Sobre o Chimpanzé, palavras e pensamentos
Em relação ao chimpanzé, ela se chamava Lucy e
era do Quênia. Fora adotada por um casal de
biólogos ingleses, que a pegaram ainda bebê,
depois a criaram dentro de casa como se fosse
humana e lhe ensinaram a linguagem dos surdos
mudos, o que, aliás, não é nada extraordinário,
porque muitos primatas já aprenderam a entender e usar esse código gestual.
Passaram-se assim muitos anos, talvez quinze ou
vinte, e os biólogos se aposentaram e tiveram que
voltar para Londres. Era impossível levar Lucy
consigo, de maneira que a deixaram num zoológico.
Anos se passaram. Certo dia um professor de
crianças deficientes que passava as férias na
África foi visitar o jardim zoológico e deu com
um chimpanzé agarrado às barras da jaula e
fazendo gestos absurdos e frenéticos dirigidos a
qualquer um que estivesse por perto.
O professor, curioso, também se aproximou; e
ficou paralisado quando percebeu que entendia o
que o animal estava dizendo. Era Lucy que, na
linguagem dos surdos-mudos, que pedia desesperadamente a todo mundo:
"Tirem-me daqui, me tirem-me daqui, tirem-me daqui...".
O traumático nem sempre é aquilo que faz ruído,
mas sim o que fica mudo. E, lá do silêncio, faz ruídos.
O Controle político das palavras, não é
compreensível, principalmente, para se
determinar por decreto como as pessoas devem ou
não escrever ou falar. Pois, além, pela própria
articulação entre palavra e pensamento, o
objetivo é impor o que elas devem ou não pensar.
E, lá do silêncio que faz ruídos, que vem um
projeto de lei que trata da promoção, proteção e
defesa da língua portuguesa de autoria de
um deputado federal . A proposta tramita há
oito anos no Congresso, mas foi aprovada por
unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça
e de Cidadania da Câmara em meados de dezembro 2007.
O projeto de lei determina ao Poder Público a
tarefa de promover, difundir e valorizar a língua
portuguesa, adotando medidas para melhorar as
condições de ensino e de aprendizagem da língua".
Mas a lei também quer combater os estrangeirismo
e traduzir todas as palavras em outros idiomas
para o português, isso em toda comunicação
dirigida ao público . A regra vale para peças
publicitárias, relações comerciais, meios de
comunicação de massa e informações afixadas em estabelecimentos comerciais.
"Controlar palavras é controlar pensamentos"
O silencio do conhecimento é o silêncio da
incomunicação uma terrível desarmonia entre
discriminar a palavra além de do seu problema de
linguagem para coloca'-la sob exigência de um patrulhamento do Estado .
Aqui, ora pois , o português já foi o
conquistador e ele, é derivado do latim, do
outro conquistador romano e salpicado pelo árabe
do conquistador mouro. Isso lembra, muito, a
história do século 18, quando o naturalista
alemão Humboldt foi a Venezuela encabeçando uma
expedição científica. Em determinado momento da
viagem, chegaram à aldeia dos índios Atures e
descobriram que ela havia sido incendiada até os
seus alicerces pelos agressivos índios Caribes.
Os restos dos Atures já começavam a ser cobertos
pela selva. Buscaram e buscaram, mas não havia
sobrevivente algum.Só encontraram um aturdido
papagaio de cores brilhantes que vivia entre as
ruínas e repetia uma e outra vez longos
discursos numa língua incompreensível. Era a
língua dos Atures, mas não restava mais ninguém
que a entendesse. O patrulhamento cessou a palavra.
Mexer, por um decreto, nas palavras com que um
povo fala é controlar o conhecimento e sua
apropriação. O que faz ruído, não é o problema da
palavra e sim o que fica mudo.
(AAB)
Fonte: texto de Arthur Dapieve no segundo caderno
de O Globo de 11.01.08, pg.11 e O Silencio da
Informação, capítulo do Livro de Rosa Montero, A
louca da casa, Ed. Ediouro 2003. ["a imaginação é
a louca da casa" dizia Santa Tereza de Jesus ]
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