O homem que inventou a internet
Fonte: O Estado de S. Paulo. Data: 15/12/2008
Enquanto o Brasil, um quê envergonhado, parou na última semana para lembrar
o Ato Institucional de número 5, imposto pela Ditadura Militar, o Vale do
Silício celebrava outro aniversário. Na mesma semana do AI-5, em 9 de
dezembro de 1968, um cientista de 43 anos chamado Douglas Engelbart
apresentou ao mundo, de uma só tacada, o mouse e a internet.
Aquela apresentação, apelidada de 'a mãe de todas as apresentações', foi
realizada na Universidade de Stanford para uma platéia de engenheiros da
computação estupefatos. A ArpaNet, que viria a se transformar na internet,
só seria inaugurada alguns meses depois e cientistas de todos os EUA estavam
empolgados com a novidade. Aproveitando-se desta animação, Engelbart se
propôs a demonstrar os possíveis usos de uma rede de computadores como
aquela.
O trabalho que ele apresentou não foi organizado de uma hora para outra. Ele
e sua equipe de Stanford vinham pesquisando, com verbas da NASA e do
Pentágono, desde 1963. O mouse é apenas uma das ferramentas que eles criaram
e demonstraram em 68. ("Como esse instrumento lembra um ratinho", disse
Engelbart naquele palco, "alguns de nós começamos a chamá-lo de mouse;
talvez o nome cole".)
A festa destes 40 anos se deu em Stanford, no mesmo palco em que a revolução
teve início. Durante 4 horas, na tarde do último dia 9, a platéia pôde
assistir ao vídeo da apresentação, a um debate com os sobreviventes da
equipe de Engelbart, e a palestras.
O filme é qualquer coisa de espetacular. O velho cientista tinha um telão às
suas costas de maneira que o público podia ver o que ele fazia na tela.
Alguns risos de fascínio podem ser entreouvidos quando ele apresenta o
mouse. Seu monitor estava ligado em rede a um computador no outro lado da
cidade. (Não custa lembrar: computadores contavam-se às dezenas no mundo.
Vários monitores podiam ser ligados a um só computador, mil vezes menos
poderoso do que um iPhone.)
Após apresentar o mouse, como uma versão mais antiga de Steve Jobs
apresentando seus novos produtos, o velho cientista pôs-se a navegar na tela
clicando em links. Que ele chamou de links. E, a cada link, uma nova página
era aberta com novos textos e novos links. A web foi criada apenas em 1989,
mas já estava esboçada.
Dotado de um rádio transmissor, enquanto apresentava as possibilidades
daquela rede que estava para nascer, o cientista conversava com sua equipe,
no laboratório, que a tudo acompanhava. Em um momento, ele faz mágica: faz
aparecer uma janela no monitor e lá está o rosto, em movimento, de um de
seus engenheiros. Eles começam a conversar: videoconferência. Skype em preto
e branco no ano de 1968.
Aquilo foi trapaça: embora o vídeo estivesse realmente no monitor de
Engelbart, a transmissão não foi feita pela rede computacional mas sim pelo
ar. Uma transmissão comum de TV. As duas novidades, ali, eram a
possibilidade de digitalizar a transmissão de vídeo para que ele aparecesse
no computador, e a demonstração de que, com mais banda e algum poder maior
nos computadores, conversas por vídeo seriam possíveis.
A tecnologia de digitalização que eles desenvolveram foi aproveitada alguns
meses depois, pela NASA, para transmitir ao vivo, pelo mundo, a chegada do
homem à Lua.
O mais impressionante da mãe de todas as apresentações, não é isso. Naquela
platéia, na festa de 40 anos, acompanhando o vídeo, depois os debates e
palestras, estavam jovens cientistas da computação fascinados. Engelbart não
possibilitou apenas uma transmissão ao vivo da Lua ou apresentou o mouse ao
mundo. Fez muito mais do que isso: imaginou a internet e, ao imaginar, guiou
por décadas o seu desenvolvimento.
O velhinho se levantou, a um dado momento. Está com 83 anos. O auditório
inteiro se pôs de pé para aplaudi-lo por alguns minutos. Uma ovação de
reconhecimento que encheu-lhe os olhos de lágrimas. Muito pouca gente ouviu
falar do nome de Doug Engelbart. Nestes 40 anos de sua cria, é hora de mudar
isso.
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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasília/Dept. Ciência da Informação e Documentação
Campus Universitário
Brasília, DF 70900-910 Brasil
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