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Fonte: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62399

Programa social domina verba da ciência*** Projetos têm R$ 239 milhões por
ano, turbinados por emendas parlamentares; deputado diz que "o homem tem de
ser a prioridade"

Eduardo Geraque escreve para a “Folha de SP”:

O MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia), entre 2006 e 2008, investiu mais
em inclusão social e digital, em programas que atendem a interesses
eleitorais de parlamentares, do que no Proantar (Programa Antártico
Brasileiro) e no Pnae (Programa Nacional de Atividades Espaciais), áreas de
pesquisa nas quais o país é carente.

Levantamento feito pela Folha a partir de dados do portal Siga Brasil, do
Senado Federal, mostra que em recursos "liquidados" (parte dos valores ainda
constam como "restos a pagar"), os dois grandes programas de inclusão do MCT
receberam em média, nesses três anos, R$ 238,8 milhões por ano.

É 1.339% a mais do que todo o gasto anual do país com pesquisas antárticas
nesse período e 8,5% a mais do que a média de gasto anual com o Pnae – que
inclui pesquisas estratégicas, como o desenvolvimento de foguetes e
satélites.

Entre 2006 e 2008, enquanto R$ 174,2 milhões foram destinados à inclusão
social em média a cada ano, R$ 64,6 milhões foram para a inclusão digital.
No mesmo período, o Proantar recebeu R$ 16,6 milhões, e o Pnae, R$ 220,2
milhões.

A desproporção também é alta em relação à grande vedete do MCT, os
Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, criados no ano passado: só em
2008, os programas de inclusão tiveram 466% a mais do que o que o ministério
planeja gastar por ano (R$ 66 milhões) com os seus 123 institutos.

O orçamento anual total dos INCTs é de R$ 121 milhões aproximadamente (R$
605 milhões em cinco anos). Essa diferença de orçamento vai sair dos cofres
de várias outras fontes.

Inovação petista

Dentro do MCT, as verbas para a inclusão social e digital passam em grande
parte pela Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social, órgão
criado no ministério em 2003 pelo governo Lula.

Os recursos para inclusão social e digital são turbinados todos os anos por
emendas parlamentares, que são aprovadas no momento da montagem do Orçamento
da União.

Esse artifício é frequentemente usado por deputados para levar recursos
diretamente aos seus eleitores. E, como há pouco controle sobre o andamento
do programa que recebeu verba dessas emendas, há margem para desvios.

Emendas parlamentares têm feito a verba para inclusão social e digital
crescer em proporção geométrica desde que a secretaria foi criada.

Números oficiais divulgados pelo MCT mostram que em 2003 foram investidos R$
4,5 milhões para a implantação de 9 CVTs (centros vocacionais tecnológicos),
um em cada Estado da região Nordeste. Em 2004, mais R$ 23,9 milhões
custearam 48 CVTs em todo o país. No ano seguinte, outros R$ 50,2 milhões
foram investidos no mesmo segmento.

Formação de pedreiros

Até hoje, diz a secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social,
foram apoiados 370 CVTs no Brasil. Nesses locais, a população pode ter
acesso desde a cursos básicos de computação, por exemplo, até a outros mais
específicos, voltados para a construção civil.

"Nesses locais são formadas pessoas em informática, processamento de dados.
E até pedreiros, eletricistas e mestres de obra", diz o deputado federal
Ariosto Holanda (PSB). O político do Ceará é um dos idealizadores dos CVTs,
que começaram nas cidades cearenses e hoje estão espalhados pelo país.

"O Brasil tem uma dívida educacional de 500 anos com seu povo. O resgate da
cidadania é feito com educação e trabalho. Não quero dizer que os outros
programas não são importantes, mas a prioridade hoje tem de ser o homem",
diz Holanda, que é filiado a mesma sigla política que domina o MCT desde
2003. Para o político, não há privilégios nos investimentos feitos pela
pasta.

Segundo o deputado, "é totalmente legítimo" que os recursos para o CVTs
sejam obtidos nos cofres no MCT e não em outras pastas mais voltadas para a
educação básica. "Existe essa ideia de que a ciência e tecnologia é a ponta
de uma cadeia de conhecimento voltada para a elite intelectual. Mas a
ciência e a tecnologia começam com a educação de base", afirma.

Problema ético

"É uma coisa legítima [a emenda]. Como as aplicações são voltadas para os
municípios, isso passou a fazer com que os parlamentares tivessem interesse
em colocar emendas ao orçamento", afirma o ministro Sergio Rezende (PSB).

O aumento de verbas para programas de inclusão, diz o ministro, "é um
resultado natural pelo fato de o MCT ter ampliado muito o seu raio de ação".
O próprio ministro admite, porém, que os programas sociais do MCT precisam
ultrapassar determinados obstáculos, como o da continuidade.

"Nós apoiamos um projeto numa prefeitura, inaugura-se, aquilo ajuda o
prefeito, o deputado a conseguir voto. Mas qualquer projeto desse tem de ter
alguém tomando conta."

Outro problema, afirma o ministro, é de ordem ética. "Em muitas situações o
dinheiro é mal usado ou existe até a malversação". Mesmo assim, na inclusão
social, "tem muita coisa boa sendo feita", diz.

Em 2006, o deputado Fernando Gabeira entregou um relatório à CPI dos
Sanguessugas em que apontava suposto favorecimento político no MCT na
liberação de dinheiro para a compra de ônibus da empresa Planam, utilizados
no programa de inclusão digital.

O esquema, que seria comandado pelo PSB, repetiria o da máfia das
ambulâncias. Na época, o ministério negou qualquer favorecimento e chegou a
cancelar parte dos valores que seriam liberados para deputados.

Investimento não afeta pesquisa, diz secretário

Integrantes de governo e políticos consideram as ações na área de inclusão
digital, e os recursos usados para torná-las possíveis, extremamente
relevantes para a população.

Na opinião do secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
de Minas Gerais, Alberto Duque Portugal, "a exclusão digital é o
analfabetismo moderno". "Quem não domina a internet, o computador, não é
capaz de processar informação e conhecimento."

Por isso, segundo ele, a inclusão digital é prioritária no Estado. "Houve
uma decisão estratégica de colocar uma contrapartida [em MG]. Os deputados
ficaram atraídos porque estavam atendendo as suas bases eleitorais. Para
cada real que traziam, o governo estadual também colocava um real."

De acordo com ele, isso resultou num total de cerca de R$ 90 milhões. O
Estado possui hoje 84 CVTs e 487 telecentros. E, até o final deste ano,
serão 86 CVTs e 1.032 telecentros. Cada CVT custa R$ 600 mil, enquanto um
telecentro custa R$ 50 mil, diz o secretário.

Mas Portugal afirma que o investimento em inclusão digital não afeta a
pesquisa em Minas. "A Fapemig [fundação de amparo à pesquisa do Estado], no
ano passado trabalhou com um orçamento da ordem de R$ 230 milhões.
Obviamente, está ainda longe da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo], mas definitivamente hoje deve ser a segunda fundação
de amparo à pesquisa. E, neste ano, deve-se trabalhar com recursos da ordem
de R$ 200 milhões."

"Esforço conjunto"

O deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE), que conseguiu cerca de R$ 4 milhões
numa emenda de inclusão digital para seu Estado, afirma que por ter sido
ministro das Comunicações sabe da importância da questão. "A inclusão
digital dá oportunidade às pessoas e as inclui no mundo econômico. Foi com
esse sentimento que apresentei a emenda", disse.

Segundo ele, uma das intenções é apoiar o programa do governo estadual
chamado Cinturão Digital. Segundo o Estado, esse projeto vai criar uma
infraestrutura própria de fibras ópticas com o objetivo de prover acesso por
banda larga às principais cidades do interior. No Ceará, apenas cinco
municípios dispõem de internet numa velocidade média.

O deputado Paulo Henrique Lustosa (PMDB-CE), que obteve R$ 7,7 milhões para
inclusão digital, ressalta que essas emendas não são uma ação isolada.

"Elas são parte de um esforço maior de ampliação do acesso da população às
tecnologias de informação e comunicação, sempre com o viés da educação, da
formação tecnológica, do desenvolvimento de recursos humanos. E sempre
destacando em articulação com a estratégia do governo do Estado."

Na opinião do senador Delcídio Amaral (PT-MS), relator do Orçamento deste
ano, o governo deu prioridade absoluta para a inclusão digital. "O que eu
acho corretíssimo", afirmou.
(Colaborou Afra Balazina)
(Folha de SP, 21/3)
-- 
Fernando César Lima Leite
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