Jornal do Brasil
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

O perigo de a máquina mandar no homem
Cláudio Magnavita

O acidente com o Air France 447 exige algumas respostas. Na atual década 
foi o primeiro envolvendo um voo de longo curso no ocidente: a aeronave 
desapareceu em pleno cruzeiro e era um modelo de nova geração. O tema 
fica ainda mais grave quando envolve uma das maiores empresas aéreas do 
mundo, a Air France, hoje em consórcio com a KLM e sócia da Alitalia, 
além de um grande fabricante, a Airbus, e uma das aeronaves de maior 
sucesso comercial para o segmento de longo curso, o A330.

Os primeiros indícios apontam um vilão, o pitot (sensor de velocidade), 
que teria contribuído para que o avião Airbus A330-200 matrícula F-GZCP 
ficasse vulnerável em plena tempestade. O sensor falho teria deixado os 
computadores desorientados. Os amantes da Boeing voltaram com o discurso 
que os modelos da Airbus são muito mais para engenheiros de voo do que 
para pilotos.

As mensagens transmitidas automaticamente pelo cockpit do voo AF447 
revelam uma sequência de colapsos, inclusive o elétrico, em um intervalo 
de 4 minutos. Os instantes finais da aeronave mostram a soberania da 
máquina sobre o homem.

Na prática, os falsos dados, alimentados pela falha dos sensores e até 
gerados pela posição equivocada dos manetes, como ocorreu no acidente da 
TAM em Congonhas, transformam os computadores de bordo em verdadeiros 
HAL 9000, o computador personagem do filme 2001 Uma Odisseia no Espaço, 
que se transformou em um dos maiores vilões da história do cinema.

O instinto suicida destas máquinas não pode superar o comando do homem. 
Esta é uma realidade que se alastra em todos processos da aviação. E no 
caso dos cockpits é mais grave: está surgindo uma nova geração de 
comandantes que estão saindo do forno pronta para obedecer e não 
comandar. E a obedecer uma máquina! As pessoas estão sendo programadas 
para não pensar.

Querem um exemplo mais perto? Quem trabalha na aviação há mais de 20 
anos sabe o que é o despacho manual de um voo. Consolidar um 
pré-manifesto de passageiros que chegava via telex no aeroporto, emitir 
manualmente os cartões de embarque e até consolidar manualmente as 
fichas de reservas e cada voo.

Cada funcionário controlava e compreendia todo o processo. A nova 
geração só conhece o que está escrito na tela do computador. Se você não 
for um bit não existe. Se o sistema cai é um caos. Ninguém consegue mais 
liberar manualmente uma aeronave.

Aplique isso ao dia a dia de um Despachante Operacional de Vôo, o famoso 
DOV. Como era possível fazer o balanceamento de um 747 só usando tabelas 
e réguas? Essa geração que pensava e calculava está em fase de extinção. 
Mas voltemos ao ocorrido com o AF447. Devemos lembrar o voo de 
demonstração do A320 no Aeroporto Mulhouse-Habsheim, em 1988, com as 
cores da Air France e matrícula F-GFKC, quando o computador travou e a 
aeronave seguiu direto para um bosque, sem obedecer o comando de ninguém.

Os incidentes de interpretação de dados de outros Airbus mostram que a 
soberania dos bits pode ser fatal. É só imaginar as milhares de 
turbulências que pilotos dos Constellations, DC-6, 707, DC10 
atravessaram na mesma rota. E tinham o controle do avião na mão. Os 
pilotos eram soberanos e a máquina estava escravizada ao seu controle.

Vivemos hoje uma transição de toda uma safra de comandantes que mandava 
nas máquinas. Não podemos perder essa memória e deixar que os avanços 
tecnológicos reduzam o ser humano ao papel de espectador.

A grande lição do vôo AF 447 poderá ser esta. Trata-se de uma ferida que 
revela a vulnerabilidade de um sistema diante de variáveis não 
programadas. A Boeing, ao ser conservadora e manter a máquina 
subordinada ao homem, acertou e conseguiu ficar, por enquanto, anos à 
frente da concorrente européia.

FONTE: 
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/06/15/pais/o_perigo_de_a_maquina_mandar_no_homem.asp



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