As residências da memória
A densidade dos ritos de informação corresponde a
qualidade do saber acumulado na memória.
Representa um conjunto de atos contínuos, que se
acrescentam no tempo; obras pelo qual o indivíduo
reelabora o seu mundo modificando o seu
espaço,uma criação em convivência com o passar do tempo.
A densidade da memória é agregativa e aderente e
não se separa do todo de uma qualidade
conquistada. Isto é o que faz ser, completamente
diferente, o pensar de um homem de cinqüenta anos e de outro de cinco anos.
A interatuação do sujeito, com os seus estoques
de memória, potencializa o espectro temporal de
seu destino indicando que existem tempos
distintos para configurar as moradas da memória e
uma esperança de que esta memória depois de
formalizada possa transformar as realidades existentes.
Deriva daí a importância das residências da memória.
No tempo do computador pessoal dizemos: vou
entrar em um arquivo indicando a idéia de viagem
e permanência no local da informação e esta
possibilidade de ingresso mostra a
circunstância de serena espera da memória para possibilitar uma ação maior.
Entrar em um arquivo é desvendar castelos em
labirinto onde o viajante não pode
nunca olhar de cima para baixo, como um ser
avoante e ver as tramóias e os os caminhos
certos para a informação desejada. Há que se
percorrer todas as alamedas para conhecer o labirinto da memória.
Estes arquivos potencialmente armazenados em
estoques acumulam-se exponencialmente em
estruturas que lhe servem de repositório. Mesmo
com filtros naturais na entrada para limitar
qualitativamente o crescimento do estoque, a
coisa toda poderá tombar devido ao seu próprio
peso, a menos que se modifiquem, pelo
deslembramento, as proporções relativas da
estrutura em relação ao seu conteúdo.
O estoque de memória nos traz à imaginação
questões da memória e do esquecimento. É
necessário domiciliar parte de nossa memória para
abrir espaço. Pensamos, então, na condição do não
esquecimento das memórias clandestinas, ocultas
por razões sociais de certa contemporaneidade e
por isso não conseguem um domicílio instituído, o
que possibilitaria o esquecimento.
Não podemos treinar a deslembrar como treinamos o
aprimorar de nossa memória. Mas o esquecimento é
uma qualidade da memória, que a preserva e a
mantém saudável. Nossa memória funciona, e só
funciona porque nos é dada esta capacidade do esquecimento.
A mente humana, quando em seu sentido de justiça
tem a irracionalidade dos fantasmas, que
assombram e afastam uma realidade falsamente construída.
As Memórias clandestinas por pressão ou opressão
não podem ser esquecidas e precisam ser
recontadas como uma lenda. Como a lenda as
lembranças clandestinas tem um percurso de passos
delirantes sem destino certo e explicações
fáceis: é como um percorrer de labirintos de medusas entrelaçadas.
Lenda porque, nestas memórias emaranhadas,
versões se agregam pela narração de diferentes
indivíduos seguindo caminhos alternativos e com
diferentes intenções. Memórias clandestinas são
lendárias, pois, qualquer seja o seu núcleo de
intenção, representarão sempre a soma do que
delas se diz de acordo com os diferentes enunciados.
Aldo de A Barreto
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obs.:
Acima esta' uma parte prefácio que fiz para o
livro Memorias Clandestinas e sua Museificação de Ana Lucia Siaines..
As memórias clandestinas, contudo, estão
presentes em nosso dia a dia, quando por
diferentes motivos, modificamos a realidade
existida, para conta-la como uma lenda, com
atributos heróicos de caráter maravilhoso, do
agrado dos interesses individuais, por pequenos que sejam.
(AAB)
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Enquanto o leão não escrever a sua versão a
memória da caçada exaltará ao caçador
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