Biblioteca para todos?
Fonte: CulturaeMercado. Data: u8/5/2009.
URL: 
http://www.culturaemercado.com.br/post/biblioteca-para-todos/comment-page-1/
 MinC anunciou semana passada que o Brasil irá zerar o número de municípios 
brasileiro sem bibliotecas. Entrevistei o antropólogo Felipe Lindoso, 
especialista no assunto: "deve-se reconhecer, e dizer claramente, que o 
governo do Presidente Lula foi o que mais instalou bibliotecas públicas na 
história do país. Isso é altamente positivo e louvável, sem dúvida nenhuma. 
Só que o programa, como vimos, não apenas é medíocre na formatação e na sua 
execução, como também tem um caráter centralizador e autoritário".
Leonardo Brant - O que representa para o país zerar os municípios sem 
biblioteca?

Felipe Lindoso - Do ponto de vista simbólico, é muito importante.  Revela, 
sem dúvida, um esforço para eliminar algo que eu coloco como uma das 
vergonhas nacionais, isso de existir algum município que não tenha nem mesmo 
uma mísera biblioteca como equipamento cultural.

Mas, no caso, é importante considerar algumas outras coisas. Em primeiro 
lugar, o número de municípios "sem bibliotecas" é algo discutível. Não 
existe um sistema de informação dentro da Biblioteca Nacional ou do 
Ministério da Cultura que informe efetivamente sobre isso.

Em segundo lugar, o chamado Sistema Nacional de Bibliotecas é uma ficção, 
com algumas bibliotecárias lotadas no Rio de Janeiro, na Biblioteca 
Nacional, sem meios nem condições de efetivamente administrar um sistema. 
Deficiência que se repete nos estados, com as proverbiais honrosas exceções. 
As bibliotecas estaduais, que seriam as "cabeças" do sistema em cada unidade 
federativa, também não estão aparelhadas para saber o que acontece nos 
municípios. Até porque esse sistema não existe.

Em terceiro lugar, o levantamento dos municípios "sem bibliotecas" foi feito 
a partir dos dados do IBGE que constatavam a existência ou não - do ponto de 
vista formal - de biblioteca em cada município. Não existe nenhuma maneira 
do MinC saber quais bibliotecas efetivamente funcionam, e se estão pelo 
menos abertas ao público. Ou seja, existe um número indeterminado de 
municípios que, de fato, não possuem uma biblioteca aberta ao público e isso 
não está equacionado. Existem prefeitos que simplesmente não se importam com 
a questão da biblioteca pública, e entre os quase seis mil municípios 
provavelmente existem prefeitos que detestam a ideia de por livros ao 
alcance da população.

Por isso mesmo, anunciar que no dia 25 de junho o MinC vai "zerar" o número 
de municípios sem biblioteca é algo temerário. O Presidente Lula pode ser 
induzido a participar de uma cerimônia furada.

LB - O processo de implementação dessas novas bibliotecas atende às 
necessidades e interesses de cada região?

FL - Não. O processo foi totalmente centralizado na Biblioteca Nacional. A 
ideia original era que pelo menos 10% do acervo fosse "regionalizado" e nem 
isso foi feito. Os acervos foram totalmente definidos no Rio de Janeiro, por 
comissões de especialistas - competentes e com as melhores intenções, mas 
cheios da autossuficiência de quem sabe o que é "bom" para formar o "leitor 
crítico" que existe na cabeça deles. A ideia de que a biblioteca é um 
serviço público, que deve atender às necessidades dos leitores e, ao mesmo 
tempo, proporcionar os meios para ampliação do seu universo cultural, é um 
conceito estranho para os leiturólogos, como eu chamo. Na cabeça deles, 
livro bom é o que eles consideram assim, sem atentar para a diversidade de 
interesses, necessidades espirituais, emocionais e de conhecimento que 
possam ter os cidadãos espalhados por esse imenso país.

Ninguém se toca do ridículo que é mandar o mesmo acervo para Urucurituba, no 
Amazonas, Zédoca, no Maranhão, Ceres em Goiás, ou para os municípios do 
Pontal do Paranapanema ou do Vale do Ribeira em S. Paulo, ou da fronteira 
com o Uruguai no Rio Grande do Sul, etc.

LB - Quais os principais problemas das bibliotecas hoje no país?

FL - A lista é enorme, mas posso sintetizar no seguinte grupo de questões:

1) A quantidade de bibliotecas. Não se pode ter a ilusão de que "uma 
biblioteca por município" seja uma resposta adequada. É importante, como já 
disse, resolver esse problema básico. Mas o planejamento de uma cobertura 
adequada de bibliotecas pelo território nacional está longe de ser sequer 
pensado, muito menos colocado no papel e com meios de ser executado.

A quantidade de bibliotecas é uma razão entre o número de habitantes de uma 
determinada área, o tipo de cobertura dado pelas bibliotecas escolares - que 
aqui no Brasil, como essa esquizofrenia de separar educação da cultura, 
inclusive administrativamente, não é sequer computado quando se fala em 
bibliotecas públicas; a densidade populacional - que pode exigir unidades 
móveis ou postos avançados em regiões menos povoadas, mas nem por isso menos 
carentes - e a estruturação de tipos de bibliotecas públicas, com mais 
acervos e equipamentos que possam subsidiar as menores com a circulação de 
exemplares, programas de capacitação do pessoal e de formação de leitores. 
Só a partir dessas considerações, que nascem da análise da situação de cada 
município, seria possível definir a quantidade e o formato das bibliotecas 
necessárias.

2) A questão dos acervos. Que pode ser dividida em duas partes.

Primeira: a quantidade. O documento "The Public Library Services - IFLA 
UNESCO Guidelines for development", que é o documento básico para a 
constituição de uma política pública para bibliotecas, publicado pela IFLA - 
International Federation of Librarians Association/UNESCO (Federação 
Internacional de Associações de Bibliotecários/UNESCO), de 1997, declara que 
"como regra geral uma coleção de livros deve ter entre 1,5 a 2,5 livros per 
capita. O estoque mínimo para o menor ponto de serviço não deve ser menor 
que 2.500 livros". Ou seja, o acervo adquirido pela Biblioteca Nacional para 
o programa dos municípios (2.000 títulos) está abaixo até mesmo desse 
mínimo. A conta é simples: o conjunto das bibliotecas públicas brasileiras 
deveria ter, pelo menos, entre DUZENTOS E OITENTA E SEIS MILHÕES e 
QUATROCENTOS E SETENTA E SETE MILHÕES de exemplares. Na verdade deveria ser 
mais, considerando a densidade populacional de alguns municípios.

Ninguém sabe qual o acervo existente nas bibliotecas brasileiras. Mas pode 
ser afirmado, com toda certeza, que: a) está MUITO abaixo desse mínimo e; b) 
o estado das coleções, em termos de sua atualização, é péssimo.
Qualquer programa que não pense pelo menos nesses termos é simplesmente 
medíocre. Parte, sim daquele "complexo de vira-latas" do qual falava Nelson 
Rodrigues e que, felizmente, está sendo superado em outras áreas. Mas não no 
que diz respeito às bibliotecas públicas.

Segunda: a qualidade. Apelo, mais uma vez, para o documento IFLA/UNESCO: "As 
bibliotecas públicas são serviços localmente baseados para o benefício da 
comunidade local e devem proporcionar informações para essa comunidade. Os 
serviços e coleções que proporcionam devem estar baseados nas necessidades 
locais, que devem ser avaliadas regularmente. Sem essa disciplina a 
biblioteca pública perderá o contato com aqueles aos quais deve servir e, 
como resultado, não serão usados em toda sua potencialidade". Dessa diretiva 
decorre necessariamente que os acervos adquiridos por um poder central, sem 
considerar as necessidades locais e reais dos usuários, é simplesmente fruto 
de uma postura autoritária e elitista, na pior das hipóteses, ou 
simplesmente preguiçosa e imediatista.
No caso brasileiro, para mim, é a combinação dos dois casos. Autoritária e 
imediatista porque acha que uma congregação de "sábios especialistas" pode 
dar conta da grande diversidade local. Aliás, os sábios especialistas na 
verdade não estão preocupados em atender a essas necessidades locais. 
Simplesmente partem de sua concepção do que sejam livros "bons", "de 
qualidade" para definir o que vão comprar. E os leitores que se deem por 
felizes de ser o objeto dessa preocupação dos sábios e leiam o que os sábios 
querem, e não o que eventualmente eles mesmos queiram ler.

3) Sistemas de bibliotecas, cooperação e compartilhamento de recursos. Mais 
uma vez deve-se observar o que diz o documento da IFLA/UNESCO:

"Cada coleção de uma biblioteca é, em alguma medida, única. Nenhuma coleção 
pode conter todos os materiais que os membros de seu público requerem. As 
bibliotecas, portanto, podem aumentar significativamente seus serviços aos 
usuários proporcionando-lhes acesso às coleções de outras bibliotecas. As 
bibliotecas podem participar de esquemas de compartilhamento de recursos em 
qualquer nível, local, regional, nacional e internacional, que envolvam 
bibliotecas de um amplo raio de organização com recursos de informação. A 
biblioteca deve também deixar sua coleção disponível para empréstimo para 
outras bibliotecas através da participação em uma rede, por exemplo, com 
catálogo unificado ou numa rede local de provedores de informação, tais como 
as escolas, faculdades e universidades".

Para os formuladores do documento IFLA/UNESCO, a organização de redes de 
bibliotecas é um componente da maior importância na formulação e execução de 
uma política de bibliotecas públicas. Os sistemas de informática, 
certamente, tornam essa tarefa muito mais fácil.

No programa de bibliotecas, a BN fornece um programa de informática, o 
Biblivre. O programa acompanha o kit enviado para cada uma das novas 
bibliotecas. No site do Biblivre estão listadas 705 bibliotecas - nem todas 
públicas, há desde escritórios de advocacia a colégios particulares e 
pessoas físicas - que instalaram (ou estão instalando) o programa. 
Obviamente nem todas as bibliotecas que receberam o Biblivre o instalaram. E 
das que instalaram, várias não o usam. Conheço vários casos, pessoalmente e 
por contatos com os responsáveis, de bibliotecas que se recusam a instalar o 
programa, por considerarem-no ineficaz.

E o melhor exemplo disso, certamente, é a própria Biblioteca Nacional, que 
não usa o programa. O MinC informa que entre 2004 e 2007 instalou 830 novas 
bibliotecas no programa "Livro Aberto", que é o nome oficial do programa que 
irá "zerar" os municípios sem bibliotecas públicas. E que até este ano - já 
anunciaram a data, 25 de junho - terão sido entregues 1.173 kits desse 
programa.

Vale uma anedota. Em 2008 estive em Sergipe para estudar a possibilidade de 
um programa de bibliotecas públicas em todos o estado. Uma das cidades 
visitadas, Barra dos Coqueiros, fica em frente a Aracaju e tinha recebido um 
dos kits da BN. A encarregada, feliz da vida com os livros, as estantes, a 
TV de 29" e o computador. Mas. Ela não conseguia instalar o Biblivre, então 
em sua primeira versão. Mandou uma correspondência para a BN pedindo 
instruções. Resposta: que a prefeitura contratasse uma empresa de 
informática para instalar e configurar o programa.

É software livre da BN! Livre e gratuito, desde que a prefeitura contrate 
uma empresa de informática para fazer a instalação.

Já está na segunda versão, e pelo descritivo parece - em tese - ter 
melhorado muito. Só que, curiosamente, entrando nos poucos sites de 
bibliotecas listadas como usando o Biblivre, foi impossível fazer qualquer 
tipo de consulta de acervo. Aliás, o único acervo que consegui consultar foi 
o da Biblioteca da Universidade Católica de Goiás, listada como uma das que 
usa o Biblivre. Só que o software que dava acesso ao catálogo era o sistema 
archerLib, de uma empresa privada.

Em resumo, o programa não funciona a contento. Ou, melhor dito, é uma 
espécie de "faça-o-que-digo-mas-não-faça-o-que-faço". Por um lado, pode 
funcionar muito bem para uma biblioteca isolada. Inclusive, pela descrição 
que existe no site, pode fazer consultas pelo protocolo Z39.5. Esse 
protocolo internacional permite consultas ao banco de dado de outras 
bibliotecas que abram o acesso, e assim compartilhar dados bibliográficos. 
As grandes bibliotecas do mundo abrem esse acesso, como é o caso da Library 
of Congress, dos EUA, a Bibliothèque Nationale da França, dezenas de 
importantes bibliotecas universitárias e bibliotecas nacionais de vários 
países. O protocolo Z39.5 é, assim, um inestimável instrumento de 
catalogação, pois permite importar os registros catalográficos já feitos por 
bibliotecários renomados, segundo as melhores técnicas. Ao bibliotecário 
local cabe, eventualmente, traduzir para o português e "pendurar" o seu 
exemplar, como diz o jargão, em seu próprio acervo.

Pois bem, a Biblioteca Nacional não disponibiliza acesso ao protocolo 
Z.39.5. E nenhuma das grandes bibliotecas universitárias brasileiras. O 
sistema da USP só permite o uso do Z39.5 dentro do seu próprio sistema. O 
único acesso de registros bibliográficos é o dado pelo Sistema Brasileiro de 
Registros Bibliográficos On-Line, um projeto privado do qual faço parte, 
juntamente com o Alexandria On-Line, um programa de gerenciamento de 
sistemas de biblioteca, e que permite o acesso gratuito ao banco de dados de 
livros catalogados. Ou seja, o bendito programa patrocinado pela BN prevê o 
uso de instrumentos que ela não permite usar. Como diria aquele personagem 
do programa cômico do Jô Soares, é "chose de loque!"

O Biblivre, mais do que isso, não permite a formação de sistemas de 
bibliotecas. Não gerencia o empréstimo interbibliotecas. Não forma um 
"catálogo cooperativo" que possa ser efetivamente usado pelos usuários.
 Em uma palavra, o programa MinC/Biblioteca Nacional não satisfaz também a 
esse requisito do documento IFLA/UNESCO.

LB - Estamos no caminho correto para solucionar esses problemas?

FL - Sim e não. Deve-se reconhecer, e dizer claramente, que o governo do 
Presidente Lula foi o que mais instalou bibliotecas públicas na história do 
país. Não se vê um esforço nesse sentido desde a época do antigo Instituto 
Nacional do Livro. Isso é altamente positivo e louvável, sem dúvida nenhuma.

Só que o programa, como vimos, não apenas é medíocre na formatação e na sua 
execução, como também tem um caráter centralizador e autoritário. Mas o que 
é pior, não prevê de fato nenhum sistema de avaliação, acompanhamento, 
capacitação. O que é feito deve-se à iniciativa de algumas bibliotecárias, 
algumas dirigentes de bibliotecas públicas estaduais ou sistemas municipais, 
que possuem uma visão abrangente e dinâmica das bibliotecas públicas e fazem 
o possível para se virar com o que o MinC proporciona.

O MinC está desaparelhado institucional e tecnicamente para efetivamente 
montar um Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. A Biblioteca Nacional 
teima em manter na sua estrutura um pseudo sistema que não funciona, e se 
restringe a organizar alguns encontros e a repassar os livros que são 
publicados com projetos de incentivos fiscais, dos quais 10% da tiragem é 
enviada à BN como contrapartida, e a montar as listas dos sábios para a 
aquisição.

LB - Há uma relação direta entre a Lei Rouanet e as bibliotecas públicas? O 
que acontecerá com as bibliotecas com o fim da Lei?

FL -  Já escrevi e me manifestei várias vezes que um dos grandes problemas 
da Lei de Incentivos Fiscais é o foco na produção de bens culturais, muito 
maior do que o que deveria existir na circulação e acesso desses bens 
culturais. A lei deveria ser muito mais indutiva para incentivar a 
circulação e o acesso do que é.

Quanto ao uso da Lei Rouanet para programas de biblioteca, nada melhor que a 
transcrição de pareceres da Biblioteca Nacional para projeto que apresentei 
para desenvolvimento de programas de bibliotecas.

Não vou alongar a história. Já tinha sido aprovado anteriormente, através da 
Associação Cultural Basílio da Gama, da qual sou presidente e que foi 
constituída para desenvolver esse tipo de programas - um projeto para 
desenvolvimento de sistemas de bibliotecas, usando um módulo de 
"banca-biblioteca" para instalar um ramal de biblioteca em local de difícil 
acesso. Com esse projeto foram instaladas bancas-bibliotecas nos municípios 
de Suzano, Hortolândia, São Caetano do Sul, São Bernardo e Osasco, em S. 
Paulo (com patrocínio da Petrobrás) e em Volta Redonda, no Rio de Janeiro 
(com o patrocínio da White Martins).

Mais que a simples instalação de uma banca-biblioteca, porém, o projeto 
induzia as prefeituras a começar a desenvolver seu sistema de bibliotecas 
municipais, com a implantação de um gerenciador de sistemas de bibliotecas, 
o Alexandria Online. Que, aliás, é o usado pela Prefeitura Municipal de São 
Paulo para seu sistema de bibliotecas, e permite consultas, via internet, de 
todo o acervo catalogado.

Como é fartamente sabido por quem lida com projetos culturais, o processo de 
aprovação no Ministério da Cultura leva meses. Por isso mesmo, as 
instituições que desenvolvem projetos mais genéricos procuram ter projetos 
aprovados de antemão para que, quando surge a oportunidade de conseguir um 
patrocinador, a ação seja viável.
 Assim sendo, apresentamos um projeto para deixar tudo pronto para que se 
buscasse patrocinadores e também se definisse o local (município) onde estas 
poderiam ser instaladas.

Pois bem, o projeto foi protocolado em novembro de 2006, em S. Paulo, na 
Delegacia do MinC.

Recebeu, inicialmente, um parecer favorável à sua execução e foi enviado à 
Brasília. Aí começou a via-crúcis. Sabe-se lá por que razão o parecer da 
técnica de S. Paulo foi desconsiderado e em fevereiro do ano seguinte (três 
meses depois de protocolado) foi enviado pelo coordenador do Pronac na BN, 
Sr. Ubaldo Santos Miranda para análise do Sistema Nacional de Bibliotecas 
Públicas.

A via-crúcis começou a virar samba do crioulo-doido. Parecer assinado pela 
Sra. Ilce G. M. Cavalcanti, bibliotecária e Coordenadora-Geral do SNBP, do 
qual transcrevo os trechos relevantes:

"A proposta colocada é interessante, porém vai de encontro as ações 
desenvolvidas pelo SNBP/FBN (Sistema Nacional de Bibliotecas 
Públicas/Fundação Biblioteca Nacional).

"O Programa Livro Aberto em uma de suas ações, contempla as Bibliotecas 
Públicas com a atualização dos acervos. Além do que, o SNBP/FBN realiza 
distribuição da doação de livros, de forma sistemática.

"Desta forma, verifica-se uma certa duplicidade de trabalho como também, de 
verba, Sugiro que seja realizada uma consulta ao SNBP?FBN, a fim de adequar 
e agregar esforços.

"Quanto ao Programa de Gerenciamento citado, informo que existem Programas 
gratuitos para atender as necessidades das Bibliotecas Públicas, não 
precisando ser adquirido através de compra.

"Faz-se necessário, a apresentação da relação de livros que vão ser 
adquiridos e, informar quais os critérios que foram adotados para a seleção.

"Na justificativa, seria interessante apontar a fonte de informação 
utilizada quando é mencionada a situação atual das Bibliotecas Públicas da 
região Sudeste".

(A redação é transcrição do parecer redigido pela ilustríssima senhora 
bibliotecária. Ipsis literis, inclusive as vírgulas).

O projeto mencionava argumentos que não apenas tinham sido feitos para o 
anterior, que fora aprovado, como estavam expressos no meu livro O Brasil 
Pode ser um País de Leitores? Particularmente - e seguindo as recomendações 
da IFLA/UNESCO - o que explicava os critérios para a constituição do acervo. 
Dizia o projeto: "A constituição dos acervos das bibliotecas a serem 
implantadas deverá partir de listas elaboradas pelas bibliotecas municipais, 
ampliadas e complementadas por pesquisa de acervo disponível e com o apoio 
de eventuais listas de sugestões elaboradas pela FBN ou instituições 
similares. Um princípio deve nortear a constituição dos acervos: adequação 
ao público-alvo da biblioteca e às suas necessidades específicas."

Ao saber - extra oficialmente - das restrições, aproveitei uma viagem ao Rio 
de Janeiro para conversar com o Sr. Santos Miranda.

O funcionário me declarou que era preciso saber que municípios receberiam as 
bibliotecas "para não coincidir com os que estavam recebendo o kit do Livro 
Aberto", e que a lista de livros era imprescindível para saber "se eram de 
qualidade".

Respondi, com a nonchalance possível, que os municípios eventualmente 
beneficiados seriam determinados pelo patrocinador, e que não entendia 
porque, se um prefeito fosse ágil o suficiente para conseguir uma biblioteca 
da BN e outra de um patrocinador, não entendia porque deveria ser punido, 
sem poder ter as duas. E informei também que o critério de acervo estava 
especificado e que, apoiado na Constituição Federal, eu não admitia censura: 
qualquer livro publicado no Brasil poderia integrar o acervo de uma 
biblioteca pública. Disse também que, ainda que apoiasse as iniciativas de 
software livre, observava que o Governo Federal frequentemente fazia 
licitações para adquirir os programas da Microsoft. Software livre não era 
dogma, muito menos quando exigia a intervenção de programadores externos 
para ser instalado.

E dei um exemplar do meu livro para o senhor Santos Miranda.

Para encurtar a história, em abril de 2008, a CNIC aprovou - sem aprovar - o 
projeto. Cortou do orçamento, discricionariamente, valores para aquisição do 
programa de gerenciamento, diminuiu o volume destinado a compra de acervos, 
não admitiu que fosse usado outro programa que não o já mencionado e 
analisado Biblivre, cortou a remuneração dos executores do projeto e 
condicionou tudo ao envio prévio da lista dos livros adquiridos "com o 
parecer de uma comissão de três membros, dos quais pelo menos um 
bibliotecário".

Íamos recorrer, mas desistimos. Se a senhora Coordenadora-Geral do SNBP/FBN 
pede, ela mesmo, que o projeto seja analisado por ela mesma, entramos, como 
diria Stanislaw Ponte-Preta, no perigoso terreno da galhofa.
 Se a Fundação Biblioteca Nacional se outorga o direito de exercer a censura 
prévia de livros que entrarão no acerco de uma biblioteca pública, já 
estamos numa situação mais complicada: os ecos da ditadura, pelo visto, 
continuam ressoando no casarão da avenida Rio Branco. E com força.

Se o coordenador do Pronac na Biblioteca Nacional declara que não se 
justifica implantar mais de uma biblioteca em um município, finalmente temos 
a resposta para a pergunta: A PARTIR DO DIA 25 DE JUNHO, QUANDO FOR 
"INAUGURADA" A ÚLTIMA BIBLIOTECA DO PROGRAMA LIVRO ABERTO, NEM ADIANTA 
APRESENTAR OUTROS PROJETOS DE BIBLIOTECAS. A Fundação Biblioteca Nacional, 
ciosa e orgulhosa de sua façanha, dirá que são redundantes e, portanto, 
inúteis e lesivos ao interesse público.

É assim que raciocinam aqueles que "gerenciam" os programas de biblioteca do 
MinC. O que justifica qualificar esses programas como medíocres e 
autoritários, ainda que se possa dar todo o desconto das boas intenções que 
calçam essa particular via para o inferno.

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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasília/Dept. Ciência da Informação e Documentação
Campus Universitário
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