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From: eiabel lelex <[email protected]>
Date: 2009/8/3
Subject: [submidialogia] 'Os mercados financeiros são o coração
pulsante do capitalismo cognitivo'
To: submidialogia <[email protected]>


''Os mercados financeiros são o coração pulsante do capitalismo cognitivo''.


Entrevista especial com Andrea Fumagalli


Para o economista italiano Andrea Fumagalli, “a governança política e
social baseada na dinâmica livre dos mercados financeiros não tem
condições de garantir uma distribuição de renda adequada em relação à
nova forma de acumulação e valorização do capitalismo cognitivo”. Na
entrevista que segue, concedida por e-mail para a IHU On-Line, “a
estrutura da propriedade privada parece inadequada para desenvolver a
cooperação social que é necessária para melhorar o processo de
acumulação, baseado cada vez mais em conhecimento, relações e
aprendizagem”. Fumagalli explica que “a compensação entre a
propriedade intelectual e a necessidade de livre circulação e difusão
do conhecimento é uma das causas da atual instabilidade estrutural. O
conhecimento é um bem ‘comum’, e se ele é privatizado, sua valorização
social diminui”.

Ele explica por que considera que, atualmente, os mercados financeiros
são o coração pulsante do capitalismo cognitivo. “Eles financiam a
atividade da acumulação: a liquidez atraída para os mercados
financeiros recompensa a reestruturação da produção que visa à
exploração do conhecimento e ao controle de espaços externos aos
negócios tradicionais”.

Doutor em Economia Política, Andrea Fumagalli é atualmente professor
no Departamento de Economia Política e Método Quantitativo da
Faculdade de Economia e Comércio da Università di Pavia, Itália. Seus
temas de interesse são teoria macroeconômica, teoria do circuito
monetário; economia da inovação e da indústria, flexibilidade do
mercado de trabalho e mutação do capitalismo contemporâneo: o
paradigma do capitalismo cognitivo, entre outros. Dentre seus vários
livros publicados, citamos: Il lavoro. Nuovo e vecchio sfruttamento
(Milão: Punto Rosso, 2006), Bioeconomia e capitalismo cognitivo, Verso
un nuovo paradigma di accumulazione (Roma: Carocci Editore, 2007), e
La crisi economica globale (Verona: Ombre corte, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor pode falar brevemente sobre as dez teses que o
grupo de pesquisadores da Universidade Nômade levantaram recentemente
no sentido de tentar compreender a atual crise internacional?

Andrea Fumagalli - As dez teses são fruto de uma discussão coletiva
que começou com um seminário sobre a crise financeira, organizado pela
Universidade Nômade, em Bolonha, nos dias 12 e 13 de setembro de 2008
e que continua até hoje. Marco Bascetta, Federico Chicchi, Andrea
Fumagalli, Stefano Lucarelli, Christian Marazzi, Sandro Mezzadra,
Cristina Morini, Antonio Negri, Gigi Roggero e Carlo Vercellone
participaram dele, e eu redigi o texto. Podemos dizer que ele é o
resultado do “intelecto geral” do movimento italiano, especialmente
daquela parte que tem uma abordagem mais heterodoxa da análise
marxista e provém da tradição do “operaísmo” (novo movimento
operário).

IHU On-Line - O capitalismo está mesmo em crise? O que a caracteriza?
Ela representa também a crise da teoria neoliberal?

Andrea Fumagalli - Antes de mais nada, pensamos que a atual crise
financeira é uma crise sistêmica. É a crise de todo o sistema
capitalista que vem se desenvolvendo desde a década de 1990 até agora.
Isso tem a ver com o fato de que, atualmente, os mercados financeiros
são o coração pulsante do capitalismo cognitivo. Eles financiam a
atividade da acumulação: a liquidez atraída para os mercados
financeiros recompensa a reestruturação da produção que visa à
exploração do conhecimento e ao controle de espaços externos aos
negócios tradicionais.

Isso quer dizer que as origens da crise e suas caracterizações têm a
ver com os seguintes fatos:

1. A governança política e social baseada na dinâmica livre dos
mercados financeiros não tem condições de garantir uma distribuição de
renda adequada em relação à nova forma de acumulação e valorização do
capitalismo cognitivo. A negociação individual, a incerteza de
receitas estáveis por causa do aumento da precariedade, a redução de
salários, principalmente nos países ocidentais, favorecem o aumento de
uma dívida especulativa e instável, de um lado, e afetam negativamente
a exploração das economias de ganho e de escala (portanto, os ganhos
de produtividade), por outro.

2. A estrutura da propriedade privada parece inadequada para
desenvolver a cooperação social que é necessária para melhorar o
processo de acumulação, baseado cada vez mais em conhecimento,
relações e aprendizagem (numa só palavra, no intelecto geral). A
compensação entre a propriedade intelectual (o tipo de propriedade
privada que substituiu parcialmente a propriedade privada de
maquinário) e a necessidade de livre circulação e difusão do
conhecimento é uma das causas da atual instabilidade estrutural. O
conhecimento é um bem “comum”, e se ele é privatizado, sua valorização
social diminui.

IHU On-Line - Quais as consequências do fato de esta crise ser sistêmica?

Andrea Fumagalli – A principal é que ela necessita de intervenções
sistêmicas e estruturais.

IHU On-Line - O que significa a crise da estrutura do biopoder
capitalista atual?

Andrea Fumagalli - Os mercados financeiros, redirecionando
forçosamente parcelas crescentes das receitas do trabalho (como, por
exemplo, pagamentos por demissão e seguridade social, diferentes das
receitas que, através do Estado social, traduzem-se em programas
estatais de saúde e instituições educacionais públicas), substituem o
Estado como principal provedor de seguridade social e bem-estar. Desse
ponto de vista, eles representam a privatização da esfera reprodutiva
da vida. Por isso, exercem biopoder. A crise financeira é,
consequentemente, uma crise da estrutura do atual biopoder
capitalista.

IHU On-Line - Que alternativas podemos imaginar neste momento, do
ponto de vista econômico?

Andrea Fumagalli - Pensamos que atualmente não há condições de
implementar uma espécie de New Deal institucionalizado (como foi
possível na década de 1930), isto é, um New Deal resultante de uma
conciliação política entre o trabalho e o capital. Segue-se que
podemos nos deparar com duas soluções possíveis: a primeira é um
aumento na instabilidade geopolítica internacional (rumo a uma nova
guerra global?), especialmente a fim de definir um novo equilíbrio
hierárquico econômico global, em que os EUA perderão o controle
unilateral das finanças e da tecnologia. A segunda é que um New Deal,
que se baseie numa forma nova de distribuição de renda (por exemplo,
renda básica) e ultrapasse a dicotomia entre propriedade privada e
estatal rumo a uma propriedade “comum”, seja imposto pela força do
movimento social, isto é, um New Deal a partir de baixo. Uma terceira
oportunidade pode residir no desenvolvimento de uma nova trajetória
econômica, técnica e social, que normalmente é chamada de “economia
ecológica”, capaz de resolver qualquer problema com um salto forte no
futuro. Mas sou cético quanto a ela, porque esta crise necessita de
uma solução de curto prazo e respostas políticas imediatas e gerais.

IHU On-Line - Com esta crise, que outros valores ganham mais espaço no
cenário atual? Qual o peso, por exemplo, que adquire o capitalismo
cognitivo?

Andrea Fumagalli - Penso que esta é a crise da implementação do
capitalismo cognitivo, como a crise de 1929 foi a crise do taylorismo
em seu início. A atual crise financeira, que se segue a outras
ocorridas nos últimos 15 anos, destaca, de forma sistemática e
estrutural, a inconsistência do mecanismo regulatório de acumulação e
distribuição que o capitalismo cognitivo tentou se dar até agora. Além
disso, com o advento do capitalismo cognitivo, o processo de
valorização perde todas as unidades de mensuração quantitativa ligadas
à produção material. Essas medições eram, de certa forma, definidas
pelo conteúdo do trabalho necessário para a produção de mercadorias,
mensurável com base na tangibilidade da produção e no tempo necessário
para a produção. Com o advento do capitalismo cognitivo, a valorização
tende a ser desencadeada em diferentes formas de trabalho ou mão de
obra que cortam as horas de trabalho efetivamente verificadas para
coincidir cada vez mais com o tempo geral da vida. Atualmente, o valor
do trabalho ou da mão de obra está na base da acumulação capitalista e
é também o valor do conhecimento, dos afetos e das relações, do
imaginário e do simbólico. O resultado dessas transformações
biopolíticas é a crise da medição tradicional do valor do trabalho ou
da mão de obra e, junto com ela, a crise da forma do lucro. Uma
solução “capitalista” possível era a medição da exploração da
cooperação social e do intelecto geral por meio da dinâmica dos
valores de mercado. Dessa maneira, o lucro era transformado em renda,
e os mercados financeiros se tornaram o lugar onde o valor do trabalho
ou da mão de obra era determinado, transformado num valor financeiro
que não é outra coisa do que a expressão subjetiva das expectativas de
lucros futuros gerados por mercados financeiros que, dessa forma,
reivindicam renda. A atual crise financeira assinala o fim da ilusão
de que o financiamento pode constituir uma unidade de medição do
trabalho ou da mão de obra, ao menos no atual fracasso do capitalismo
contemporâneo em termos de governança cognitiva. Consequentemente, a
crise financeira é também uma crise da valorização capitalista.

IHU On-Line - Como tem aparecido nos debates econômicos a proposta de
uma maior intervenção do Estado na economia?

Andrea Fumagalli - É muito divertido o fato de que alguns dos
economistas neoliberais que ainda há dois anos se horrorizavam com a
ideia de intervenção estatal agora são a favor dela, talvez citando
Keynes e/ou Marx. É claro que esse tipo de intervenção estatal é
apenas instrumental. Ela segue o princípio da socialização dos
prejuízos, a fim de recuperar no futuro a privatização dos lucros. Mas
o principal problema é que a intervenção estatal só desempenha o papel
de tapar os atuais buracos resultantes da falta de liquidez monetária
(escassez de crédito) sem perspectivas de intervir nas razões
estruturais da crise.

IHU On-Line - Neste momento de crise, qual a importância da união
entre países, como é o caso da União Europeia, Mercosul, etc.?

Andrea Fumagalli - Ela é muito importante. Um dos resultados desta
crise é a morte definitiva da soberania do Estado nacional. Só é
possível imaginar uma nova governança política supranacional.
Naturalmente, essa possibilidade depende das relações dinâmicas entre
as mais relevantes áreas do mundo, especialmente do eixo EUA-Bric
(Brasil, Rússia, Índia e China). Quanto à Europa, a crise demonstra as
dificuldades do processo de construção da União Europeia econômica.

IHU On-Line - Que cenários de conflitos sociais são abertos pela crise
financeira atual?

Andrea Fumagalli - É bastante difícil responder a essa pergunta. Com
certeza, essa crise pode ser uma grande oportunidade para os
movimentos sociais globais. A razão disso reside no fato de que, no
capitalismo cognitivo, não há espaço para uma reforma política
institucional que seja capaz de reduzir a instabilidade que o
caracteriza. Nenhum New Deal inovador é possível a não ser aquele
impelido pelos movimentos sociais e pelas práticas da
institucionalidade autônoma mediante a reapropriação de um sistema de
bem-estar saqueado por interesses privados e congelado na política
pública. Algumas das medidas que podem ser identificadas, desde a
regulamentação dos salários baseada na proposta de uma renda básica
até a produção com base na livre circulação do conhecimento, não são
necessariamente incompatíveis com os sistemas de acumulação e
subsunção do capital, como sugeriram vários teóricos neoliberais. De
qualquer modo, novas campanhas de conflito social e reapropriação da
riqueza comum podem ser iniciadas com a finalidade de solapar a
própria base do sistema produtivo capitalista, isto é, a coerção do
trabalho ou da mão de obra, a renda como ferramenta de chantagem e
dominação de uma classe sobre outra e o princípio da propriedade
privada dos meios de produção (ontem eram as máquinas, hoje também é o
conhecimento). Em outras palavras, podemos afirmar que no capitalismo
cognitivo uma possível conciliação social de origem keynesiana, mas
adaptada às novas características do processo de acumulação, é apenas
uma ilusão teórica, sendo inviável de um ponto de vista político.

Uma política reformista plenamente desenvolvida (que tende a
identificar uma forma de mediação entre o capital e o trabalho que
seja satisfatória para ambos), capaz de garantir um paradigma
estrutural estável do capitalismo cognitivo, não pode ser delineada
atualmente. Assim, estamos num contexto histórico em que a dinâmica
social não deixa espaço para o desenvolvimento de práticas reformistas
e, acima de tudo, de “teorias” reformistas. O que se segue disso é
que, percebendo que é a práxis que orienta a teoria, só o conflito e a
capacidade de criar movimentos multitudinários podem permitir – como
sempre – o progresso social da humanidade. Só o reavivamento de
conflito social forte supranacional pode criar as condições para
superar o estado atual de crise. Deparamo-nos com um aparente
paradoxo: para tornar possíveis novas perspectivas reformistas e a
estabilidade relativa do sistema capitalista, é necessária uma ação
conjunta de natureza revolucionária, capaz de modificar os eixos sobre
os quais se baseia a própria estrutura de comando capitalista.

Precisamos, portanto, começar a imaginar uma sociedade
pós-capitalista, ou, melhor ainda, a reelaborar a batalha pelo
bem-estar [welfare] na crise como organização imediata das
instituições do comum. Isso não elimina definitivamente as funções da
mediação política, mas remove-as definitivamente das estruturas
representativas e absorve-as no poder constituinte de práticas
autônomas. Em outras palavras, estamos lidando com a transformação do
“comunismo do capital” no “comunismo do intelecto geral” como força
viva da sociedade contemporânea, capaz de desenvolver uma estrutura de
“estar-comum” [commonfare] e de estabelecer-se como uma condição
efetiva e real da opção humana pela liberdade e igualdade. Entre o
“comunismo do capital” e as instituições do comum não há especulação
ou relação linear de necessidade: trata-se, em outras palavras, de
reapropriar-se coletivamente da riqueza social produzida, rompendo os
dispositivos da subsunção e do comando capitalista na crise
permanente.

Em tal processo, o papel autônomo desempenhado pelos movimentos
sociais é importante, não só como programa e ação de caráter político,
mas também, e acima de tudo, como ponto de referência para as
subjetividades, singularidades ou segmentos de classe mais duramente
atingidos e fraudados pela crise. A capacidade de subsunção real da
vida no processo de trabalho e produção, a difusão de imagens
culturais e simbólicas onipresentes com base em elementos do
individualismo (começando com o individualismo “proprietário”) e
medidas de “segurança” constroem os principais pontos críticos do
processo de controle social e cognitivo do comportamento dos
trabalhadores e do proletariado. O alcance e a organização de uma
subjetividade autônoma, que já vive nas práticas de resistência e
produção de uma nova composição de classe, são condições necessárias
para desencadear processos conflituosos, capazes de modificar as
atuais hierarquias socioeconômicas. Deste ponto de vista, todos os
excessos e insurgências que as subjetividades nomádicas conseguem
alcançar e animar são bem-vindas. É só dessa maneira, como mil gotas
que se encontram para formar um rio ou mil abelhas que formam um
enxame, torna-se possível colocar em movimento formas de reapropriação
da riqueza e do conhecimento, invertendo a dinâmica redistributiva,
forçando os que causaram a crise a pagar por ela, repensando uma nova
estrutura do bem-estar social e comum, imaginando novas formas de
auto-organização e produção compatíveis com o respeito pelo meio
ambiente e pela dignidade dos homens e mulheres que habitam este
planeta.

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Palestina livre!



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