O custo da publicação de um artigo científico, artigo de Wanderley de
Souza
Fonte: Jornal do Brasil. Data: 14/6/2009.
"No Brasil, as agências ainda não fixaram uma política em relação às
publicações científicas. No entanto, isto é uma questão de tempo, uma vez
que regulamentar a publicação de artigos científicos pelas agências que os
financiam é uma tendência mundial"
Wanderley de Souza é professor titular da UFRJ, ex-Secretário de
Estado de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro e diretor de programas do
Inmetro. Artigo publicado no "Jornal do Brasil":
A cada ano aumenta o número de artigos científicos publicados nas mais
variadas áreas do conhecimento. Na área científica, tal fato se deve a
quatro fatores básicos. Primeiro, cresce anualmente o número de
pesquisadores atuantes e produtivos, sobretudo nos países emergentes como
China, Índia, Coréia do Sul, Brasil, Paquistão, Cingapura e África do Sul,
para citar os mais relevantes.
Segundo, os mecanismos atualmente existentes de financiamento à
atividade científica por parte de agências governamentais e fundações
privadas exigem maior produtividade, em geral medida pelo número de artigos
publicados e a qualidade das revistas.
Terceiro, o fluxo mais rápido da informação pressiona o pesquisador a
publicar o mais rapidamente possível seus resultados. Atualmente, as
revistas são consultadas on-line por vários pesquisadores em todo o mundo,
sendo que muitas revistas divulgam o conteúdo futuro antes da sua publicação
definitiva.
Quarto, cresce rapidamente o número de revistas publicadas
exclusivamente on-line e com acesso livre. Tais revistas, inicialmente
recebidas com algum descrédito, vêm alcançando grande sucesso. Cito como
exemplo, na área biológica, a série PLoS (Public Library of Science) lançada
inicialmente em agosto de 2003 com a PLoS Biology e que já conta com sete
séries nas mais variadas áreas das ciências biomédicas.
Algumas, como a PLos Biology e a PLos Medicine, já alcançam índices de
impacto da ordem de 13.5 e 12.6, respectivamente, valores estes obtidos
apenas por um número restrito de revistas tradicionais, muitas das quais
criadas há mais de 50 anos.
Posso assegurar que face ao grande número de revistas existentes, é
muito difícil escolher aquela para onde submeter um artigo científico. As
opções são muitas e crescentes. Muitas vezes nos deparamos com o dilema
entre publicar em uma revista clássica da área e conhecida por todos, mas
que tem menor índice de impacto, ou por uma nova e que já conta com índice
maior.
Acresce ainda o fator econômico, uma vez que existem hoje, pelo menos,
três tipos de revistas. Primeiro, as publicadas por grandes editoras
tradicionais, como a Elsevier, Willey-Blackwell e a Springer Verlag. Estas
não cobram pela publicação e muitas vezes ainda oferecem algumas cópias do
artigo ou a sua versão em pdf.
O segundo tipo de revista é, em geral, publicado por associações
científicas, contam com elevado prestígio e cobram valores variáveis, algo
em torno de US$ 80 por página.
O terceiro inclui as revistas exclusivamente on-line e de livre
acesso, mas que cobram do autor valores que vão de US$ 800 a US$ 3 mil a
título de manutenção do sistema de livre acesso. Cabe ressaltar que autores
que comprovem não contar com apoio financeiro podem pedir isenção deste
pagamento.
Cresce a pressão de várias agências no sentido de que as publicações
científicas sejam acessíveis a todos. O sistema do National Institutes of
Health, uma das principais fontes de financiamento à pesquisa médica nos
Estados Unidos, exige que a versão eletrônica de artigos aceitos para
publicação e que foram financiados com seus recursos sejam depositados no
PubMed Central (http://www.pubmed.org).
A Wellcome Trust, importante agência inglesa, obriga a que o artigo
seja disponibilizado gratuitamente tão logo seja publicado. Para isto,
libera recursos ao pesquisador, da ordem de US$ 3 mil por artigo, no sentido
de que tal regra seja cumprida.
Com isto, estes artigos poderão ser lidos por um número maior de
pesquisadores, objetivo principal de todos os autores. Esta política aumenta
a chance de que um determinado artigo tenha maior impacto, seja mais citado
por outros autores e, com isto, aumente o prestígio da revista que o
publicou.
No Brasil, as agências ainda não fixaram uma política em relação às
publicações científicas. No entanto, isto é uma questão de tempo, uma vez
que regulamentar a publicação de artigos científicos pelas agências que os
financiam é uma tendência mundial.
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Prof. Murilo Bastos da Cunha, Ph. D.
Universidade de Brasília/Dept. Ciência da Informação e Documentação
Campus Universitário
Brasília, DF 70900-910 Brasil
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