http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=560JDB001

MÍDIA DE TRAPIZONGAS
A inspiração do avestruz

Por Alberto Dines em 20/10/2009

O mais respeitado suplemento literário do mundo ibero-americano é o "Babelia" 
(sábados, El País). Na última edição (nº 934, 17/10) nenhuma palavra sobre a 
Feira de Frankfurt nem sobre o apresentação oficial do Kindle, o leitor de 
livros digitais, lançado dias antes pela Amazon. O silêncio contrasta com o 
comportamento do Brasil novidadeiro que comemorou com rojões o lançamento da 
nova trapizonga (no dizer de João Ubaldo Ribeiro).

A Feira de Frankfurt é o maior evento livreiro do mundo; não é propriamente 
literária, mas claramente comercial: os editores querem ver o que há de novo e 
o que podem comprar para lançar em seus países. Já os suplementos literários ou 
culturais funcionam na etapa seguinte e em outra direção: vendem conteúdo, 
acompanham os lançamentos, apuram o gosto do público, tentam despertar 
interesses e levar mais gente a freqüentar livrarias e a comprar livros.

A trepidação em torno do Kindle na mídia brasileira (inclusive nos cadernos 
culturais), além de prematura, excessiva, é caipira (ver "O avanço para trás"). 
O livro digitalizado pertence à esfera dos formatos e das tecnologias, o que 
pulsa dentro deles é literatura, qualquer que seja o gênero. E os veículos de 
comunicação, na condição de ferramentas disseminadoras de cultura, deveriam 
atentar para o seu "modelo de negócio" baseado no estímulo continuo à 
curiosidade intelectual e ao hábito de leitura. No papel ou numa maquineta 
eletrônica.

Futurismo sem lastro

Se no Brasil o Kindle transformar-se num incentivador da leitura e da busca do 
conhecimento, então viva o Kindle. Mas antes de promovê-lo ao status de 
"messias" e solucionador do nosso atraso cultural, conviria resolver os 
problemas subterrâneos que comprometem e atravancam a adoção universal das 
novas tecnologias de informação.

Nossa mídia detesta noticiar os apagões que freqüentemente silenciam os nossos 
celulares porque o telemóvel é o aparelho que mais se vende no Brasil (e também 
o que mais se rouba). Colocar o sistema de telefonia móvel sob suspeita pode 
representar um tranco pesado na publicidade do varejo de eletrodomésticos. 
Nossa mídia também não gosta de encarar a baixíssima qualidade da banda larga. 
Se o fizer estará admitindo que suas edições digitais apresentam sérios 
handicaps funcionais.

O avestruz é o símbolo e o inspirador da nossa mídia. Ao invés de identificar 
problemas e mostrar que sabe solucioná-los, prefere escondê-los. A melhor prova 
é a queda da qualidade das transmissões radiofônicas em FM, visivelmente 
prejudicadas pela interferência das antenas de telefonia celular instaladas 
aleatoriamente, sem controle, nas coberturas dos prédios e multiplicadas com 
incrível velocidade.

Os conglomerados de mídia que operam no segmento radiofônico jamais admitirão 
que ouvir rádio nas grandes cidades brasileiras deixou de ser um prazer. As 
agências de publicidade – que teoricamente deveriam defender os interesses dos 
anunciantes fiscalizando a qualidade da transmissão – preferem contornar e 
camuflar as dificuldades.

O rádio é um meio de comunicação insuperável – desde que funcione e seja 
ouvido. É mais confortável e mais rentável saudar o Twitter como a grande 
revolução na comunicação, inebriar-se com os milagres do Kindle e idolatrar a 
as novidades paridas diariamente pelos tecnocratas.

O futurismo sem lastro humanista é estéril. É o outro nome da cultura da 
obsolescência. Ambos são tabus. Principalmente na taba tupiniquim.



      
____________________________________________________________________________________
Veja quais são os assuntos do momento no Yahoo! +Buscados
http://br.maisbuscados.yahoo.com

_______________________________________________
Instruções para desiscrever-se por conta própria:
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/options/bib_virtual
Bib_virtual mailing list
[email protected]
http://listas.ibict.br/cgi-bin/mailman/listinfo/bib_virtual

Responder a