"Ceci tuera cela" - "isto vai matar aquilo"
Salas enormes, estantes repletas de livros,
leitores em busca de cultura sob a forma de
obras de papel. O cenário romântico não é mais
realidade para a maioria dos americanos, é o que
diz uma pesquisa publicada em 2008 pela Pew Internet & American Life Project.
Segundo dados levantados pela consultoria, mais
da metade dos americanos visitaram uma biblioteca
em 2007. A grande questão é que, ainda de acordo
com o estudo, todo esse pessoal foi atraído pelos
computadores disponíveis nas bibliotecas, e não apenas pelos livros.
O fenômeno se dá pelo surgimento, de uma nova
geração formada por jovens de 18 a 30 anos
aficionados por tecnologia. Nos EUA, as
bibliotecas há tempos deixaram de ser, o que o
presidente da nossa Biblioteca Nacional chama
de estoque de livros. Lá, as bibliotecas já são
mediatecas, ou seja, lugares públicos onde são
oferecidas várias formas de acesso à cultura, não apenas os livros em papel.
Temos um problema de livrarias e de escoamento de
livros,diz o diretor da BN. Em 2007, foram
comercializados no Brasil 310 milhões de livros;
destes, 185 milhões, sessenta por cento, foram
subsidiados pelo governo. Ou seja, aqui, não
basta informatizar as bibliotecas, tem que criar
uma cultura livresca. "O livro perdeu a
centralização simbólica, não é mais o único
veículo transmissor de cultura. As novas formas
de leitura são plurais e válidas".
Já para Umberto Eco:
"As bibliotecas, ao longo dos séculos, têm sido o
meio mais importante de conservar nosso saber
coletivo. Foram e são ainda uma espécie de
cérebro universal onde podemos reaver o que
esquecemos e o que ainda não sabemos.
[...] Livros pertencem a essa classe de
instrumentos, que, uma vez inventados, não foram
aprimorados porque já estão bons o bastante, como
o martelo, a faca, a colher ou a tesoura."
E vai além: "Segundo Platão, em "Fedro", quando
Hermes - ou Thot, o suposto inventor da escrita-
apresentou sua invenção para o faraó Thamus, este
louvou tal técnica inaudita, que haveria de
permitir aos seres humanos recordarem aquilo que, de outro modo, esqueceriam.
"Meu habilidoso Thot", disse o Faraó, "a memória
é um dom importante que se deve manter vivo
mediante um exercício contínuo. Graças a sua
invenção, as pessoas não serão mais obrigadas a exercitar a memória. "
Estava errado: A escrita não acabou com a memória:
"Livros desafiam e aprimoram a memória; não a
entorpecem. No entanto o faraó dava testemunho de
um temor eterno: o temor de que uma nova proeza
tecnológica pudesse matar algo que consideramos
precioso e frutífero." "Ceci tuera cela"
"Mais tarde, Victor Hugo, em seu romance "Nossa
Senhora de Paris", narrou a história de um padre,
Claude Frollo, que olhava tristonho para as
torres da sua catedral. A história de "Nossa
Senhora de Paris" se passa no século 15, após a
invenção da imprensa. Uma catedral medieval era
uma espécie de programa de tevê permanente e
imitável, destinado a transmitir às pessoas tudo
o que era indispensável para a sua vida
cotidiana, assim como para a sua salvação eterna."
Agora, porém, Frollo tem sobre a sua mesa um
livro impresso e ele sussurra: "Ceci tuera cela"
- "isto vai matar aquilo" ou, em outras
palavras, o livro vai matar a catedral, o
alfabeto vai matar as imagens. O livro vai
desviar as pessoas de seus valores mais
importantes, vai incentivar informação supérflua,
a livre interpretação das Escrituras sagradas,
trazer uma curiosidade insana "
Nada disso aconteceu. O engano do estudo da Pew
Internet e da reflexões sobre estoques de livros
do diretor da biblioteca é o curto prazo; o
tempo cotidiano nas previsões e
postulações.Previsões de curto prazo para o
saber e seus instrumentos de registro tem a irracionalidade dos fantasmas.
Fontes: Umberto Eco, Muito Alem da Internet,
palestra na Biblioteca de Alexandria em dezembro
de 2003; 2) jornal O Globo, Info, etc., pp. 3,
14.01.2008, "A Hora das Mediatecas."
Pew Internet & American Life Project.
http://www.pewinternet.org/pdfs/Pew_UI_LibrariesReport.pdf
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