Anfíbios contemporâneos
Os modos de observar e viver a realidade tem
variado ao longo do tempo. William Ford Gibson*
que cunhou a palavra ciberespaço escreveu
Neuromancer o seu primeiro livro em que
introduzia novos conceitos para a época, como
inteligências artificiais avançadas e um
ciberespaço como sendo um lugar de comunicação
que descarta a necessidade do homem físico para
constituir uma troca de informação quando em
relacionamento. Um espaço em que a vivência não
necessita uma presença corpórea.
Podemos diferenciar esta ambiguidade como estar
na terra ou no mundo. A terra é a parte sólida do
globo, espaço e território da vida temporal
profana e fisica com fundamento real seguro,
sólido e incontestável. E é na força desta
posição que a terra passa a ocupar um lugar no
universo das realizações físicas; um
lugar que converte o espaço em possibilidades
de fixar, espacializar e localizar. Ao longo da
história, a terra tem proporcionado aos homens os
recursos para criar, viver, morrer.
O mundo não é o da realidade fisica como um
principio regulador da razão aterrada quando na
relação com outros seres. É o continuum das
relações sustentadas pela técnica e sua
tecnologia. O eixo, em que giram o princípio e o
fim de todas as coisas sem território: "para o
peito doido do homem nenhuma pátria é possível!" **
É difícil entender e observar o momento exato em
que estamos inseridos, por mais incrível que ele
possa ser. Existe uma proximidade alienante que
nos impede de ver uma contemporaneidade. Estar e
ser contemporâneo é uma relação intrincada entre
nós e o tempo. Representa o momento exato que a
alma fica como que suspensa entre dois estado.
Todos aqueles que estão muito coincidentes com a
sua época não são contemporâneos, pois não podem
fitá-lá nesta proximidade. Estar na
contemporaneidade não é um entendimento é um
estar ali com intensidade, mas sem contudo, poder
perceber o exato momento em que a flor vai fenecer.
Tavez por isso não possamos ter o afastamento
necessário para entender que existimos hoje em
duas realidades: uma realidade objetiva onde
vivemos corporeamente uma presença fisica e
construímos todos os atos e traços de nossa
aventura individual rumo ao (in)finito, em
direção a um fim. Uma outra realidade virtual
denota a extrapolação do concreto; de rompimento
com as formas tradicionais do acontecer. O
virtual sendo oposto do ao atual, carrega uma
potência de ser. Nessa realidade, por suas
características, vivemos sem uma presença fisica,
não importando distancias ou superfícies. Nela
podemos ser o avatar de tudo aquilo que sonhamos
ser na atualidade contemporânea.
É importante saber, então, que habitamos duas
realidades na mesma época. A anfibiedade que
vivemos é a capacidade adquirida de habitar e
interatuar em contextos e condições
diferenciadas. É a anfibiedade do animal que pode
viver na terra ou na água. Aterrado no viver
físico ou libertado de amarras no mundo virtual.
Gibson nos diz "um dos nossos erros é a distinção
que fazemos entre digital e analógico e entre
virtual e real. No futuro esta diferença será
literalmente impossível. A distinção sobre o
ciberespaço e o que não é ciberespaço será inadmissível."
Nossa anfibiedade faz nosso viver estar em dois
espaços: o da realidade da existência e o da
realidade potencial onde existimos
metaforicamente linkados a outros e são eles que
nos definem. São eles que executam a
transferência do que somos para um significado
decidido pelos que nos designam no mundo virtual.
No mundo virtual somos, então, definidos por quem
nos olha e conosco convive ali. Eu existo
virtualmente no mundo dos meus outros sem
distancia espaço ou tempo definido. Minha
vivência é a da conexão ou conexões e meu destino
são os meus links. Virtualmente existo
na translação da metáfora, na transferência das
minhas narrativas para um âmbito simbólico que
não é fixo, físico ou designado; ele se
fundamenta num movimento sem corpo em que todas
as partículas têm, só por cada instante, a
mesma velocidade e se mantém em uma direção
inconstante. Uma relação de separação entre dois
instantes, dois lugares ou dois estados do ser.
Notas
1 - Foi usado no texto os conceitos de Ma e
Utsori de Roland Barthes 2 - William Gibson autor
do famoso livro "Neuromancer (1984), e cunhou o
termo Ciberespaço 3 - usamos alguns temas de
Rafael Cippolini em
Cippodrmo http://cippodromo.blogspot.com/ 4
- De Carneiro Leão, A Técnica e o Mundo no
Pensamento da Terra"- ** Hoelderlin em 1795
tambem publicada em http://avoantes.blogspot.com
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