Eugenio C. G. Hansen, OFS
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O poder só é limpo quando se traduz em serviço.
                                                           Francisco de Juanes
Quem é sábio, aprende muito com os seus inimigos.
                                                           Aristófanes, 447-385 
a.C.
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Paz e bem!

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=23807
 acesso em 10 jul. 2009.

O professor no curso de Comunicação Digital e coordenador do curso de Jogos 
Digitais da Unisinos, João Bittencourt conversou com a IHU On-Line,
por e-mail, sobre como a internet está mudando nosso “jeito” de viver.
Por isso, ele explica que a web não apenas oportunizou novos
instrumentos de comunicação, como também disponibilizou novas formas de
conhecimento e de relação e, desta maneira, está criando uma cultura
“mais cooperativa, mais comunicativa, mais informada sobre qualquer
coisa”. No entanto, ele diz que essa nova cultura pode gerar também uma
sociedade “mais superficial, mais impaciente”.
Ainda que a internet e suas possibilidades estejam mudando nosso
cotidiano em função das novas formas de fazer funcionar o mundo, Bittencourt
salienta que “o século XXI irá tornar-se um caos caso se mantiver por
mais alguns anos com esta mentalidade analógica”. O professor sugere
que “a sociedade atual deve se conscientizar da importância do
tele-trabalho” e, assim, mudar a lógica analógica com que atuamos hoje.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Hoje, em sua opinião, quais são as tecnologias que moldam o mundo?
João Bittencourt - Acredito que a mais evidente,
sem dúvida, é a internet. Trata-se de uma revolução na forma de
comunicação e na produção de novos conhecimentos. Além disso, a cultura
web acaba influenciando as pessoas no seu cotidiano “offline”. Por
exemplo, o fato de algo não funcionar 24 horas, ou um serviço ser
demorado ou muito complicado/burocratizado de ser feito, acaba nos
irritando. Certamente isso é influência deste mundo online. Além da
internet, destaca-se a questão da mobilidade. A possibilidade de
acessar a web de um celular, a qualquer hora, em qualquer lugar, é algo
fascinante.
IHU On-Line - Como o senhor vê a aproximação do Direito ao
campo da Comunicação Digital, principalmente no que diz respeito ao uso
das tecnologias da comunicação?
João Bittencourt -  Na minha visão, o Direito se
aproxima da comunicação digital no que tange, principalmente, a
produção do conteúdo e o direito autoral. A relação de autoria é
fortemente modificada pela web. O sujeito deixa de ser meramente
consumidor e passa também a ser um produtor. Fortifica-se o conceito de
co-autoria e da remixagem. Partes das obras são recombinadas, recriando
novos produtos. Neste contexto, surge a licença Creative Commons [1], chamada 
de copyleft, o contrário do copyright.
Neste modelo de licença, o autor define se permite que a obra seja
usada sem fins comerciais e se é possível gerar obras derivadas dela.
IHU On-Line - E como o senhor vê a relação entre comunicação e mobilidade? Qual 
o futuro das cidades a partir dessa relação?
João Bittencourt - Acredito que o século XXI irá se
tornar um caos caso se mantiver, por mais alguns anos, com esta
mentalidade analógica. As grandes cidades estão caóticas em função da grande 
quantidade de carros nas ruas.
A sociedade atual deve se conscientizar da importância do
tele-trabalho, de usar as tecnologias para trabalhar a partir de suas
residências. Por exemplo, o litoral gaúcho sofre fortemente no período
do inverno. Muitos profissionais poderiam morar no litoral e trabalhar
remotamente. Além de evitar o tumulto no trânsito, acabaria
redistribuindo as pessoas nas cidades e favorecendo a economia local.
Além deste aspecto, outro lado que deve ser revisto é a mobilidade que
as cidades irão receber com uma camada adicional de informação
acessível de qualquer lugar e usando diferentes dispositivos (um
celular, um notebook...). A computação ubíqua trata exatamente deste
aspecto. Por exemplo, poderíamos ir a um museu, apreciar uma
determinada obra de arte e, com um celular, apontar para uma obra e
obter mais informações sobre o autor, sobre a técnica usada. Essas
tecnologias vão acabar mudando a relação do homem com a cidade.
IHU On-Line - O Brasil "invadiu" o Orkut e, de acordo com o
relatório do O'Reily Radar sobre o crescimento do Facebook, é o país
onde o Facebook mais cresceu na América Latina. Como o senhor vê nosso
país no cenário da comunicação digital no mundo?
João Bittencourt -  O brasileiro é conhecido no
exterior pela sua espontaneidade; é um povo alegre e comunicativo. Sem
dúvidas, se sentirá atraído por estes ambientes online, onde poderá
conhecer novas pessoas, formas, amizades, namoros, contatos. É muito
interessante observarmos nas lan houses
da periferia das cidades da Grande Porto Alegre placas anunciando o
acesso ao Orkut e ao MSN. O brasileiro também gosta muito da sociedade
do espetáculo, de bisbilhotar a vida dos famosos e de ter seus quinze
minutos de fama. Se não gostasse, o Big Brother Brasil não estaria indo para a 
décima edição. As redes sociais
são uma forma de oportunizar estes minutos de fama, do sujeito se
tornar conhecido e poder bisbilhotar não só na vida dos famosos, mas
dos colegas, vizinhos e amigos.
IHU On-Line - Como o senhor vê o conceito de poder liberador das redes sociais?
João Bittencourt - Na verdade, o poder liberador
está no conceito da internet, de uma grande rede de comunicação e
informação. A riqueza revolucionária está na capacidade de transformar
o receptor/consumidor em emissor/produtor de conteúdo. O caso recente
do Irã é um exemplo disso. No século XXI, as ditaduras se tornam mais
difíceis, fica mais complicado querer oprimir a imprensa oficial, pois
existem centenas de pessoas com acesso à tecnologia e à internet, que
podem transmitir a informação para todo o mundo, no momento em que o
fato está ocorrendo. Não é só politicamente que as coisas mudam, mas o
perfil do consumidor também se altera. As próprias campanhas
publicitárias perdem a força no sentido de que hoje muitas pessoas não
compram nada antes de ver a opinião de outros na internet. Antes, só
uma campanha publicitária bem feita era suficiente. Atualmente, é mais
difícil efetuar este convencimento.
A internet comercial no Brasil começou há 14 anos, com a conexão
discada e o modem de 14.4 Kbps, ocupando a linha telefônica, com contas
altíssimas por um serviço lento. É óbvio que o nosso cenário
tecnológico atual não é dos melhores, mas muita coisa mudou. Hoje temos
mais acesso à banda larga, novos planos mais acessíveis para a internet
discada e até a internet 3G. Sem ter uma postura alienante,
considerando nossos problemas sociais, podemos dizer que um jovem de
classe média, nascido há 14 anos, já tinha em casa um mundo com água,
luz, telefone e internet. No início do século passado, aqui mesmo em
Porto Alegre, nas regiões rurais, só havia água do poço ou do córrego
mais próximo. Isso, sem dúvida, muda fortemente nossa sociedade, nossos
valores e nosso comportamento de uma forma radical. As redes sociais
são meramente mais um modismo tecnológico deste universo em rede. A
libertação está no protagonismo do sujeito.
IHU On-Line - O conceito de web 2.0 ainda pode ser considerado atual?
João Bittencourt – Na minha opinião, ainda é. Na verdade, a internet pensada 
por Tim Berners Lee
[2] é a web 2.0 - do compartilhamento, da co-autoria, da sociedade em
rede. A geração web 1.0 só existiu pela falta de tecnologia da época.
Só hoje estamos realmente vivendo a web 2.0. Ainda não temos boas
aplicações para dizermos que já estamos em uma web 3.0, que seria o uso
mais inteligente da informação disponível na web. Temos exemplos de
agregadores de RSS, feeds, também os mashups, que agregam várias
informações em um site. Mas ainda estamos longe de um uso inteligente e
adaptativo desta informação. Para isso, precisamos de agentes
artificiais que apliquem inteligência artificial nestas ferramentas,
para adaptar o conteúdo conforme o perfil do usuário. 
Nicolas Negroponte [3] em seu livro Vida Digital
(São Paulo: Companhia das Letras, 1995) já tratava da necessidade de
termos estes agentes inteligentes para organizar a informação para o
sujeito. Imagine a quantidade de vídeos que são criados pelas
produtoras e pelas pessoas. Chegamos em casa cansados e queremos
assistir a um vídeo para relaxar. Queremos ligar a TV e ver o que está
passando, sem ficar horas fazendo buscas. Neste caso, seria ótimo se
houvesse um agente que sabe meu perfil, meus gostos, o que gosto de
assistir em determinado dia/horário e, quando eu ligar a TV, já
assistir a um vídeo adequado ao meu perfil. Quando estivermos nesse
nível, podemos começar a falar de uma web 3.0.
IHU On-Line - Que sociedade a cibercultura está ajudando a criar?
João Bittencourt – Uma sociedade mais cooperativa,
mais comunicativa, mais informada sobre qualquer coisa (sem entrar no
mérito do julgamento da qualidade e da relevância desta informação).
Algumas pessoas têm a oportunidade de serem criativas e colaborarem na
criação de novos artefatos digitais. Outras, mais críticas, podem
construir uma sociedade mais democrática, no sentido de oportunizar a
difusão de ideias e conceitos. Em contrapartida, também gera uma
sociedade mais superficial, mais impaciente, com síndrome de 24 horas
por 7 dias na semana, mais efêmera, mais casual, sem heróis, mas cheia
de personalidades relâmpagos, que são conhecidas por campanhas virais.
Notas:
[1] Creative Commons pode denominar tanto um
conjunto de licenças padronizadas para gestão aberta, livre e
compartilhada de conteúdos e informação (copyleft), quanto a homônima
organização sem fins lucrativos norte-americana que os redigiu e mantém
a atualização e discussão a respeito delas.
[2] Timothy John Berners-Lee é o inventor do World Wide Web e diretor do World 
Wide Web Consortium, que supervisiona o seu desenvolvimento.
[3] Nicholas Negroponte é um cientista
estadunidense, formado em Arquitetura. É um dos fundadores e professor
do Media Lab, o laboratório de multimídia do Massachusetts Institute of
Technology (MIT) 
Para ler mais:Seis tecnologias que moldam nosso mundoSociedade das 
possibilidades. Entrevista especial com Celso Candido de Azambuja



      
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