Mais uma das bem sucedidas criações de garotos de 22 anos (idade que tinham esses empreendedores há 10 anos) que se consolida como negócio milionário. ==================================
Uma festa de R$ 600 milhões Fonte: Istoé Dinheiro Autoria: Roberta Namour e Claudio Gatti A venda do Buscapé, o site criado por quatro garotos com R$ 100, provoca euforia e deixa uma pergunta: é o início de uma nova onda de investimentos na internet? Durante dois dias, o celular de Romero Rodrigues tocou ininterruptamente. Do outro lado da linha, cumprimentos calorosos, vindos até de velhos rivais. Cada vez que atendia às ligações, a euforia era a mesma. O peito estufado de satisfação, a risada nada contida. Rodrigues completou 32 anos na quinta-feira 1º. Mas a alegria não se deve apenas à comemoração do aniversário. No dia anterior, 30 de setembro, sua empresa fechou uma das maiores negociações da história da internet brasileira. É a mais relevante, pelo menos, desde o estouro da bolha, no início do século. O Buscapé, site de comparação de preços que ele criou em 1999 com três amigos, recebeu US$ 342 milhões por 91% de suas ações, o equivalente a cerca de R$ 600 milhões. "Até agora não me dei conta do que isso representa", diz Rodrigues, que ocupa o cargo de presidente do Buscapé. Ele pode estar atônito de felicidade - e talvez só daqui a alguns dias possa dimensionar o que o negócio significa - mas até a concorrência já tem na ponta da língua um palpite. "A operação projeta o Brasil de volta ao radar de grandes investidores globais", afirma Rodin Spielmann, diretor de Relações com Investidores da Ideiasnet. A cifra, digna de transações de países desenvolvidos, é vista por analistas do mercado como o início de uma nova onda de investimentos na internet. "A diferença é que, desta vez, o mercado está mais desenvolvido e os negócios, mais estruturados", acrescenta Spielmann. A oferta milionária veio da sulafricana Naspers - maior grupo de mídia da África. A companhia, dona de 30% da Editora Abril, comprou a parte do fundo Great Hill Parners, até então sócio majoritário do Buscapé, e a fatia de cinco dos nove sócios minoritários. Foi nesse clima festivo que Romero Rodrigues, Rodrigo Borges e Ronaldo Takahashi, fundadores do site, e Rodrigo Guarino, fundador do Bondfaro, concorrente adquirido três anos antes, receberam a equipe da DINHEIRO, quinta- feira da semana passada. O encontro foi realizado no escritório da empresa na Vila Olímpia, em São Paulo. Junho de 1999: formação original da equipe do Buscapé, com o estudante de administração Mario Letelier (primeiro à direita) Com um sorriso contagiante, de jeans e camiseta, Romero Rodrigues abre as portas do escritório se desculpando pelo atraso. Perdeu a hora ao receber dos pais uma cesta de café da manhã em comemoração ao seu aniversário. No local, os outros três sócios o aguardam com ansiedade para apagar as velinhas de uma festa improvisada. O bolo ficou pequeno para os 350 funcionários que hoje integram a equipe. Há nove anos, naquele mesmo lugar, o grupo se resumia a pouco mais de uma dezena de pessoas. No ambiente, que atualmente abriga uma tevê gigante com videogame ligado e um hockey de mesa (jogo de mesa comum em bufé infantil), ficava apenas um computador e um beliche. A cama de dois andares era usada em esquema de revezamento durante as muitas madrugadas viradas na programação do site. Um ano antes disso, as reuniões eram feitas em casa, pelo ICQ, ferramenta de comunicação pela internet, anterior ao MSN. "Trabalhávamos de madrugada para economizar com a tarifa da internet", lembra Ronaldo Takahashi. Na época, o acesso à rede era discado e a tarifa telefônica, mais barata depois da meia-noite. Os criadores do Buscapé eram estudantes e estagiários da Poli, faculdade de engenharia da Universidade de São Paulo, e tinham renda mensal de R$ 300 cada um. O Buscapé foi a terceira tentativa empreendedora do grupo de jovens. Antes trabalharam na criação de um software para uma empresa de logística. A ideia de fazer um site de comparação de preços aconteceu por acaso. Rodrigo Borges queria comprar uma impressora pela internet, mas não conseguiu fazer uma pesquisa por falta de informações disponíveis na rede. O empecilho se tornou uma oportunidade de negócios. "Era só uma brincadeira. Decidimos apostar nela", lembra Rodrigues. O investimento inicial de cada um foi de R$ 100 para pagar a hospedagem do site e a conta do celular. "Eu nunca acreditei no Buscapé, mas eles conseguiram transformá-lo no melhor negócio do mundo", afirma Alexander Mandic, o precurssor da internet no Brasil. Atualmente, o site possui mais de 600 mil lojas cadastradas e recebe a visita de 62 milhões de usuários por mês (leia quadro). De acordo com os especialistas, o estouro da bolha da internet expulsou do mercado as empresas que tinham projetos menos viáveis Os jovens empreendedores não sabiam que seria tão difícil convencer os varejistas a disponibilizar a lista de seus preços. A equipe chegou a ser ameaçada pelo advogado de uma grande rede de varejo, contrariada por ter sido citada no Buscapé. A empresa queria que suas ofertas fossem removidas da página. Pouco tempo depois, o site passaria a cobrar uma taxa por clique efetuado pelos internautas em seus produtos. A varejista em questão foi retirada do site por não ter concordado com o esquema de cobrança. "No dia seguinte o mesmo advogado ligou dizendo que ia me processar se não voltasse a publicar suas ofertas", afirma Rodrigues. Esse não foi o único obstáculo que a equipe do Buscapé teve de enfrentar. "Chegamos a ficar nove meses sem retirar o salário, com medo de não conseguir sobreviver à crise que se alastrou pela rede", lembra Rodrigo Borges. O Buscapé foi criado um ano antes do chamado estouro da bolha na internet, em 2000. Depois de um período de euforia, muitos investimentos milionários acabaram se transformando em enormes prejuízos. Com isso, os negócios rarearam e as dúvidas sobre a viabilidade financeira de empresas ligadas à internet passaram a ser cada vez maiores. "Não foi a internet que estourou e sim o modelo de fazer negócios", lembra o especialista em economia digital Cid Torquato. "A bolha expulsou quem tinha projetos menos viáveis", acrescenta. Foi o caso da brasileira Zip.Net, especializada em informações e correio eletrônico - o popular e-mail. Aos 33 anos, Marcos Augusto de Moraes tornou-se um dos primeiros brasileiros milionários da internet ao vender seu negócio para o grupo Portugal Telecom Multimedia, em 2000. O serviço, que estava no mercado havia três anos, foi comprado por US$ 365 milhões. Vale lembrar, é mais do que os US$ 342 milhões que Rodrigues e seus sócios receberam pelo Buscapé, quase dez anos depois. A venda da Zip.Net dá a dimensão da euforia desmedida dos tempos pré-bolha. Tratava-se de uma empresa que jamais havia dado lucro (o Buscapé é rentável desde 2002) e que não era tão conhecida quanto o site que compara preços. Mesmo assim, acredite, Moraes embolsou uma bolada maior. A nova onda de investimentos da internet dá sinais de mais maturidade. "Os valores continuam altos, mas os investimentos são focados em negócios mais pé no chão", afirma Torquato. Para preservar a eficiência da empresa, a gestão do Buscapé será mantida. O valor recebido pela transação poderia proporcionar ao grupo de jovens empresários uma bela e precoce aposentadoria. No entanto, eles não estão dispostos a abandonar o barco. Nenhum executivo da Naspers ficará no Brasil. A diretoria atual será integralmente preservada. "O Buscapé tem a escala e a gestão necessárias para se tornar a âncora do e-commerce do grupo Naspers na América Latina", disse à DINHEIRO Meloy Horn, diretor de relação com o investidor do Naspers. A estrutura do site permitirá à Naspers criar na região um tipo de operação que já possui na África do Sul e no Leste Europeu. Nessas regiões, tem presença significativa na área de comércio eletrônico, algo que pretende repetir na América Latina a partir da plataforma brasileira. O interesse da Naspers pelo País é antigo. Em setembro de 2008, adquiriu 49% de participação da Compera nTime, especializada em sistemas para celular. Em maio de 2006, desembolsou US$ 422 milhões para comprar 30% do capital da editora Abril. "Regiões menos maduras, como o Brasil, oferecem oportunidades únicas a serem exploradas", ressalta Horn. A internet brasileira não voltou ao radar apenas dos grupos internacionais. A Oi anunciou recentemente um plano de negócios agressivo para o universo digital. Além de fornecer o acesso à rede a seus usuários, a operadora quer usar a internet como uma plataforma de distribuição de serviços de voz, tevê e música. "O envolvimento das empresas de telecom com a internet é inevitável", afirma Pedro Ripper, diretor de novos negócios e estratégia da Oi. "Não tirar proveito da estrutura que temos para isso seria um erro." Nessa perspectiva, a empresa irá unificar o serviço de tevê por assinatura com o Oi TV Móvel, para celulares. Além disso, transformará o portal IG em uma ferramenta convergente de mídias. "O IG nos permite chegar a geografias onde não temos acesso com a telefonia", diz Ripper. A Oi não abre o investimento destinado ao projeto. Diz apenas que está dentro do bolo de R$ 5 bilhões que investe no País anualmente. Mas o modelo da internet brasileira continua a ser um desafio para os investidores. "O governo não valoriza a internet como prioridade para o futuro do País", afirma Torquato. Além disso, a banda larga do Brasil ainda é uma das mais caras do mundo, graças principalmente à elevada carga tributária sobre o serviço. "Esse tipo de dificuldade faz com que o Brasil não desenvolva todo o seu potencial de empreendedorismo online", diz Torquato. Mesmo assim, analistas apostam num futuro promissor para o setor no País. Para empresários como Romero Rodrigues, esse futuro já chegou. "Eu sempre soube que tinha ao meu lado um time campeão", diz o empresário. "Agora mostrei ao mundo que eu estava certo."
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