Política de C & T :: Avaliação
Academias da internet
O Brasil tem boa colocação no ranking das universidades que sabem
divulgar sua produção na web
Fabrício Marques
Revista Pesquisa Fapesp
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3190&bd=1&pg=1&lg=
Para ser realmente considerada boa, uma universidade deve disponibilizar
ao público a sua produção acadêmica através da internet. Este conceito
provocativo norteia um ranking mundial de instituições de nível superior
criado pelo laboratório Cybermetrics, do Centro de Informação e
Documentação (Cindoc) do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha
(CSIC). Nesta classificação, lançada pela primeira vez em 2004 e
atualizada a cada seis meses, levam-se em conta o volume, a visibilidade
e o impacto do conteúdo científico abrigado nos domínios da web de cada
universidade.
A lista das universidades boas de internet reitera a dianteira das
instituições norte-americanas, mas Harvard, a número 1 do mundo nos
rankings mais consagrados, aqueles publicados pelo jornal inglês The
Times e pela universidade chinesa Shangai Jiao Tong University, aparece
apenas na terceira posição, superada pelo Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT) e pela Universidade Stanford. Já a situação das
universidades européias é francamente desfavorável – resultado da
escassa preocupação em divulgar na rede sua prolífica produção
científica. A maior discrepância atinge as universidades francesas. A
Universidade Claude Bernard Lyon 1 é a instituição da França que aparece
em melhor posição na lista do Cybermetrics – e está num desvantajoso
298º lugar. Já a École Normale Supérieure, 18a posição no ranking do The
Times, despenca para 334º lugar na classificação do laboratório espanhol.
No vácuo aberto pela Europa, sobrou espaço para países como o Brasil. A
Universidade de São Paulo (USP), em 97º lugar, e a Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), na 190ª posição, aparecem na lista do
Cybermetrics mais de cem postos à frente de suas colocações no ranking
da Universidade Shangai Jiao Tong. O zelo com que cuidam de seus
domínios na web ajuda a entender a boa colocação. A Unicamp, por
exemplo, determinou que as referências à instituição em páginas pessoais
e em trabalhos dos docentes fossem padronizadas para facilitar a tarefa
dos ranqueadores. “Mas a questão mais relevante é que a nossa produção
científica está fortemente vinculada aos melhores periódicos e a maior
parte deles está na internet”, diz o pró-reitor de Pesquisa da Unicamp,
Daniel Pereira.
Parte significativa dos pesquisadores da Unicamp criou pessoais em que
divulgam suas atividades acadêmicas. A universidade não apenas dá
suporte à iniciativa, como está tentando tornar mais visíveis e
acessíveis essas páginas. Uma experiência está em curso na página da
Pró-Reitoria de Pesquisa, com a criação de um link para “redes temáticas
virtuais na Unicamp”. Tais redes nada mais são do que listas de
pesquisadores e de suas páginas pessoais envolvidos em grandes áreas de
pesquisa como nanotecnologia, bioenergia, saúde pública e tecnologia de
informação, entre outras. Queremos dar visibilidade aos pesquisadores
dessas áreas para identificar novas parcerias e oportunidades”, diz
Pereira. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é outro
destaque positivo. Desponta como a terceira instituição brasileira no
ranking, em 281º lugar na classificação geral. “A internet nasceu cedo
em nossa universidade e logo todos os laboratórios, grupos e subgrupos
de pesquisa tinham suas homepages vinculadas à da instituição”, diz o
vice-reitor da UFSC, Ariovaldo Bolzan. “Fomos a primeira instituição a
disponibilizar todas as teses em formato pdf, isso lá pelos idos de 1999.”
Ferramentas – O índice obtido pelas instituições resulta da ponderação
de quatro fatores. Um deles é a quantidade de páginas da instituição
identificadas por quatro grandes ferramentas de busca. O segundo envolve
a visibilidade e avalia o número de links externos que remetem à página
da universidade. O terceiro mede a produção acadêmica avaliando o número
de arquivos word, pdf, powerpoint e postscrip, um sintoma da
disponibilidade na web de teses, seminários e apresentações. Por fim,
recorre-se à ferramenta Google Scholar para saber o número de artigos
científicos da instituição disponíveis na web em publicações eletrônicas
de acesso aberto. Harvard foi a primeira apenas no quesito do Google
Scholar, sendo superada pelas rivais nos três primeiros fatores.
A metodologia, naturalmente, não rivaliza com a dos rankings
convencionais, aqueles que efetivamente auferem a consistência acadêmica
da instituição ao contemplar variáveis como a existência de vencedores
do Prêmio Nobel, o impacto dos artigos científicos e a opinião de
acadêmicos. “Duas grandes instituições inglesas, a Universidade de
Manchester e o Imperial College, aparecem em situação muito
desfavorável, apesar da alta qualidade de sua produção acadêmica”,
observa Daniel Pereira, da Unicamp. “É interessante estar bem colocado
no ranking cybermetrics, mas nosso objetivo continua a ser o de estar
entre as cem melhores do mundo – nos rankings tradicionais”, afirma.
Os responsáveis pelo laboratório Cybermetrics dizem que sua intenção não
é desvalorizar universidades consagradas. “Se o desempenho de uma
instituição está abaixo da posição esperada de acordo com sua excelência
acadêmica, seus gestores devem reconsiderar a política em relação à web
e melhorar a qualidade e a quantidade de suas publicações eletrônicas”,
afirma Isidro Aquillo, um dos pesquisadores que fazem o ranking. “Nosso
objetivo é apenas dar uma motivação extra para pesquisadores de todo o
mundo publicarem conteúdo científico na web em maior abundância e
qualidade”, diz.
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