O leão, a caçada e o Vôo de Levy
Ah, Ahab, no mar te deixo sem bote, que te conduza,
sem bóias que te sustentem, entregue a tua pequenez de homem *
Na idade média, que consideramos como algo entre
os anos 900 e 1300, a informação era um
privilegio erudito e estava retida nos muros dos
mosteiros cuidada e vigiada pelos frades
bibliotecários. Umberto Eco no livro O Nome da
Rosa mostra esta prisão no discurso de Jorge, o
chefe dos monges copistas da abadia medieval:
"Mas é próprio de nosso trabalho, do trabalho de
nossa ordem em particular e deste mosteiro o
estudo e a custódia do saber, a custódia digo não
a busca, porque é próprio do saber coisa divina,
ser completo e definido desde o inicio, na
perfeição do verbo que exprime a si mesmo". "Não
há progressos, não há revoluções de períodos na
história do saber, mas no máximo, continua e sublime recapitulação."
A informação foi cativa, por longos anos, em
diferentes muralhas: desde os monastérios aos
universos simbólicos particularizados pelas
ideologias para organizar e controlar o saber,
passando pelos monopólios editoriais. Entre
alforrias e prisões ela chegou até a época da
Internet quando grande parte dos textos é
democraticamente liberado, livre e em linguagem
natural. Mas muitos insistem em continuar
operando na sublime recapitulação medieval.
A área de informação se construiu continuamente
ao sabor das inovações da tecnologia. É um campo
voltado para as aplicações e por isso sua
possível estrutura teórica corre atrás das
práticas já estabelecidas para tentar uma
explanação que se agregue, a posteriori, a um
fragmentado corpo. Por isso prefiro sempre lidar
com a sua historiografia que com sua epistemologia acompanhante.
Pois, contar a história de como se atuava com a
informação no passado é didático e fundamental
para o entendimento da evolução da coisa toda e
para basear sua memória. "Enquanto o leão não
escrever a sua versão a memória da caçada exaltará ao caçador"
O livre fluxo de informação e sua distribuição
equitativa tem sido um sonho de aplicação
tecnológica de diversos homens em diversas
épocas. A rede de saber universal é uma
preocupação desde a Academia de Lince, na Itália,
talvez a mais velha sociedade científica
funcionando desde 1603. Para conseguir este
intento as técnicas para tratar a informação vêm
mudando sucessivamente sem que o novo acabe, totalmente, com o que existiu.
O leão que habita os agregados de informação
sofre os efeitos da tecnologia caçadora que é de
busca assídua, mas também de acossamento. A
tecnologia atua como no "vôo de Levy * que
explica os grandes saltos e depois o ciscar das
técnicas paralelas no mesmo padrão.
Depois de 1945 Vannevar Bush saltando para o
novo, em um longo vôo, mudou o pensar e as
práticas da informação e sua distribuição. Um
novo vôo veio de meados de 1980 até 1995 com a
informação assumindo um novo status com a internet e a interface gráfica web.
As tecnologias de informação e sua disseminação
modificaram aspectos fundamentais, tanto da
condição da informação quanto da sua participação
na vida de todos. Estas tecnologias intensas
mudaram o tempo e do espaço na relação
estabelecida entre os emissores e os receptores
para criação e acesso aos seus estoques. A
situação criada a partir de 1995 com a web
permite a existência de um eu-prótese
instrumentado para lidar e publicitar a
informação em uma nova configuração com o tempo,
o espaço e a leitura. É o leão contando sua
história e se posicionando na memória da caçada.
O arcabouço tecnológico que possibilita esta nova
interação ainda é restritivo em termos econômicos
e requer aprendizado; não está socialmente
resolvido para todos, mas isto não anula as
condições que colocam a informação eletrônica
como uma nova maneira de ingresso e participação
mais democrática no jogo dos enunciados para compor a narrativa final.
É preciso,contudo, refletir sobre qual é o limite
da tecnologia ou da incessante busca nesta caçada
perseguindo a informação como meio de ascensão
igualitária. A partir de que ponto este conjunto
de técnicas deixa de ter interesse social.
Seria o limite da tecnologia o momento em que a
inovação criada se volta contra o indivíduo?
Iniciando problemas éticos, legais,
socioeconômicos e mudanças na relação do homem
com suas próteses. As tecnologias de informação
de tão intensas em inovação podem aumentar os
poderes das máquinas transformando o indivíduo em objeto destes poderes.
Tem sido pensado neste tempo cibernético a
questão da importância da tecnologia quando
ponderada com a possibilidade de uma existência
mais simples, menos imediata e com a felicidade
pautada pelo singelo e doce sentimento do passar da existência.
Uma considerável parte da convivência atual
acontece virtualmente em uma realidade paralela.
Cada vez mais a opção de um viver escondido se
mostra nos "Chats", no "Facebook", no "Twitter" e
espaços virtuais paralelos. Uma segunda vida é
possível. O sentimento da existência pode agora
ser vivido por nosso eu-prótese existindo em espaços de vivência sem presença.
Esse é um fatalismo da realidade eletrônica
quando exclui do mundo o contato corporal para o
conviver na felicidade do virtual onde a energia
é a emergência em todas as suas com sequências. A
felicidade pela visibilidade está colocada no
discurso interior do diálogo consigo mesmo e com
o outro, colóquio que não existe fora de um
contexto de sociabilidade mesmo no mundo cibernético.
Aldo de A Barreto
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* Moby Dick de Herman Melville [também uma história de caçada]
* O vôo de Lévy é tese do matemático francês,
Paul-Pierre Lévy (1886 - 1971), explica um
movimento vantajoso, por exemplo, quando uma
fonte de alimento está distribuída de maneira
esparsa e aleatória. A estratégia mais proveitosa
para um animal em busca de uma refeição é, nesses
casos, fazer grandes jornadas e depois ciscar em
pequenos movimentos e por um tempo para vasculhar
os arredores. Se não encontrar mais nada, é voar
para outra zona distante onde a probabilidade de
encontrar novo alimento talvez seja maior.
Postado também em http://avoantes.blogspot.com/
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