Consultor jurídico da ABPD diz que P2P é a desgraça do direito autoral e que 
falta boa-fé ao Creative Commons
Fonte: O Globo Online. Data: 12/01/2009
Autor: Elis Monteiro


RIO - Há duas semanas, a DIGITAL publicou reportagem sobre a Carta de São 
Paulo , documento redigido por intelectuais e acadêmicos pedindo a revisão 
na atual Lei de Direitos Autorais, em vigor desde 1998. Segundo fontes 
ouvidas pelo GLOBO, ela estaria em desacordo com a nova era digital. Mas não 
é bem assim, diz João Carlos Muller, consultor jurídico da Associação 
Brasileira de Produtores de Discos (ABPD) desde 1966. Nesta entrevista, 
Muller comenta sobre a Lei, o Creative Commons e temas polêmicos como 
pirataria e redes P2P.


Leia também: A resposta do Creative Commons

Lembremos que, entre outros itens, a Carta de São Paulo pede, por exemplo, o 
fim da utilização de ferramentas anticópia do tipo DRM (Digital Right 
Management), cujo uso acabou de ser abolido pela Apple em sua loja iTunes 
Store. A Carta quer, ainda, a revisão da definição de "cópia privada" e 
sugere que quem comprar um CD ou qualquer outro tipo de obra, pagando por 
ela, tenha o direito de fazer quantas cópias quiser, assim como convertê-la 
para formatos digitais. Fala-se, ainda, da dificuldade de bibliotecas e 
museus para a digitalização legal de documentos, ato não previsto pela Lei. 
A Carta pede também redução de 70 para 50 anos do direito de autor depois de 
sua morte, assim como a permissão de uso de obras órfãs.

O GLOBO: Por que o senhor contesta a Carta de São Paulo e os pedidos de 
mudança na Lei de Direitos Autorais?

- JOÃO CARLOS MULLER: Nossa lei de direito de autor tem dez anos, 
comemorados ano passado. Foi debatida no congresso, não é uma lei de 
ditadura, foi proposta de um parlamentar, Luiz Vianna Filho, que era 
acadêmico.

No Senado teve uma tramitação relativamente rápida, um ano mais ou menos, e 
na Câmara tumultuou normal, democrática. Diversos grupos de pressão legítima 
se formaram, porque isso é democracia. Eu estava, se quiser chamar assim, de 
um lado. E outras pessoas, de outros lados.

Na Câmara ela passou por três relatores e o Aluísio Nunes Ferreira (hoje, 
chefe da casa civil do governo José Serra) pegou o peão na unha, e usou uma 
técnica do Aluísio que eu não conhecia, mesmo tendo acompanhado a indústria 
do disco desde 1973. Desde 1972 acompanho os assuntos de interesse da 
indústria fonográfica e da indústria cultural como um todo no Congresso.

A matéria foi debatida de uma maneira muito interessante. O Aluisio preparou 
seis projetos diferentes, ouvia todo mundo, preparava um projeto e 
distribuía, aí todo mundo criticava e tal. Assim ele chegou ao sexto 
projeto, e assim se chegou em 1997 ao relatório da Câmara que modificou um 
bocado o do senado porque em nove anos o direito autoral mudou muito, porque 
foi justamente na época do advento da internet.

E em 1996 houve os tratados da Organização Mundial da Propriedade 
Intelectual, nos quais o Brasil não se subscreveu. Mas o Aluisio esteve na 
Conferência Diplomática e captou muita coisa, que estão na nossa lei. No 
final, foi feita uma comissão na Câmara com um leque de representantes de 
partidos políticos e da sociedade. Tinha PCdoB, com a Jandira Feghalli, 
tinha PT com José Genoino, PSDB com o Aluisio, o PFL, com o Roberto Brant, 
todas as correntes. O PSOL não existia porque senão tinha estado lá. Quem se 
interessou estava lá.

Do texto aprovado na Câmara, na última hora os atores, preocupados com a lei 
6533, ao qual faço críticas, apareceram para reclamar e deu uma confusão. 
Acabaram sendo atendidos. Quem quis se manifestar se manifestou. E todo 
mundo ganhou? Acho que sim. Porque no Brasil tem uma coisa amaldiçoada, que 
é a lei que não pega. E essa pegou. E pegou porque foi fruto de um consenso.

Eu lembro, no ano de 1997 (a lei foi aprovada em fevereiro no Senado), houve 
uma audiência pública e eu e o deputado Harolde de Oliveira, estávamos na 
mesa, com outras pessoas ligadas a sociedades de autores, inclusive 
internacionais, associação de músicos e arranjadores. A essa altura a gente 
achava que o que tinha estava bom. Não era perfeito, mas estava bom.

Todo mundo concordou que saiu a lei possível, por isso defendo, e muito, 
essa lei. Outro dia tive um debate com um desembargador federal, há três 
meses, em Salvador, porque ele disse que essas leis não são discutidas 
democraticamente. O desembargador era muito jovem e não participou de todo o 
processo, que se iniciou há vinte anos. Porque tem que saber.

Uma crítica que eu faço: o Ronaldo Lemos (responsável pelo Creative Commons 
no Brasil) é meu cordial adversário há alguns anos. Muito jovem, brilhante, 
mas ele distorce muitas coisas.

O GLOBO: O que ele distorce?

- MULLER: Por exemplo: ele diz que a lei brasileira de direito autoral é 
muito restritiva. Não é verdade. Ela tem um ponto do qual eu discordo, que é 
restritivo. E outros que são incompletos. Ele diz, por exemplo, que a lei 
não prevê a possibilidade de fazer cópias para fins de arquivo, backup, de 
arquivo, e que isso dá problemas para museus. Nestes dez anos da lei, nunca 
procuraram o relator, alguém, pra falar " e a gente"? Teria passado porque 
ninguém pode se opor a isso, desde que sob certas condições. Nem precisa de 
pagamento nenhum ao autor.

O GLOBO: Esse é um dos pontos da Carta de São Paulo.

- MULLER: Ele (o Ronaldo) pede em algum momento, com alguma razão, o retorno 
da lei anterior à de 1998. Vamos lá. Ok, ninguém é contra. Entretanto, de 
1973 para cá apareceu uma coisa chamada P2P (peer-to-peer ou ponto-a-ponto). 
Isso é uma desgraça para o direito de autor. E a lei atual prevê que você 
não pode colocar em rede, que é um ato de distribuição sem autorização do 
autor, nenhuma obra de uma produção protegida.

O GLOBO: Mas isso é muito difícil de controlar, não é? Ao mesmo tempo, 
ninguém, nem o pessoal do Creative Commons, concorda que qualquer um pode 
jogar qualquer coisa para as redes P2P.

- MULLER: Ninguém concorda. Depois de muita discussão. Eu trabalho para a 
indústria fonográfica há 43 anos, desde 1966 na ABPD, eu tenho alguma 
experiência. Estou com 68 anos e passei 2/3 da minha vida mexendo com isso. 
Alguma coisa tenho que ter aprendido.

O GLOBO: E quanto à cópia privada?

- MULLER: Eu advogo para artistas individuais e também para empresas. Então 
eu procurei os grupos com os quais tenho contato - editores de livros, que 
não se pronunciaram, a indústria de discos, os editores de música, a 
indústria do audiovisual e disse "vamos tentar fazer um acordo com o pessoal 
do Creative Commons? " e procurei o Ronaldo com um texto que não era bem um 
compromisso dessa indústria. Levei para todo mundo, teve algumas 
modificações básicas propostas. E uma das propostas era: é permitida uma 
cópia privada, igual na lei de 1973, desde que seja a partir de uma cópia 
legítima. Porque senão você legitima a pirataria. E eles disseram não! Só 
quero que seja a partir de uma cópia legítima ou colocada à disposição do 
público, para alcançar o P2P, com autorização dos titulares. Você vai no 
iMúsica (site que vende músicas em formato digital), é claro que foi feita 
uma cópia, mas aquilo foi colocado lá com autorização do titular. Mas você 
vai no Torrent e não, aquilo não foi autorizado. É só isso. E aqui barrou. E 
depois dizem que nossa lei é restritiva. Não é. Tenho um calhamaço, tive o 
trabalho de pegar as leis colombiana, argentina, francesa, espanhola e 
inglesa, e comparei com a brasileira. E posso dizer: a nossa não é 
restritiva.

O GLOBO: Os críticos falam que ela é, sim, uma das mais restritivas do 
mundo.

- MULLER: Não é. Todas são restritivas porque direito de autor é direito, 
tanto que a gente chama as exceções de limitações. O direito é assegurado 
constitucionalmente, claro que em benefício do acesso à cultura. A lei de de 
73, à qual eles querem voltar, não previa a possibilidade de fazer cópias 
para deficientes visuais, por exemplo. Aí vem: mas e os outros deficientes? 
Mas e o cara que não tem pernas, você quer fazer o que com a obra? Uma obra 
móvel? Que chegue até ele? Não tem como chegar a todo mundo.

O GLOBO: O Creative Commons debate o que é ou não fim comercial.

- MULLER: Outro ponto é o que é o fim comercial. É o modo de falar. Na 
matéria sobre o senador Eduardo Azeredo (sobre crimes digitais), ele diz que 
as leis precisam ser genéricas. Eu não posso detalhar. É crime assassinar 
com calibre 22. Então se eu assassinar com calibre 21, não é crime? É 
genérico mesmo, e quem vai decidir é a jurisprudência. Eu tenho um quadro 
sobre uma das coisas mais fascinantes pra mim no direito de autor, que é o 
plágio. O que é o plágio? A maioria das pessoas acha que teve uma ideia e é 
dono da ideia. Não é. Você é dono da forma de expressão, se for original. 
Mas a lei não fala do plágio. E não tem nada de ser até oito compassos. Não 
tem nada disso. A lei argentina, que eu estudei, diz que até sete compassos 
pode copiar. Assim, se você pegar o Bolero de Ravel você faz outro, assim 
como o "Samba de uma nota só". O que é boa-fé? Quem decide é o juiz, eu 
posso ter uma noção de boa-fé e o juiz ter outra, e é assim mesmo. O ser 
humano é naturalmente uma coisa imperfeita, graças a Deus não somos ainda 
robôs.

O GLOBO: Mas em relação à cópia privada, qual é o seu ponto de vista?

- MULLER: Eu não tenho nenhum. Exceto que ela tem de ser feita a partir de 
um exemplar ou cópia legítima ou no caso de não ter cópia, um arquivo 
digital colocado à disposição do público com autorização do titular.

O GLOBO: Hoje já temos muitas lojas de música que pagam direitos ao autor. 
Mas não havia até bem pouco tempo...

- MULLER: Hoje temos várias. Não tínhamos. E essa é uma crítica que eu faço 
à indústria de discos: ela foi muito lenta.

O GLOBO: E durante esse tempo cometeu pecados que atraiu a antipatia dos 
internautas, que passou a ter prazer em baixar o arquivo. O senhor acha que 
é possível voltar atrás? Conscientizar as pessoas de que precisam pagar para 
baixar músicas? Porque isso é uma coisa cultural.

- MULLER: Há interesses. Por que essa onda toda de "a lei brasileira é 
restritiva, tem que ter liberdade"? Não existe território livre há muito 
tempo. No mundo não há território livre. Ou então o ser humano volta à 
barbárie, quem é mais forte ganha. A internet não é território livre 
coisíssima nenhuma e as leis precisam ser cumpridas em território real ou 
virtual. Qual é o interesse que está por trás dessa liberdade? Porque a 
liberdade por si só não se organiza, senão não é liberdade. Então, quem é 
que está por trás? Eu tenho uma teoria que não é só minha e já falei, já 
escrevi sobre isso. Como é que os provedores de acesso ganham dinheiro com o 
tráfego? Quando o pontocom explodiu, antes de explodir a bolha, o mundo foi 
cabeado. Todo mundo lançou cabo e criou pistas, as infoways. Eles ganham 
dinheiro como? Eles não cobram nada, mas têm publicidade.

O GLOBO: É o modelo do Google...

- MULLER: Exatamente. Que está brigando. A Warner acabou de cancelar o 
direito deles (do Google) de acesso às obras no YouTube, porque achou que 
estava sendo mal remunerada. Isso é um problema que não é meu. Essas 
autopistas não têm pedágio, mas têm outdoors, e muitos. E quanto mais 
tráfego, maior a quantidade de outdoors. O que você acha que é mais caro: um 
outdoor na (Rodovia) Dutra ou na Friburgo-Rio? Quanto maior o tráfego, maior 
a remuneração. Se pudessem, nem cobrariam o pedágio. Porque o internauta não 
gosta de pagar. Na verdade, ninguém gosta. Mas vamos lá: o cara com a 
publicidade ganha o bastante e muito bem. Quanto mais barato o tráfego, 
maior ele será. Quanto mais coisas circularem e quanto menos eu tiver de 
pagar pelo tráfego, melhor. Então as empresas de comunicação são contra o 
direito de autor. É por isso. O direito deles é totalmente industrial, as 
patentes deles, é a Microsoft, etc. O software eles defendem com unhas e 
dentes, mas o direito de autor mesmo, para eles é um porre. Quem está por 
trás de tudo isso? Se fizermos uma pesquisa boba, veremos quem é que 
financia o Creative Commons. Vai na Fundação Getúlio Vargas, vê se eles 
abrem quem é que põe dinheiro no centro de cidadania a tecnologia. E aí você 
vai ter surpresas interessantíssimas. Nunca vai ser nada diretamente, mas é 
por aí.

O GLOBO: Já vimos casos de sites, que oferecem qualquer tipo de arquivo para 
download, que tem anunciantes legítimos, empresas de software, inclusive. 
Como barrar isso? É possível?

- MULLER: Você tem que pegar esse pessoal também, quem suporta, quem dá 
apoio, quem financia.

O GLOBO: Você chegou a ver todos os pontos da Carta de São Paulo?

- MULLER: Não tem, lá, muita representação do meio artístico, porque o 
artista não quer jogar fora aquilo que é dele.

O GLOBO: Você que trabalha com artistas, como é que eles ficam nessa 
história?



- MULLER: O Gil, o que ele tem no Creative Commons? Uma música. Eu conheço a 
vida do Gil desde o primeiro contrato dele, na época da Fonogram, em 1967 ou 
1968. A carreira do Gil toda. E ele é total o padrinho do Creative Commons e 
deu uma força. E ele tem uma música em Creative Commons, da qual nunca ouvi 
falar, não sei como se entoa, não conheço, nunca ouvi tocar. O resto, dizem, 
é porque ele não é dono da obra dele. Ah, que mentira! Eu conheço isso! Ele 
é dono da obra dele toda! Quem era dono da editora era o ex-empresário dele, 
de Caetano, de Gal, o Guilherme Araújo. O Gil recuperou na justiça a obra 
dele, numa burrice que o Guilherme fez, eu avisei a ele que ia perder aquela 
obra. Ferrou-se! O Gil recuperou a obra, mas sempre deu a ele uma 
percentagem. E o Gil é, sim, dono da obra dele. Então pode botar no Creative 
Commons, mas não coloca, senão a Flora (esposa e empresária de Gilberto Gil) 
mata ele.


O GLOBO: O senhor está dizendo que o Creative Commons tem poucas adesões, é 
isso? Mas é um movimento que faz o maior barulho e que atrai muita simpatia.

- MULLER: A adesão é nada. Atrai muita simpatia com "vamos dar comida de 
graça, diversão de graça!". Para quem recebe é muito bom. Aqueles de quem 
você tira para dar não vão gostar nem um pouco.

O GLOBO: Mas o senhor concorda que as indústrias (audiovisual, fonográfica, 
etc) entraram atrasadas no processo e com um viés muito antipático? E com um 
discurso contra a, digamos, "anarquia" da internet.

- MULLER: Sim. Ela é uma indústria muito pesada e realmente a velocidade de 
transformação é para os caras de 20 e poucos anos e os editores nunca têm 
essa idade. Não dá. Mas eu também sou contra a anarquia da internet. 
Anarquia não! Não sou contra a liberdade, mas contra a anarquia eu sou! Nada 
pode ser completamente anárquico senão acabou tudo! Por que eu não posso ter 
uma arma no meu sítio? É muito mais importante do que ter liberdade na 
internet ter uma arma para me defender, o sítio é isolado. No entanto, eu 
não posso ter uma arma.

O GLOBO: O senhor falou que chegaram a procurar o Ronaldo Lemos, mas que 
bateram em teclas que não foram aceitas.

- MULLER: Ficamos conversando alguns meses, mas quando eu trouxe a versão 
finalmente aprovada pelo audiovisual, pela música, pela edição musical, um 
pessoal que chegou a uma fórmula muito simples, quando mostrei ao Ronaldo, 
"ah, mas isso não pode, isso também não". Eu não posso legitimar algo que 
vem de algo ilegítimo. O negócio é que eles não queriam acabar com o P2P, 
com o não autorizado.

O GLOBO: O senhor acha possível acabar com o P2P? Como?

- MULLER: Claro. O provedor ser obrigado a fornecer o número IP do usuário e 
a partir daí, identificar quem é. Eu não quero revelar segredo nenhum, mas 
quem foi o cara que usou a internet em tal momento.

O GLOBO: Mas o senhor está falando no usuário ou no servidor? Porque são 
dois atores aí: o usuário que só está baixando o arquivo e o servidor, que 
armazena e permite o compartilhamento.

- MULLER: Vamos pegar não quem baixa, mas quem sobe. A lei brasileira é 
claríssima: a infração é subir. E não é o cara que subiu três músicas, é o 
cara que subiu oito mil, dez mil. Pode ter certeza de que a gente está 
atrás, e eu não posso abrir como.

O GLOBO: o senhor está falando que a ideia não é ter uma caça às bruxas, ou 
seja, quem está em casa não tem como ser processado...

- MULLER: Não, mas se for um heavy uploader, vai. A indústria não está 
preocupada com quem faz o download, mas com quem cria as facilidades para 
que isso seja possível.

O GLOBO: Existe uma cultura de compartilhamento e há quem jogue arquivos na 
internet com o propósito de ajudar aos outros, tendo até trabalho para 
converter arquivos, mas com um espírito de comunidade, com a ideia de estar 
ajudando o próximo. Como acabar com a ideia de que se está ajudando alguém e 
não cometendo um crime?

- MULLER: É uma cultura meio Robin Hood. Você pode assaltar o meu armazém, 
tem uns caras querendo comer um cachorro-quente e então vamos assaltar o 
McDonalds. O cara que receber o cachorro-quente vai ficar feliz da vida, o 
dono não vai ficar nem um pouco. Não é assim que a sociedade funciona. Ou 
então, se é assim, vale para tudo. Atenção! Se vale para isso vale para 
tudo. Pô, tô sem dinheiro, você tem cartão de banco? Poxa, não tenho, então 
vamos quebrar um caixa-forte.

O GLOBO: E o autor, como fica nisso? Quais são os prejuízos para essas 
pessoas que têm isso como ganha-pão?

- MULLER: O esquema mudou. Ganha-se muito menos. Hoje, os artistas estão 
ganhando dinheiro com show. Agora, a venda de discos... Tem até uma coisa 
engraçada: há 40 anos dizíamos que o disco era o cartão de visitas do 
artista. Ele não ganhava com ele, mas servia para mostrar que tinha um 
produto e fazer um show. Pois voltou a ser assim! Ficou uma coisa meio 
dramática.

O GLOBO: Há consultorias decretando a morte do CD...

- MULLER: Futurologia é um negócio ao qual eu sou avesso. Agora estão 
falando na ressurreição do LP. Graficamente, é mais agradável. O CD tem uma 
coisa que eu não gosto: ele tira sons que não são música pura. Então aquele 
negócio do passar o dedo na corda do violão, como é que eu vou ouvir um 
grande violonista sem aquele som? Não é a mesma coisa, é um negócio 
eletrônico, frio, não é a mesma coisa, eu não gosto.

O GLOBO: Mas voltando à coisa do autor não vender mais...

- MULLER: Eu fiz muitos contratos pra Roberta Miranda, Marina Lima, era 
dinheiro que entrava porque a indústria do disco podia pagar. Acabou tudo!

O GLOBO: E se não faz show?

- MULLER: Morre.

O GLOBO: A Marisa Monte lançou um CD com uma ferramenta de DRM instalada e 
aquilo gerou uma antipatia enorme.

- MULLER: Porque não explicaram de fato o que acontecia. Aquele DRM permitia 
até três cópias. O cara que quiser mais de três cópias está fazendo 
indústria. Me desculpa, mas está. É muito mais fácil criticar do que 
elogiar, você concorda?

O GLOBO: O senhor acha que existe uma forma de voltar a uma remuneração 
baseada em venda de disco?

- MULLER: Não, voltar não. Para isso precisa voltar a vender mais disco.

O GLOBO: E como?

- MULLER: Se você conseguir acabar com a pirataria. Há vários modelos de 
negócios. Um deles é o de liberar tudo. É só os provedores pagarem um X 
porcento do movimento do site, como a Warner fez com o YouTube. Só que não 
chegaram a um acordo quanto à porcentagem. É uma miséria por passagem de 
música, mas é muita passagem. Você tem uma remuneração decente. Não é 
nenhuma barbaridade.

O GLOBO: Na iTunes Store, da Apple, recentemente três artistas famosos dos 
EUA decidiram não colocar mais suas músicas à venda lá, por ganharem muito 
pouco. E decidiram viver da venda de CDs. Cada um vendeu dois, três milhões 
de cópias, o que no Brasil é impensável hoje.

-MULLER: Aqui já houve época que esse número não era tão louco não. A Xuxa 
vendeu isso, a Ivete Sangalo também, Zeca Pagodinho. Nós tivemos um mercado 
altamente significativo. Hoje, comemoramos quando vende-se menos de cem mil 
cópias. Qualquer dia vamos chegar aqui ao que aconteceu na crise argentina: 
um cara chega para o artista e diz que comprou o disco dele e o artista 
responde: "foi você?"

O GLOBO: A indústria já está também na internet. Como está esse movimento?

- MULLER: Hoje o iMúsica, no Brasil, tem o repertório de todas as 
gravadoras, a Americanas.com também vende. E não é caro, é uma bobagem.

O GLOBO: Como convencer a pessoa que pode pegar de graça a pagar pelo 
arquivo?

- MULLER: É cultural. Isso é um problema de pedagogo, que eu não sou. Minha 
vontade é de sair matando todos (risos).

O GLOBO: Mas como entra aqui o pessoal que defende a liberdade, o Creative 
Commons?

- MULLER: Eu não tenho nada contra o discurso deles, a não ser no ponto que 
eles dizem, pra defender o discurso deles, que a indústria é safada, como já 
li em várias reportagens com o Ronaldo Lemos. Aí não. Se você quer convencer 
as pessoas a fazer, convence, mostra três ou quatro grupos no Brasil que 
usam o Creative Commons. Eu não tenho nada contra usar o Creative Commons, 
como ferramenta de marketing. Agora, daí a esculhambar a indústria, não. 
Ninguém é obrigado a assinar contrato com ninguém. O artista é livre para 
fazer seu produto em casa e hoje é até barato fazer isso. Com R$ 15 mil, R$ 
20 mil você faz um disco razoável. Mas a indústria precisa pagar imposto, 
marketing, empacotamento, distribuição.

O GLOBO: Mas a grande crítica é que o CD ainda é caro no Brasil.

- MULLER: Ah, não é não. Tem exageros, mas inclusive o produtor fonográfico 
não controla o preço de varejo. Num lançamento muito aguardado a indústria 
até vai à forra porque é difícil encontrar e tal. Mas você vai numa (loja) 
Americanas e tem redes de CD da melhor qualidade a R$ 10, R$ 12. Tem de ter 
o mínimo de paciência. E com os meios de comunicação que a gente tem hoje, 
dizer que uma pessoa não tem acesso à cultura é mentira. Você tem um leque 
de rádios, na Sky você tem muitos canais de música. É muita falácia, é muita 
balela. É um movimento de 1968 renascido, o do "é proibido proibir".

O GLOBO: Quanto ao prazo de proteção da obra, de voltar a ser de 50 anos em 
vez de 70 anos? O prazo não é excessivamente longo?

- MULLER: Nunca foi 50 anos, sempre foi de 60 anos desde o Código Civil. Não 
acho longo. As obras têm vida mais longa, as pessoas têm vida mais longa... 
ok, então a propriedade de um imóvel só dura 100 anos. Tá certo? Porque o 
Tom Jobim e seus herdeiros vão perder o direito deles? O acesso não é 
prejudicado por isso, isso é uma mentira.

O GLOBO: Quanto às obras órfãs?

- MULLER: Isso é outro escândalo. Isso nunca foi discutido! Ah, a obra é 
órfã? Então pede para alguém adotar, dá vontade de brincar assim. Ficam 
inventando para desmoralizar a lei. Nenhum país tem isso, que eu lembre. 
Tudo é passível de ser discutido, mas eles não querem um acordo, querem 
desmoralizar o que existe. Aí eu não aceito.

O GLOBO: E o acordo foi tentado?

- MULLER: Foi, e eu tenho documentado. Olha só: dizem que eu não posso 
transformar um CD em MP3 e isso torna a lei distante da realidade, abalando 
sua legitimidade. Não abala a legitimidade, isso é só um ponto. Que você 
pode consertar sob essas condições, mas ninguém quis. Eles não querem 
liberdade, querem libertinagem. É possível chegar a um consenso, mas para 
isso é preciso ter boa-fé. Sem boa-fé fica difícil. E aqui não estou 
preocupado com quem compra (os arquivos), mas com quem oferece, quem vende. 
Se tem um produto pirata na rua o cara vai comprar, sim. Eu quero evitar que 
haja o produto pirata na rua e na internet, só isso. Diminuir pelo menos já 
ajuda.

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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasília/Dept. Ciência da Informação e Documentação
Campus Universitário
Brasília, DF  70900-910 Brasil
blog: http://a-informacao.blogspot.com/ 


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