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Assunto: [Cegos] Divulgação/Gisele Pecchio
Livro acessível é problema de todos nós
Está na hora de parar de jogar nas costas do Estado e dos governos a solução
que passa pelo comprometimento individual de todos os cidadãos.
- Seria motivo de alegria para você saber que uma criança cega conseguiu
comprar um livro seu, numa livraria?
- A criança sim é que teria motivo para se alegrar, não eu.
A pergunta é minha e a resposta é de um dos maiores nomes da literatura
brasileira. Não citarei quem é por respeito à sua obra e por considerar o
episódio um momento infeliz. E quem jamais passou por isso? Só quem nunca
praticou a palavra. Hábil no arranjo das mesmas, depois de reorganizadas elas
foram apresentadas assim:
- Bem, claro que me alegraria, mas esse assunto é problema do governo.
O Lula não comprou um único livro meu. O projeto desse governo é diferente. O
Fernando Henrique distribuiu 70 milhões de livros, mas esse governo pensa
diferente. Eu penso que isso que você pergunta, sobre as crianças excepcionais,
é para o governo resolver.
O silêncio se fez durante alguns segundos, enquanto eu procurava nos
olhos do público algum comprometimento com o assunto trazido à luz das velas
arranjadas sobre as mesas, um leve toque romântico para aquecer a noite
dedicada à famosa personalidade do mundo das letras. Antes, meus olhos
procuraram nos olhos da personalidade um brilho de entusiasmo pelo tema. Não
encontrei. Uma outra pergunta salvou a personalidade de refletir sobre o abismo
que separa os não videntes do mundo dos livros e das letras.
Foi perguntado quais os livros lidos pela personalidade que mais a agradaram. A
resposta foi a citação de vasta bibliografia, desde a infância, começando por
Monteiro Lobato, lido até perto dos treze anos, passando pela adolescência e
juventude, quando surgiu o encantamento pelos autores franceses. Um lapso na
memória lhe fez esquecer o nome de uma obra de Marcel Proust. Um assessor veio
em seu socorro e completou: "Em busca do tempo perdido"? Uma providencial
ajuda, retribuída com largo sorriso de confirmação. Sobre os livros lidos nos
dias de hoje, foram enumerados alguns títulos, entre eles a biografia do
ex-presidente do Brasil, FHC, citado três vezes pela ilustre fala. No final da
longa e metódica resposta, percebi sutil melancolia após uma pausa para
respirar.
Depois de tantas citações bibliográficas, o desejo de retomar a prosa sobre o
formato acessível havia ficado no passado. Ninguém ali, fora eu, parecia estar
interessado nesse papo. O público queria o de sempre: saber sobre como se dá o
processo de criação de um bom texto literário, sobre os títulos e autores
favoritos.
A intenção da pergunta foi suscitar a reflexão de um grande nome da literatura
brasileira para uma questão de interesse de mais de um milhão de brasileiros
cegos e de cinco milhões de pessoas com baixa visão, em todo o Brasil. Fora os
pais e mães que lutam todos os dias para vencer os obstáculos da exclusão e da
falta de livros em formato que possibilite aos seus filhos ler com autonomia.
Percebi na resposta dada à minha pergunta o quão distante de parte
importante da realidade estão algumas personalidades, tão envolvidas com a
produção, divulgação e sucesso de suas criações, inclusive junto ao lobby
governamental, capaz de garantir atraentes números na tiragem de livros
vendidos. Pude entender como se sentem os famosos quando são preteridos por
esse ou por aquele governo, restando-lhes, de tempos em tempos, a competitiva
sobrevivência no mercado.
Após quatro anos de aprendizado livre, editando os meus próprios livros,
escrevendo para todos, percebo o quão feliz sou por não precisar atribuir ao
governo ações que também são de minha própria responsabilidade. Como é bom ter
a certeza de que meus livros não estão estocados em armários de escolas
públicas, como algumas vezes flagrei obras de autores famosos, de fino
acabamento, compradas pelo governo, sem jamais cumprir o seu destino nas mãos
de professores e alunos. Gisele Pecchio é jornalista e autora dos livros Um par
de asas para Toby e Toby e os Mistérios da Floresta, pioneiros no formato
acessível para crianças, à venda nas lojas da Livraria Cultura ou pelo site:
www.livrariacultura.com.br
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