JB Online
Terça-feira, 03 de Março de 2009 - 00:00

Sinuca digital

Paulo Pacini
Psicólogo e pesquisador

Quando, em 1999, o neurobiólogo Joseph Miller pediu à Nasa acesso aos 
dados das missões Viking, que aterrissaram em Marte em 1976, sua 
solicitação foi prontamente atendida. As fitas magnéticas, corretamente 
armazenadas, foram localizadas e entregues. Infelizmente, delas não foi 
possível se extrair nada, pois o formato digital no qual a informação 
foi codificada já tinha sido esquecido, e seus criadores haviam falecido 
ou se aposentado. Graças a algumas anotações em folhas de papel, 
anexadas às fitas, depois de muito esforço foi possível recuperar um 
terço da informação. O episódio acendeu uma luz vermelha em todas 
instituições que trabalham com o armazenamento de informações digitais, 
acerca dos riscos que a evolução tecnológica pode ocasionar para o 
resgate futuro dos dados.

Um dos grupos mais preocupados com a conservação de seus arquivos é a 
indústria do cinema, e, para situar o problema, a Academy of Motion 
Picture Arts and Sciences (instituição que concede os Oscars) divulgou, 
em 2007, um estudo abrangente, no qual também são analisados casos de 
outros setores. Para os estúdios, a preservação dos filmes é uma questão 
de vida ou morte, pois um terço de sua renda provém de reprises, 
comercializadas para a TV ou em DVDs. A maior parte de seu acervo são 
filmes de 35mm, uma tecnologia confiável, conhecida, cuja qualidade 
ainda não foi equiparada pelo meio digital, com uma vida prevista de 
pelo menos 100 anos, em condições corretas de armazenamento, e um custo 
extremamente baixo. Por esta razão, quase tudo é filmado em película, 
apesar de todo processamento posterior ser digital. O custo do 
arquivamento digital é pelo menos 11 vezes superior, pois necessita uma 
verdadeira parafernália para seus muitos terabytes de informação, 
armazenados em discos rígidos ou fitas magnéticas, pedindo uma estrutura 
pesada de servidores, com manutenção constante, incluindo hardware, 
software, substituição de mídia, treinamento de pessoal, consumo de 
energia elétrica, só para citar alguns. Mesmo assim, a acessibilidade 
não está garantida, pois tudo muda na indústria de informática, os 
formatos de arquivo, sistemas operacionais, interfaces, software, etc.

Em outros setores, a questão é igualmente grave. A Biblioteca do 
Congresso dos EUA criou o programa NDIIPP, para a criação e preservação 
da informação digital, que estipulou algumas linhas gerais de 
orientação, procurando favorecer a criação de uma rede de arquivamento, 
pois se considera que a tarefa é grande demais para uma única 
instituição. Os arquivo nacional americano, o Nara, que contém todos os 
registros da esfera governamental, também criou uma iniciativa nesse 
sentido, que inclui a padronização dos formatos de arquivo e da 
metainformação, ou seja, informação sobre as informações, que facilitam 
sua localização.

A imprensa também lida com dificuldades relativas ao arquivamento de 
informações, especialmente de imagens, pois é prática corrente o 
descarte de material não utilizado, apagando-se a memória das máquinas. 
Não existem mais negativos que possam ser utilizados no futuro, em novas 
publicações. Emissoras de TV frequentemente eliminam material gravado 
digitalmente, reutilizando as fitas, preservando para a posteridade só 
uma parte da informação.

Esses problemas, que pouca gente vê, são extremamente sérios. O único 
meio encontrado até o momento para se garantir o acesso futuro aos 
arquivos digitais é, antes de tudo, ter-se uma política de preservação 
da informação, e também um esquema de migração contínua para novos 
formatos, a ser feita a cada poucos anos, a um custo elevado.

A maioria dos países está se conscientizando das limitações da 
tecnologia atual com relação ao arquivamento a longo prazo, ao mesmo 
tempo em que buscam soluções. Será necessário um grande esforço das 
instituições governamentais e privadas brasileiras para que o costumeiro 
imediatismo e aversão ao planejamento não faça com que no futuro exista 
uma enorme lacuna em todo tipo de dados relativos ao período histórico 
que então será o nosso presente.

Fonte: 
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/03/03/sociedadeaberta/sinuca_digital.asp




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