JC e-mail 3483, de 03 de Abril de 2008.
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=55239
2. Acesso Livre + Portal de Periódicos da Capes = maior acesso à
informação científica, artigo de Hélio Kuramoto
“É importante ressaltar que as iniciativas do acesso livre ao
conhecimento científico e do Portal de Periódicos da Capes são, na
realidade, complementares”
Hélio Kuramoto é PhD em Ciências da Informação e da Comunicação e
coordenador-geral de Pesquisa e Manutenção de Produtos Consolidados do
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict -
[EMAIL PROTECTED] e http://kuramoto.wordpress.com/). Artigo enviado pelo
autor ao “JC e-mail”:
Houve, algum tempo atrás, uma discussão sobre se as iniciativas do
acesso livre ao conhecimento científico seriam antagônicas ao Portal de
Periódicos da Capes, ou mesmo essas iniciativas acabariam com o Portal
de Periódicos da Capes e, portanto, se ambas as iniciativas seriam
excludentes. Ora, tratou-se de uma discussão tola e inútil: nada
acrescentou e apenas mostrou a ignorância a respeito do movimento do
livre acesso ao conhecimento científico, colocando ambas as iniciativas,
inexplicavelmente, em lados opostos.
A manutenção do Portal de Periódicos da Capes é inquestionável, uma vez
que a construção e manutenção desse portal são um dos maiores
empreendimentos realizados no âmbito da informação científica no Brasil.
A inexistência desse portal simplesmente enfraqueceria e inviabilizaria
a pesquisa científica no país. É, portanto, um avanço indiscutível e que
deveria ser blindado contra qualquer ação que objetive a sua exclusão.
É importante dizer que existem, no mundo, segundo estimativas
apresentadas por Stevan Harnad, cerca de 25 mil periódicos científicos,
incluindo revistas e anais de conferências, que possuem revisão por
pares. Essas revistas publicam, anualmente, em média 2,4 milhões de artigos.
O movimento do livre acesso ao conhecimento busca tornar esses 2,4
milhões de artigos disponíveis livremente à comunidade científica, por
intermédio de duas vias: ouro e verde.
A chamada via ouro é caracterizada pela construção e manutenção de
revista de livre acesso. Ou seja, o usuário tem acesso, livre de custos,
aos artigos publicados por essas revistas.
É importante lembrar que, no Brasil, existem diversas iniciativas que se
enquadram nessa via. Exemplos:
1) Scielo;
2) revistas implementadas por meio da utilização do software SEER
(Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas) que são de livre acesso;
3) revistas que vierem a ser implantadas por intermédio da INSEER
(INcubadora de revistas do SEER).
O Scielo possui hoje cerca de 180 revistas científicas nacionais,
enquanto o software SEER, customizado e distribuído pelo Ibict, é
atualmente utilizado por cerca de 370 revistas nacionais.
A segunda via, a via verde, é representada pelas iniciativas que
promovem a criação de repositórios institucionais combinadas com o
estabelecimento de mandatos, que obrigam os pesquisadores a depositar
uma cópia do seu trabalho, tão logo selecionado para ser publicado por
uma revista científica.
No Brasil, existe um projeto de lei de nº 1120/2007 que determina a
todas as universidades públicas construir o seu repositório
institucional, tornando obrigatório que todos os pesquisadores de cada
universidade pública depositem uma cópia do seu trabalho após ser
selecionado para publicação em uma revista científica.
Esse projeto de lei, mais do que simplesmente implantar a via verde,
determina a criação de um comitê de alto nível para estudar, discutir e
estabelecer uma política nacional de acesso livre à informação.
Os benefícios dessa lei não se resumem somente a promover o acesso livre
à produção científica nacional, mas, também, dar maior visibilidade à
produção científica brasileira.
Além disso, a sociedade, de uma forma geral, poderá ter acesso aos
resultados das nossas pesquisas, assim como o governo poderá avaliar os
resultados dos seus investimentos em ciência, por meio da extração de
indicadores a partir desses repositórios. Esses indicadores servirão
para o planejamento da ciência no país. Portanto, esse projeto de lei
resgata um sonho antigo daqueles que militam na subárea da informação
científica e tecnológica: o registro e a disseminação da produção
científica brasileira.
Considerando que todas as iniciativas mundiais envolvendo a construção
de repositórios institucionais utilizam uma arquitetura baseada no
modelo de arquivos abertos, os nossos repositórios poderão agregar
registros de outros repositórios institucionais internacionais.
O modelo chamado arquivos abertos concebeu um modelo de
interoperabilidade que permite a integração de repositórios e arquivos
que utilizam os seus padrões.
Esse modelo se baseia em dois padrões principais: o Dublin Core, um
conjunto de metadados, e o protocolo OAI-PMH (Open Archives Initiative –
Protocol for Metadata Harvest), que permite a coleta de metadados em um
repositório institucional compatível com os padrões estabelecidos por
esse modelo.
Nesse modelo, existem dois grandes atores: os provedores de dados e os
provedores de serviços. Os provedores de dados são aquelas instituições
que mantêm um ou mais repositórios institucionais, local onde são
depositados os trabalhos dos pesquisadores filiados a essas instituições.
Os provedores de serviços são as instituições que fornecerem serviços de
informação com valor agregado, por meio da coleta dos metadados de
diversas instituições e de sua integração em um grande repositório
central. Um exemplo desse modelo é a Biblioteca Digital Brasileira de
Teses e Dissertações (BDTD).
A BDTD tem como provedores de dados as diversas universidades
brasileiras que se integraram a ela, hoje, cerca de 74 universidades.
Essa biblioteca tem como provedor de serviço o Instituto Brasileiro de
Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), órgão que mantém em seus
servidores a BDTD, que é construída por meio da coleta dos metadados das
teses e dissertações defendidas nas 74 universidades participantes da BDTD.
O acesso à BDTD nacional permite o acesso às teses e dissertações
defendidas em qualquer uma das 74 universidades, enquanto que o acesso
local a cada uma dos provedores de dados possibilita apenas o acesso às
teses e dissertações defendidas na respectiva universidade.
Diversos estudos estão sendo realizados com o propósito de avaliar o
impacto que essa informação depositada em repositórios institucionais de
livre acesso oferece comparativamente àquela impressa em revistas em
papel, portanto de acesso restrito.
Lawrence verificou em seu estudo, analisando artigos na área de ciência
da computação, que os artigos on-line tiveram 336% mais citações que um
artigo equivalente do mesmo autor publicado em uma revista impressa.
O artigo que relata essa pesquisa poderá ser lido por intermédio do
link: http://www.neci.nec.com/~lawrence/papers/online-nature01/
Estudos análogos têm sido realizados para avaliar o impacto do acesso
livre em outras áreas do conhecimento. Tim Brody verificou que, em todas
as áreas analisadas o incremento do fator de impacto variou de 25% a
300%, mas em nenhuma área do conhecimento essa comparação foi negativa,
quando considerado o fator de impacto de um artigo depositado em um
repositório de livre acesso em relação ao respectivo fator de um outro
artigo publicado na mesma revista e que não tenha sido depositado em um
repositório de livre acesso. Esses indicadores poderão ser vistos no
link: http://eprints.ecs.soton.ac.uk/10000/1/tim_oa.pdf
Esses exemplos mostram a medida do potencial desse novo modelo (modelo
de interoperabilidade + iniciativas do movimento do acesso livre ao
conhecimento científico) e a visibilidade que as tecnologias da
informação e da comunicação proporcionam a um trabalho publicado on-line.
Esses estudos mostram também que em um regime de acesso livre os artigos
são citados mais cedo do que aqueles publicados em revista em papel.
Portanto, verifica-se uma aceleração no desenvolvimento das pesquisas
científicas.
Voltando à discussão inicial, é importante ressaltar que as iniciativas
do acesso livre ao conhecimento científico e do Portal de Periódicos da
Capes são, na realidade, complementares. Isso é um fato, pois esse
portal dissemina cerca de 10 mil periódicos.
Portanto, menos da metade da quantidade de periódicos estimada por
Stevan Harnad. Contudo, cabe dizer que as iniciativas do movimento do
livre acesso estão ainda no início e, portanto, dificilmente contarão
com todos os 2,5 milhões de artigos anualmente publicados disponíveis
para acesso público.
Mas, deve-se frisar também que importantes universidades em todo o mundo
vêm aderindo a esse movimento por intermédio da construção de seus
repositórios institucionais e do estabelecimento dos seus mandatos de
autodepósitos. Essa informação poderá ser comprovada acessando-se o
sítio http://roar.eprints.org/. ROAR é o acrônimo de Registry of Open
Access Repositories.
Avaliando as iniciativas no mundo e os dados apresentados nesse sítio,
chegamos à conclusão de que não é possível desconsiderar as iniciativas
do movimento acesso livre ao conhecimento científico.
Verifica-se que países como os EUA, Inglaterra e a Alemanha, principais
centros editoriais científicos mundiais, colocam-se entre os maiores
hospedeiros de repositórios de livre acesso. O Brasil vem logo a seguir,
em quarto lugar, razão pela qual enfatizamos o nosso propósito de
continuar lutando pelo acesso livre ao conhecimento científico no Brasil.
Os resultados advindos das iniciativas de acesso livre, em todo o mundo,
permite concluir que são iniciativas sólidas e irreversíveis. No Brasil,
em particular, pode-se enumerar algumas iniciativas sólidas como o
Scielo, a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, o
Portal Oasis.Br, as revistas científicas que utilizam o SEER, BDJur e
BDComp, entre outros.
Finalmente, deve-se ressaltar que as iniciativas relacionadas ao acesso
livre complementadas com portais como o Portal de Periódicos da Capes,
representam maior acesso à produção científica mundial, em outras
palavras, à informação científica como um todo.
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