FOLHA DE S. PAULO
Carlos Eduardo Lins da Silva

em 10/6/2008

"Vidas marcadas para sempre", copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 
8/6/08.

"Uma mulher na Inglaterra passou por mastectomia, concordou em dar entrevista a 
um jornal e ter publicada sua foto em reportagem sobre câncer. Cinco anos mais 
tarde, um namorado fez busca sobre seu nome na internet, achou a reportagem, se 
aborreceu e desmanchou o namoro. Ela pediu ao jornal que retirasse da web o seu 
nome e a sua foto.

Um homem nos EUA se internou em clínica de reabilitação para alcoólatras e 
aceitou que seu nome e foto aparecessem em reportagem sobre recuperação de 
viciados em drogas. Três anos depois, recuperado, teve grande dificuldade para 
conseguir emprego porque empresas faziam busca de seu nome na internet e 
desconfiavam dele.

Estes são dois exemplos recentes de um dilema com que jornalistas e empresas de 
comunicação têm se defrontado devido à nova realidade criada pelo enorme acesso 
a informações que os recursos tecnológicos da internet proporcionam a milhões 
de pessoas.

Pelo que se observou da intensa discussão gerada pelo tema no recente encontro 
mundial de ombudsmans de comunicação, ainda não se estabeleceu consenso sobre 
como agir nesses casos.

A maioria dos veículos de países desenvolvidos adotou a prática de, quando há 
erros em matéria arquivada, indexar a ela uma correção. Alguns, como o jornal 
inglês ‘The Guardian’, esperam 24 horas antes de arquivar eletronicamente o 
texto, de modo que, se alguma correção tiver de ser feita, ela possa ser 
incorporada ao original antes de ser arquivada.

Todos se preocupam, obviamente, com a integridade do arquivo. A qualquer 
jornalista com preocupações éticas repugna a idéia de permitir que se altere o 
que foi publicado porque é evidente o perigo de distorções históricas graves 
que precedentes desse tipo podem provocar.

Mas também é indiscutível que a facilidade atual de achar em segundos 
documentos não necessariamente corretos ou cujos fatos tenham sido desmentidos 
pelo tempo sobre a vida de qualquer pessoa pode criar constrangimentos, 
prejuízos ou até tragédias pessoais irreparáveis.

Mesmo quando não há erro ou deslize ético por parte do veículo, como nos dois 
casos citados acima, a situação do meio de comunicação se torna delicada.

Será que, de agora em diante, ele deve passar a alertar o entrevistado de que 
sua história e sua imagem poderão ser acessadas pelo público para o resto da 
vida antes de obter a autorização para contá-la e expô-la? Será que, depois de 
refletirem sobre isso, tantos entrevistados se recusem a ponto de inviabilizar 
a operação jornalística?

Atendi recentemente a um leitor que me pediu que a Folha apagasse de seus 
arquivos duas matérias em que ele foi entrevistado quando jovem. Ele afirma que 
contêm informações falsas. Mesmo que não houvesse inverdades, ele como qualquer 
outra pessoa poderia ter se arrependido de algumas afirmações, talvez produtos 
de arroubo juvenil, a que todos estão sujeitos.

A Secretaria de Redação me informou que ‘a Folha não altera seu arquivo 
digital, por considerar que isso seria ‘reescrever’ a história, modificar o que 
já foi impresso’, que ‘todos os erramos publicados estão na versão digital, mas 
ainda não estão indexados à matéria correspondente’ e que está ‘trabalhando 
para fazer isso em breve.’

Faço votos de que o ‘em breve’ seja breve e que o jornal considere a 
possibilidade de, em alguns casos extremos, por razões humanitárias, abrir 
exceções à regra de não mexer no arquivo eletrônico."

(...)

PARA LER

‘Reparação’, de Ian McEwan (Companhia das Letras, 2002) – extraordinário 
romance relata como equívoco de uma pré-adolescente provoca conseqüências 
trágicas para a família e transtorna o seu futuro (a partir de R$ 35,60)

PARA VER

‘Gente Como a Gente’, de Robert Redford, com Donald Sutherland e Mary Tyler 
Moore (1980) – ótima estréia de Redford como diretor mostra como acidente que 
causa morte de irmão e pelo qual se sente responsável transforma a vida de um 
rapaz (em inglês, importado, a partir de R$ 53,90)

‘O Clube do Imperador’, dee Michael Hoffman, com Kevin Kline e Emile Hirsch 
(2002) – bom filme conta história de erro cometido por jovem de família 
poderosa na escola e o acompanha pelo resto da vida (a partir de R$ 14,99)"


      Abra sua conta no Yahoo! Mail, o único sem limite de espaço para 
armazenamento!
http://br.mail.yahoo.com/

_______________________________________________
Bib_virtual mailing list
[email protected]
https://listas.ibict.br/mailman/listinfo/bib_virtual

Responder a