O mito de Sísifo e o Portal da Capes, artigo de Luiz Eugênio Mello
Fonte: Jornal da Ciência Online
URL: http://www.jornaldaciencia.org.br:80/Detalhe.jsp?id=53416
"Assim também nós, cientistas brasileiros, parecemos eternamente
condenados a cada ano ter que resolver questões que poderiam ter soluções
mais duradouras"
Luiz Eugênio Mello é presidente da Federação de Sociedade de Biologia
Experimental. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail":
A comunidade científica acaba de comemorar a renovação do acesso ao
Portal de Periódicos, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC). Este instrumento fundamental para a
pesquisa e desenvolvimento cientifico e tecnológico do país é por muitos
dado como uma certeza. Para o núcleo da comunidade cientifica seus
benefícios são tão evidentes que sequer se cogita um Brasil sem acesso a
este recurso.
O Portal dá acesso livre e gratuito a mais de 11 mil revistas
nacionais e internacionais para cerca de 160 instituições de pesquisa.
Realidade bastante diferente de 15 anos atrás quando o acesso a coleções era
ainda em papel, além das longas horas de espera por uma fotocópia ou semanas
entre a solicitação da separata e sua remessa pelo correio.
Essa certeza na renovação do acesso, por outro lado, só a tem aqueles
que desconhecem os escuros corredores de Brasília e, sobretudo, a estreiteza
da sempre famigerada área econômica. Assim, todos os anos, desde sua criação
em 2000, o Portal de Periódicos da Capes passa pela ameaça de
descontinuidade.
É certo que todos e quaisquer investimentos devam ser avaliados de
forma rotineira e assim definida sua manutenção ou extinção. Entretanto,
imaginemos um estudante que tivesse a cada ano fazer um novo vestibular para
definir se permanece na universidade ou é substituído por um outro. O
absurdo dessa situação é em tudo análogo ao absurdo de termos que, a cada
ano, ao invés de uma contratação duradoura, ter que renovar a vigência do
Portal.
Seria possível vivermos sem este recurso? O movimento pelo acesso
livre (o Portal representa o acesso às coleções pagas) é certamente uma
iniciativa louvável e merece todo o apoio. Mas o mundo é ainda dominado pelo
acesso pago que representa a expressiva maioria das coleções de periódicos.
Caso o Brasil oferecesse exclusivamente o acesso às publicações de
domínio público (acesso livre) e, portanto, não pudéssemos contar com o
acesso pago (como o mediado pelo Portal), teríamos em nosso país uma ciência
limitada. A base da ciência de qualidade definida pelo amplo acesso a
informação ficaria gravemente comprometida.
Faríamos ciência de terceiro mundo e não a ciência que almejamos, de
alta qualidade, relevância e significado. Por isso tudo, devemos saudar a
renovação do Portal de Periódicos pela Capes.
Mas, este Portal nos atende? Certamente ajuda muito. Mas é lamentável
que não seja maior. Por que não podemos acessar fascículos publicados há
mais de 10 anos? A limitação do acesso às coleções em termos do tempo
poderia ser minorada. Isto tem um custo? Certamente tem. Mas o governo
poderia definir de fato que dá prioridade ao investimento em C&T e investir
de fato nos instrumentos que importam para esse fim.
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