece
alguma entidade pedindo uma porção de queijo com um
pouquinho de azeite e uma pitada de orégano?



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