Fonte:
http://www.idelberavelar.com/archives/2008/01/blogofobia_tangueira.php
(links para outros textos mencionados lá)

Blogofobia tangueira

Enquanto eu estava de férias, o pau comeu na
blogosfera argentina. Foi o maior barraco da história.
Naturalmente, dele não se teve notícias nos blogs
brasileiros. Muro de Tordesilhas véio de guerra. A
história já é antiga – coisa de um mês atrás, em
blogs, é pré-história. Mas vale a pena acompanhar,
porque diz muito sobre a reação dos jornalões às novas
plataformas de publicação.

Quando um jornalão brasileiro quer destilar o seu
ressentimento pela queda do público leitor e a perda
de espaço para as novas mídias, ele contrata a agência
Talent, que faz uma campanha comparando blogueiros a
macacos. Quando um jornalão argentino – o Clarín –
quer fazer o mesmo, quem se encarrega da tarefa é um
ensaísta da estatura de Horacio González, diretor da
Biblioteca Nacional, que assina, sob o título “Os
blogs não tem futuro”, uma incrível, bizarra e barroca
diatribe contra os blogs. As reações na blogosfera
argentina foram sensacionais e muito bem humoradas.
Vamos por partes.

De todas as “eras douradas” que os nostálgicos gostam
de dizer que foram destruídas pelos blogs, a escolhida
por González é a mais insólita: a época da carta do
leitor ao jornal, que aparece em seu artigo como uma
espécie de era de ouro da democracia! Sério, é isso:
El género de la carta del lector nació con el
periodismo mismo y postulaba un ejercicio superior de
ciudadanía –la enmienda, la queja, la reescritura, la
rectificación, la protesta–, así como exigía del
periodismo el trabajo con un incipiente derecho a
réplica o con perspicaces elaboraciones de un lector,
que si pasaba el cedazo riguroso de la redacción
estable de un diario, era una señal de fuerte opinión
editorial proveniente de la sociedad civil.

Essa era a idade de ouro, em que a voz dos leitores
encontrava o ilustre cantinho do painel das cartas –
cuja publicação, evidentemente, ficava e fica a cargo
do jornal. A barbárie atual, segundo González? É esta:
Cuando en los últimos tiempos se invita a la opinión
en el gran "blog" en que se está convirtiendo el mundo
digital de la información, se desata una interesante
pero al mismo tiempo borrosa disentería de escritos de
rigor espontaneísta: Esos escritos quizás prometen una
futura revulsión artística en la lengua, pero por
ahora la desarticulan con banales juegos de
irreverencia y pseudos-vandalismo. O texto de González
defende essa estranha tese: os blogs podem, um dia,
revolucionar a linguagem. Mas por enquanto então
“desarticulando-a” e pondo fim ao exercício
democrático do sujeito que ponderadamente enviava
missivas ao jornal como um ato de cidadania.
Reclamando do mundo em que qualquer um pode escrever,
González cita o famoso tango de Discépolo: cualquiera
es un bacán, cualquiera es un señor. Se usasse o
Google, González saberia que sua citação está errada.
O que disse o ilustre tangueiro foi cualquiera es un
señor, cualquiera es un ladrón, erro de citação que
não deixa de ser uma bela ironia no contexto do
artigo.

Estamos na época da disolución del perfil autoral y la
responsabilidad del multi-secular sujeto escribiente,
lamenta González. Os blogs seriam a disenteria verbal,
as rufadas de espontaneísmo, a barbárie da opinologia:
quanto mais retorcida a linguagem, mais visível o
ressentimento. Lendo uma coisa dessas, assinada por
ninguém menos que o diretor da Biblioteca Nacional da
República Argentina – instituição que foi dirigida por
Jorge Luis Borges, grande precursor da internet –, não
dá para deixar de pensar: do que esses intelectuais
têm tanto medo?

As reações da blogoseira foram várias: fazendo uma
gozação com a retórica de González, La barbarie
ofereceu uma tradução do texto, frase por frase;
acertando na mosca, Últimas de Babel lembrou que quem
fala sobre “os blogs” em geral, é porque não sabe do
que se trata; no excelente blog coletivo Nación
Apache, Julio Zoppi fez uma análise do ressentimento e
do susto que movem essas diatribes; no Lectora
Provisoria, que fez seu primeiro aniversário no sábado
passado, Juan Villegas pegou pesado; o Hipertextos
tomou o mote “os blogs não tem futuro” e colocou-o ao
lado de outras previsões furadas do passado;
finalmente, o indispensável Tapera demonstrou que a
idade de ouro da carta ao jornal não era tão de ouro
assim.

Minha opinião? As respostas deles a González deram de
10 x 0 nas nossas respostas ao Estadão. Mais um
capítulo, pois, da blogofobia. Vida que segue.




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